Por Larissa Santiago para as Blogueiras Negras

Essa semana eu visitei uma grande empresa aqui no Recife. Caminhamos por toda ela, conhecendo pessoas e lugares até chegarmos ao departamento de criação: o lugar da efervescência de ideias e da criatividade. Uma sala enorme e climatizada abrigava as pessoas sentadas, dispostas como numa posição de empregados numa fábrica, em série. E meus olhos se negaram a ter certeza do que eu via e de pronto perguntei: “quantos são?” Eram 56 pessoas, dentre elas 7 mulheres. Nenhuma negra.

Segundo Vera Regina Baroni, “as mulheres negras foram invisibilizadas na história (…) A maior dívida não se prende apenas a fatores biológicos, estéticos, culinários e afetivos, entre outros, mas sim à negação e ao não reconhecimento pelo legado de manutenção dos valores estruturantes da identidade ancestral pela formação religiosa, além da valentia, determinação, resistência e profundo desejo de liberdade”.

Apesar de todos os avanços, todas as vitórias, ainda estamos invisíveis quando (e se) estamos nos locais de trabalho, nos espaços de poder, nas discussões.

Mesmo nos modelos de trabalho mais modernos, não estamos. E quando estamos, somos invisíveis. E estamos na história há tanto tempo! O Movimento de Mulheres Negras no Feminismo é um exemplo disso.

Maria Felipa participou das lutas pela independência na Bahia.

Maria Felipa lutou pela independência na Bahia.

“No período da Republica no Brasil, vemos as mulheres negras – sempre a partir de seu pertencimento à religião de matriz africana – assumindo o protagonismo na criação e manutenção de organizações artísticas e musicais como é o exemplo do samba na Bahia e das agremiações de frevo no Recife”, reporta Ana Paula Maravalho – Conselheira Gestora do Observatório Negro. Ainda assim, pouco se percebe, se documenta, se registra e se conta a passagem das mulheres negras na construção da história. Você conhece Maria Felipa? E Lélia González? Inaldete Pinheiro?

A voz dessas mulheres ecoa baixinho entre as outras tantas esquecidas, assim como as das tantas empregadas domésticas, serventes, auxiliares de produção e publicitárias. As que estão nos espaços, na maioria das vezes, não são ouvidas ou nem são incentivadas a falar. Essa invisibilidade está também nas capas de revista, na falta das modelos negras, na marginalização das mulheres de terreiro.

Hoje é um dia de luta dupla: um dia pra lutar pelos diretos das mulheres e pela visibilidade delas. Pela nossa visibilidade, pelo direito de contar nossas estórias, nossos pontos de vista sobre violência, saúde, beleza e felicidade. Sim, porque apesar das dores e lamentos do dia-a-dia , nosso sentimento de alegria resiste.

Hoje, além de todos os outros dias, é dia de aparecer. É dia de ocupar os departamentos de criação, os volantes, as empresas. De colocar nossa cara na rua, de receber os chocolates, o respeito e as rosas sim, dizendo que merecemos isso todos os dias. Que merecemos estar e ser vistas com respeito, ouvidas, percebidas nos espaços que são e serão sempre construídos por todas nós.