Por Zaíra Pires para as Blogueiras Negras

Ainda estou tentando responder a essa pergunta. Como feminista, lésbica, negra e pobre vivendo em São Paulo, suspeito que essa cidade me faça algumas reservas e economize um pouco em suas gentilezas.

Young smiling woman holding digital tablet, portrait

sxc.hu em CC

O quanto o local onde vivo consegue me acolher e integrar diz muito sobre quem eu sou, minha autoestima, como me movimento e utilizo os espaços disponíveis para meu lazer e sobre o que consumo.

Uma coisa que definitivamente não consigo entender (ou consigo) é a dificuldade em encontrar uma colocação profissional. Está caminhando para um ano que concluí a graduação em Jornalismo, aliás, como bolsista pelo PROUNI, mérito que cabe a mim e a programas de transferência de renda e à política de cotas da qual me beneficiei – se bem que a palavra “benefício” não faz justiça. Está mais para equiparação de oportunidades e pagamento de uma dívida histórica.

Apesar disso, tenho dificuldade em ser selecionada para participar de entrevistas e dinâmicas. Sou recusada antes mesmo de uma um contato direto. Mais uma das minhas suspeitas é que me excluem pela universidade que frequentei, que não é uma das tradicionais de formação superior em comunicação, mas, apesar disso, tem excelentes notas em avaliações nacionais de desempenho dos alunos e de formação dos professores.

Um segundo ponto, que eu creio ser importante, é o fato de ser negra, não ter cabelos alisados, e ser lésbica. Inclusive, para comunicólogos como eu, perfis em redes sociais como Twitter e Facebook contam pontos na avaliação dos candidatos em processos seletivos, e os meus informam explicitamente que sou lésbica, feminista e insubmissa, ou seja, empregadores que preferem funcionários domesticados terão problemas comigo.

Poderia simplesmente restringir o acesso às informações sobre mim que estão disponíveis na rede, mas faço questão de que minha condição sexual e minha etnia sejam públicas, porque uma empresa que me recusa pela minha raça ou minha orientação sexual não me serve. Mas o preço a se pagar por essas escolhas é, por vezes, muito caro, afinal, continuo fadada ao subemprego.

Minha estratégia, por hora, é me qualificar, me atualizar sempre. Como próximos passos, pretendo aperfeiçoar o inglês, fazer um intercâmbio e uma pós graduação, nessa ordem. Quem sabe no meio do caminho, meu currículo não cai nas graças de uma empresa séria, democrática e responsável, e eu não consiga, finalmente, me colocar em um local que valorize minhas qualidades e saiba se beneficiar do que posso oferecer através de minha vivência de mulher negra, lésbica e pobre, afinal, também somos consumidoras, formadoras de opinião e cidadãs paulistanas, e o que pensamos e sentimos faz muita diferença!