Por Larissa Santiago para o Blogueiras Negras

É público e notório que o feminismo tem sua origem com as mulheres trabalhadoras brancas. É também fato que há diferentes “categorias” de mulheres, diferentes opiniões e visões de mundo – isso é inquestionável. O que pretendemos discutir nesse texto é o que praticamente pode ser feito para que o feminismo paute questões raciais sem (infindáveis) desgastes, mas com amadurecimento. Discutindo e refletindo muito nessas últimas semanas, esta autora tentou elaborar um pequeno pensamento sobre como sermos práticas nas discussões sobre feminismos e feminismo negro.

PANTERA NEGRA

No seu texto clássico, Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero, Sueli Carneiro cita a feminista negra americana Patricia Collins:

“(…) O pensamento feminista negro seria um conjunto de experiências e ideias compartilhadas por mulheres afro-americanas, que oferece um ângulo particular de visão de si, da comunidade e da sociedade… que envolve interpretações teóricas da realidade das mulheres negras por aquelas que a vivem…” A partir dessa visão, Collins elege alguns “temas fundamentais que caracterizariam o ponto de vista feminista negro”. Entre eles, se destacam: o legado de uma história de luta, a natureza interconectada de raça, gênero e classe e o combate aos estereótipos ou “imagens de autoridade”.

Ora, oferecer um ângulo particular de visão significa dizer que todas (brancas, índias) podemos entender e reconhecer as demandas da mulher negra, mas o nosso lugar de fala é diferente e precisa ser respeitado. O mimimi do “eu sou privilegiada e não posso falar de feminismo negro” precisa ser enterrado junto com toda prática de negação desse privilégio. O diálogo prático acontece quando as pessoas reconhecem seus lugares e se ouvem solidariamente.

No trecho acima, Patricia Collins fala dos três temas fundamentais, destacarei por enquanto somente um deles: O legado de uma história de luta. Assim como os movimentos tem sua história particular, o feminismo negro ou a luta da negritude não pode ser ignorada quando se dialoga em qualquer instância. Esquecer isso é negar um passado de resistência, de afirmação e construção coletiva de memória – o feminismo precisa entender que a mulher negra conhece essa luta e quer ser considerada neste lugar quando inserido for o recorte de raça no movimento.

Por fim, enegrecer o feminismo é também falar de branquitude: é entender o privilégio, reconhecer que mesmo não concordando nem compactuando com o sistema simbólico do ser branco, ter privilégio racial é uma questão de reconhecimento externo.  É o que Johnson (2005, 103-7) chama de “a experiência paradoxal de ser privilegiado sem se sentir privilegiado”.

Tentando ser prática, esta autora pretende continuar a discussão sobre como pautar as demandas das mulheres negras nos diferentes movimentos em outros posts. Talvez com mais conversa, consigamos todas nós entender o que pode ser mais prático do que apontar erros, insistir no enfrentamento ou mesmo construir soluções no dia-a-dia. Com o peito cheio (de diversas coisas misturadas) e esperando trazer reflexões, convido vocês a lerem algumas das companheiras.

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Larissa é baiana e escreve no Mundovão e no Afrodelia.


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