Por Mara Gomes para as Blogueiras Negras

A sociedade que vivemos exerce um papel impositivo de normas e modos de vida que devem ser seguidos. Vivemos no capitalismo e é de se notar que esse sistema automaticamente comercializa qualquer coisa, inclusive costumes e modos de vida, ou seja, o que é moral e o que não é. Observamos que se trata então de um modo de produção de uma moral coletiva e essa moral se manifesta, principalmente, através dos costumes, do que compramos e vestimos, do que falamos e reproduzimos para os outros e também, mais importante, dentro do contexto que pretendo abordar, da nossa aparência.

Quem não segue a risca essas doutrinas é julgado como sendo o mais fraco dentro desse jogo de poder, um jogo que separa – na maioria das vezes de tão instituído no nosso modo de vida separa inconscientemente – quem se adequa mais ao que a cultura dita e quem não se adequa totalmente. A mídia é a ferramenta primordial desse processo, ela não só produz, como dita, dentro de um discurso repetitivo e reto, as normas de convivência. Principalmente o que é um corpo bonito, e, acima de tudo, o que é a beleza em todos os sentidos.

O corpo feminino é o único corpo considerado, antes de qualquer coisa, mercadoria. A mulher, antes de adotar a si mesma alguma face identificatória de sua escolha, é considerada um acessório, somente algo para ser olhado. Com isso, para ser “vitoriosa” na vida, ela necessita ter um comprador, ter como destino final a compra que vem, nesse contexto, sempre do sexo masculino. Na sociedade é perpassada a ideia de que a mulher se interessa por dinheiro, logo o “macho comprador” precisa ter um bom emprego, um bom carro, ser um herói capitalista para poder enfim conseguir a mulher mais almejada.

Em qualquer lugar em que a mulher se insira ela é julgada pelo tipo de aparência que apresenta e não pelo o que ela tem a oferecer intelectualmente ou de qualquer outro modo. Para um homem isso não é exigido e para uma mulher isso é uma demanda necessária. Percebemos isso no trabalho – exemplo singelo dentro de tantos outros que existem- quando uma mulher é promovida se pergunta que “favores sexuais” ela fez para conseguir tal cargo, já o homem é por esforço pessoal, essa é uma relação de praxe no nosso dia-a-dia. Quem nunca viu?

O corpo perfeito é uma imposição social midiática que influencia um mercado imenso de cosméticos, academia, saúde e outros any processos. O que poucas pessoas notam é que esse corpo perfeito além de magro é branco. A mulher branca é considerada o modelo de beleza a ser seguido por todas as outras mulheres. Dentro disso, imaginem como uma mulher negra molda a sua autoestima nesse ambiente que grita pelos quatro ventos que ela não é bela, que ela não é aceitável e precisa tentar ser diferente a todo custo para poder ser feliz, ter “sucesso” na vida. Não há como não se reproduzir corpos psicologicamente afetados dentro de um sistema desse tipo, que impõe uma forma de ser de um modo tão sufocante que faz isso sem deixar qualquer brecha para “o diferente” poder respirar.

Quando se digitam as palavras “mulheres lindas” no Google o resultado é apavorante, na procura, depois de passar três ou quatro páginas encontrei uma mulher negra e era uma modelo de pele mais clara e cabelos lisos, traços leves no rosto, uma beleza negra que é mais aceitável dentro desse modo de vida doentio que se cultivam no nosso mundo.

Existe o vídeo chamado “See Why We Have An Absolutely Ridiculous Standard Of Beauty In Just 37 Seconds” (Veja por que temos um padrão absolutamente ridículo da beleza em apenas 37 segundos) onde mostram os retoques que se faz para que o corpo da mulher fique perfeito e aceitável para a comercialização de sua imagem. Como esses padrões se diversificaram e mudaram de um tempo para o outro não é uma explicação necessária, o que é de extrema importância é saber de onde vêm esses estímulos que mudam gostos e desvirtuam mentes e corpos.

A cultura é a engrenagem principal desse processo, seguida pela mídia que é a disseminadora e produtora daquilo que já é colocado como um fator primordial no convívio em sociedade. A mulher do vídeo é loira e branca e precisa de vários retoques para ficar perfeita, pois então imaginem por um momento se ela fosse negra. Como seria?

Peguei-me pensando nessa possibilidade, obviamente clareariam a sua pele, lembram do caso Beyoncé e Loreal? Afinariam também o seu nariz, alisariam e clareariam o seu cabelo, diminuiriam seus lábios, fariam de tudo para que ela ficasse o mais perto possível da imagem de uma mulher branca. Por isso existem os diversos processos de alisamento de cabelo, por isso a mulher negra desde pequena quer mudar o que é, quer fugir de tudo que lhe é natural para poder se parecer com o que é pedido a ela pela sociedade, pela mídia, por todos.

Foto: Carrie Mae Weens

Foto: Carrie Mae Weens

O corpo considerado perfeito é magro e também branco, quando mais claro mais bonito, mais aceitável. O fato de esse corpo feminino ser considerado belo por ser claro confronta diretamente a construção da autoestima de uma mulher negra. Por não se ver como alguém socialmente quisto na televisão, nas revistas, na literatura e não esquecendo-se também na história, a mulher negra é um ser colocado a parte da junção do que é belo. Se existe a divisão entre o gordo e o magro, existe a separação entre negro e branco.

Toda a mulher vive, por causa da supremacia patriarcal e machista, com o constante alerta de não estar “boa o bastante” para o que lhe é exigido pela sociedade. A mulher negra sofre uma dupla opressão, racial e sexual, então o seu trabalho para se “adequar” àquilo que lhe é pedido pela cultura é duplamente sufocante o que causa uma grande defasagem na construção da sua autoestima, o que não deixa de ser um distúrbio destrutivo tanto quanto os distúrbios alimentares, mesmo nem sempre sendo considerado grave a esse ponto. A construção da autoestima é algo importantíssimo, pois cria uma estrutura para o sujeito poder lidar com as questões da vida de um jeito equilibrado e mentalmente estável, sem isso a mulher corre o grande risco de construir-se com danos psicológicos que se desvendarão depois como distúrbios de relacionamentos e diversos tipos de sofrimento psíquico.

Felizmente podemos lutar contra isso com páginas como Preta&Gorda, Meninas Black Power, A Mulher Negra e o Feminismo, Blogueiras Negras e tantas outras que estão surgindo e crescendo com o propósito de ajudar a mulher negra a descobrir o amor por si mesma, ajuda-lá a desvendar a sua beleza que é deveras defasada pela mídia diariamente. A nossa luta é infinita, mulheres negras! A nossa luta tem muito chão pra percorrer ainda, mas não vamos nos calar, não vamos desistir. Nossa beleza não é mercadoria, ela é algo que grita resistência, somos duramente marcadas por uma sociedade machista e mesquinha, mas resistiremos, cresceremos e permaneceremos fortes dentro dessa batalha contra o racismo e o machismo, não há nada como o apoio de uma as outras para fortalecer e recuperar o que nos foi roubado.

Por isso: mulheres negras, uni-vos!