Por Charô Nunes para as Blogueiras Negras

Algumas manifestações do racismo costumam ser consideradas sem importância, ainda mais num país onde muita gente considera o próprio racismo como algo de menor importância. Alguns diriam que ninguém morre por não estar na capa da revista, nos espaços acadêmicos, nos desfiles de moda, na política. Ninguém morre por causa de mais uma piadinha, de mais uma blackface na televisão ou no teatro.  Certo?

Antes de tudo, preciso explicar que a blackface é tudo menos uma piada inocente que acontece nos sábados à noite na televisão e no teatro (Tiago Abravanel se pinta de negro para interpretar Tim Maia). É um instrumento racista clássico que se iniciou no teatro estadunidense quando atores brancos pintavam seus rostos de preto para criar retratos estereotipados de pessoas negras, contribuindo para a disseminação e decantação do racismo.

O assunto desse post é exatamente esse – uma imagem mostrando uma blackface e outra com menção ao nazismo. Já temos a notícia de que não são montagem. Mesmo que sejam fruto de uma brincadeira entre amigos, decidimos escrever sobre seu conteúdo racista, sexista e totalitário.  Ainda mais quando pensamos que as personagens retratadas são provavelmente alunos da faculdade de direito da UFMG.

I. Dona Adelaide, a vergonha

A prática da blackface vem aumentando entre nós. E de tanto ser reeditada, tem sido encarada como algo socialmente aceito na televisão e no teatro. Já aconteceu de uma pessoa, com óculos e peruca afro, me dizer toda sorridente que se lembrou de mim. Como se fosse uma homenagem, sem perceber que a principal característica da blackface é justamente contribuir com a desumanização da pessoa negra e naturalizar o racismo.

A principal consequência do que muita gente considera piada é o cultivo potencialmente letal do racismo. É assim que se aumenta a viscosidade do preconceito que passa a se infiltrar nas menores brechas. Exemplo discreto desse fenômeno é a recente campanha do Sebrae sobre empreendedorismo promovido por mulheres. É a única personagem negra, tão empreendedora quanto as outras, que fala errado.

Aqui no Brasil, o maior embaixador da blackface é Rodrigo Sant’Anna com sua asquerosa Dona Adelaide, uma das manifestações mais agressivas que já pude presenciar na televisão. Nem mesmo Monteiro Lobato construiu personagem tão racista. Tudo nessa mãe preta é hipérbole – a falta dos dentes, o cabelo bagunçado, o nariz desproporcional, o modo errado de falar, as roupas coloridas.

II. Trote Xica da Silva

Trote racista no UGMG

Trote racista no UGMG

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Uma vida de preconceitos e nada do que já vivi me preparou para o dia de hoje. No facebook vem sendo reproduzida uma imagem supostamente feita num trote na faculdade de Direito da UFMG. Numa delas, uma mulher branca pintada, sobre o seu corpo um pedaço de papelão com os dizeres – “caloura xica da silva”. Encontra-se a correntada e presa por um homem branco, provavelmente heterossexual de classe-média (1).

É como se o trote fosse uma espécie de caçada, em que cada veterano precisa acorrentar seu tipo de mulher preferida. E como sabemos que negras ainda são produto escasso nas fileiras universitárias, restou a esse estudante fingir que conseguiu um pedaço da carne mais barata do mercado. E assim se perpetua séculos de racismo e sexismo com que somos tratadas, escravas sexuais, objeto de fetiche, desumanizadas.

Mesmo que essa imagem seja uma brincadeira, em nada é diminuído sua gravidade.  A menção à Xica da Silva significa que nós, mulheres negras, não devemos ultrapassar certos limites e ocupar certos lugares. Passados alguns séculos, aiinda é inconcebível que uma mulher negra seja livre como foi Xica. Eu e todas as blogueiras que escreveram e escreverão aqui, deveríamos estar acorrentadas. Esse lugar não nos pertence.

Justamente por isso que decidimos não nos calar, colorir mais ainda a internet.

III. Amanhã

Essa não é a única imagem desse trote. Em outra foto a vítima é um homem pintado de vermelho e acorrentado. Sobre ele outro pedaço de papelão com dizeres que se encontram encobertos. Porém, como o ponto de interesse são alguns homens brancos fazendo a saudação nazista (um deles imitando com um pouco de tinta um tipo de bigode em especial) a gente até imagina qual é a mensagem apesar de não sabermos qual foi o grau de constrangimento envolvido.

A gravidade dessas imagens é ainda maior quando sabemos que esses jovens provavelmente são estudantes da faculdade de direito da UFMG. Não é o tipo de comportamento esperado, nem fora, nem dentro da universidade. Não importa se foi uma brincadeira, como certamente dirão no futuro. Fica o alerta de que  todas que não somos homens, heterossexuais, brancos e de classe-média somos alvos em potencial.

Amanhã pode ser com você.

A boa notícia é que hoje acontece uma reunião do CAAP (Centro Acadêmico Afonso Pena) para ouvir os envolvidos. Espera-se que até amanhã as primeiras providências sejam tomadas. A reitoria da faculdade pretende se posicionar sobr eo caso ainda hoje. Fica o pedido para que a punição seja exemplar, o que não aconteceu quando da denúncia de trotes envolvendo a homofobia.

1. Nenhum dos meus textos é um produto acabado. Em função dos comentários acerca da hipótese de o opressor ser heterosexual, reconheço uma generalização desnecessária para a compreensão do tema e agradeço as contribuições. Entretanto, gostaria que de alguma forma o teor sexual do caso UFMG seja levado em consideração.