Apesar dos esforços históricos dos profissionais da Psicologia para popularizar a prática e problematizar questões sociais pertinentes, a área no Brasil continua tendo uma atuação profundamente elitista e inacessível para a população. Além da falta de disponibilidade para que pessoas de todas as classes socioeconômicas possam contar com o acompanhamento psiterapêutico, os cursos de graduação e os consultórios de Psicologia são predominantemente compostos por indivíduos pertencentes a um perfil muito específico de gênero, cor e classe, revelando assim uma categoria onde a negritude não está presente e nem é discutida.

A verdade é que o acesso aos cursos de nível superior é extremamente restrito no Brasil. Não são todas as pessoas que contam com a oportunidade de ingressar em uma faculdade, principalmente se esses sujeitos não forem brancos e não dispuserem de uma situação econômica de relativa segurança. Entrar na faculdade, por si, não é garantia de inclusão efetiva, pois permanecer no estudo é um privilégio. No entanto, até mesmo a opção simples de estar em uma ambiente acadêmico é negada à população negra. A pior parte disso tudo é que nem o Conselho Federal de Psicologia e seus seus braços regionais, nem o campo acadêmico parecem se mobilizar para debater a questão e solucionar o problema.

A questão é muito mais profunda do que pode parecer em um primeiro momento e nem de longe está resumida ao problema do racismo nas Universidades. O que torna os cursos de Psicologia e a prática profissional tão alheias a vivência das pessoas negras é a tendência quase generalizada para a demagogia e individualização de questões socioculturais. Ou seja, os discursos de inclusão racial são escassos e parecem existir com a única intenção de cumprir um papel hipócrita de fala, falhando miseravelmente quando a demanda da realidade apresenta um cenário que vai além da experiência individual e subjetiva de cada pessoa negra.

Isso é responsabilidade parcial da mentalidade clínica fechada da maioria dos estudantes e profissionais, que não conseguem enxergar as práticas e questões psicólogicas além do consultório onde uma pessoa deverá falar sobre sua vida. Depoimentos de pessoas negras indignadas com a despolitização de seus psicoterapeutas são assustadoramente frequentes: as narrativas têm em comum profissionais despreparados e sem senso crítico, que atribuem o sofrimento causado pelo racismo a algo individual e a uma questão de aceitação e superação. Por mais absurdo que isso possa parecer, esses depoimentos mostram que uma quantidade enorme de psicólogos e psicólogas responsabiliza os negros pelo racismo que sofrem, sugerindo que os negros precisam “se aceitar” ou que estão “enxergando racismo demais” onde há uma situação unicamente subjetiva.

Tal ignorância é gravíssima, primeiramente, porque torna ainda mais difícil o quadro de sofrimento psíquico dos clientes negros que vão ao consultório e contam longas histórias de vida repletas de discriminação e violência; basta imaginar o que é ouvir que a responsabilidade pelo racismo é sua, quando o racismo não é uma questão de falta de motivação ou “vontade de mudar”. A discriminação racial não vai desaparecer da sociedade se aquele cliente decidir que “se aceita”, tampouco deixará de ter suas influências sobre ele – especialmente em sua realidade física, quando é barrado em ambientes e instituições. Segundo, porque é nesse aspecto que a Psicologia já abre as portas em um estado deplorável de erro e despolitização. E não dá só pra transferir a responsabilidade para os péssimos profissionais que fazem esse trabalho omisso, pois a dificuldade em ser efetivamente política é enfrentada por todas as pessoas que compõem a Psicologia e já é uma discussão de longa data, que começou há muitas décadas, com a própria formação da Psicologia Social no Brasil.

Não é por acaso que há pouquíssimos psicólogos negros e, mesmo em um curso com um recorte de gênero tão delimitado – pois a presença feminina ainda é maioria -, as mulheres negras são pouco encontradas. Não há debates, seminários ou mesas dedicadas a problematizar o racismo em quantidade relevante. Muitos alunos passam por todo o período de graduação sem ver qualquer evento voltado para o tema. Se for levada em conta a parcela de responsabilidade do Conselho, é possível identificar medidas limitadas e elitistas, que de forma alguma conseguem ser palpáveis para a população negra e pobre. Os eventos são pouco divulgados e a atuação prática na sociedade é quase inexistente. Afinal, quantas iniciativas o Conselho já fez além dos ambientes com ar condicionado e das cartas esporádicas publicadas na internet?

Os estudantes e psicólogos precisam enxergam além do corporativismo e da defesa cega da “reputação” da Psicologia, pois de nada adianta lutar para que a área seja enxergada com menos preconceito e tenha mais reconhecimento da sociedade, se os mesmos atuantes tornam esse campo problemático. O que mancha a reputação da nossa profissão é despolitização da mesma e a omissão institucional na hora de coibir práticas anti-éticas. Não adianta denunciar irregularidades e crimes ao CFP, pois os profissionais racistas, homofóbicos e misóginos continuam atuando livremente.

Além disso, os estudantes dos cursos de Psicologia precisam se engajar politicamente e abandonar a mentalidade elitista relacionada aos discursos da saúde, deixando-os de lado como projetos de médicos, que avaliam a doença de um indivíduo e ali terminam seu papel. A academia precisa ser um espaço de transformação social e a Psicologia precisa ser social sem interrupção. Ou seja, é preciso ir além do clichê de que “toda Psicologia é social”, pois infelizmente a realidade está bem distante dessa colocação. Ser social é mais do que enxergar a interação entre os indivíduos e a importância das relações interpessoais, é saber identificar as forças culturais vigentes e lutar para romper a exclusão. Não é possível construir uma Psicologia verdadeiramente transformadora se ela não for anti-racista.

Os psicólogos precisam refletir sobre suas práticas, independente de abordagens ou áreas de atuação, e devem se questionar sobre suas posturas e formas de lidar com o racismo. Um profissional que consegue se perguntar se está contribuindo para a manutenção da desigualdade racial tem muito mais chances de construir e manter uma postura realmente compromissada com o bem estar do ser humano. Somente a partir daí é possível pensar na valorização profissional, que caminha de mãos dadas com a valorização da negritude.