Por Larissa Santiago para o Blogueiras Negras

Finalizando a sequência dos textos que tem como tema as Relações Interraciais, esta autora parte para o último tópico proposto: O Desejo construído. Segundo Freud (um dos mais conhecidos psicanalistas, mas não o mais empático) o Desejo

É uma idéia (Vorstellung) ou um pensamento, algo distinto da necessidade. O desejo se dá a partir da representação. Diferente das pulsões que devem ser satisfeitas, o desejo é uma falta.

Nessa definição encontramos vários outros conceitos descritos por Freud, mas duas coisas que precisamos destacar é que o desejo se dá a partir da representação e de que ele é uma falta. Quem já leu alguma coisa sobre, sabe que o desejo está diretamente relacionado com a linguagem: quando o bebê reconhece seu objeto de desejo (peito, colo, etc) ele o faz através da ação de sua mãe: gestual, sonora, que lhe introduz uma linguagem toda específica para aquela satisfação.

Sendo assim, fica mais ou menos fácil entender que é através da linguagem que nós identificamos como podemos satisfazer nossos desejos e que ela é um dos instrumentos pelos quais nós reforçamos e construímos nosso sistema simbólico do que nos satisfaz ou não. Se colocarmos isso em prática, perceberemos que na publicidade, por exemplo, todas as imagens (sejam ela de pessoas ou objetos) são sempre representações do que nós gostaríamos de ter, sejam imagens de comida, roupas, perfumes ou pessoas, e aí não preciso nem repetir o que geralmente vemos que faz com que nosso desejo seja vulnerável às construções de outrem.

VelazquezVenues

Vênus ao Espelho – de Diego Velázquez (1647)

Levando em consideração a outra afirmação de Freud de que o desejo é uma falta, logo podemos entender que a construção do nosso desejo também usa dessa falta para que a satisfação seja plena. Pensemos num exemplo: uma mulher negra solteira vai numa balada e coincidentemente fica com um homem branco solteiro. Somando todos os estímulos recebidos na construção do seu desejo, mais a falta que esse mesmo desejo ocupa no seu imaginário, há de se julgar que essa mulher está satisfazendo o que lhe é mais inconsciente – e aí não estamos levando em consideração NADA do que seriam gostos, vontades ou o que mais queiramos denominar como algo “essencial”.

Por fim, o que se pretende dizer neste texto (e que novamente não tem nada de permanente e nem possa ser questionado) é que nosso desejo mais subjetivo, seja por homens, mulheres, negros, azuis ou laranjas é construído da maneira mais sutil possível, desde o nosso nascimento. E essa construção que usa as linguagens como ferramentas, desenham e moldam nossas escolhas mais inconscientes – desde nossa cor favorita até nossos parceiros sexuais. E não é à toa que nossas definições de beleza, limpeza, honestidade tenham como imagem ideal a que se considera norma, regra (ou branquitude).