Por que pessoas negras desenvolvem transtornos mentais e por que não recebem auxílio psicológico? O racismo precisa ser apontado, revelado e discutido. Sem combate ao racismo, não há saúde pública mental no Brasil. Não é mais possível manter a folclorização do sofrimento: a mente cuidada não pode ser um privilégio de poucos.
  • :))

  • Bruno

    Incrível como O odu liga as coisas, hoje indo ao trabalho me veio a cabeça do nada uma lembrança. Quando era pequeno, na igreja de minha mãe, fui convidado na escola dominical a fazer uma peça teatral onde onde se apresentavam personagens de cada país do mundo e no final todos saldavam o Cristo como rei das nações. A professora entregou todos os papeis, o japonês, o inglês, o árabe etc… e na hora de dar o meu se aproximou com uma cara de piedade, como se tivesse me pedindo desculpas pelo que ia dizer, e então disse: ” Olha como você é o mais moreninho , você não se importa de ser o africano”? ( como se a Africa fosse um país né ?). Eu, uma criança de 7 anos vendo todos me olhando como se eu tivesse ficado com o pior papel do mundo, como se ela tivesse me dado o papel de satanás. Claro não aceitei, fiquei com o papel de ficar na multidão como se fosse um figurante. Passei uma toalha branca no corpo e coloquei umas folhas atras da orelha, tenta parecer… sei la um romano, um grego. Essa foi a primeira vez que me lembro de ter tido vergonha de ser negro. Os adultos já influenciam as crianças a se olharem como uma coisa sem valor, foi então que pensei. Será que a autoestima dos negros é menor que a autoestima dos brancos? A resposta parece meio obvia, mas pra ter valor precisa ser documentada em pesquisa. Daí chego em casa e leio um artigo destes. Totalmente inspirador pra fazer tal pesquisa. Obrigado Jarid.

    • OI, Bruno. Tua história me lembrou outra que presenciei. Eu trabalhava como professora de Artes em uma escola estudual no interior de Minas e certa vez, estávamos nos preparando para a Semana da Consciência Negra. Pediram-me para ajudar com a peça sobre Zumbi e comecei a dialogar com a turma sobre o tema e já ir distribuindo os personagens. A turma possuía apenas um menino negro, que por minha humilde sapiência, seria com certeza o herói da história que iria ser encenada. Contudo, fui chamada na supervisão para ser informada que eu estava equivocada, que o menino que iria interpretar o personagem principal seria outro, com melhor aproveitamento escolar e filho do funcionário do postinho de saúde… Ah, detalhe, de acordo com o que contei acima, o menino escolhido não era negro… Enfim, este é o nosso Brasil!

  • j

    Eu sou a prova desse transtorno, sou formada e pós graduada e não consigo uma oportunidade decente, sempre sub empregos, até me chamam para entrevistas boas, me elogiam mais nunca sou aprovada.
    Estou farta de tudo isso, já pensei em acabar com tudo várias vezes, isso não é justo.
    Cresci num ambiente EXTREMAMENTE racista, a minha família, meus pais sempre me desprezaram por ser mulata escura e eles mais claros, até hoje com 39 anos escuto da minha mãe que não sabe porque nasci tão escura.
    É difícil.

  • Natália Maria

    Jarid! … ! <3

    gratidão!

  • Gostaria de agradecer por mais essa abordagem, pois para tratar problemas é fundamental entender a eles e suas causas. Por mais que cada negro e mulato (e outros, claro) tenha muito frequentemente lidado com o racismo e portanto o enxergue, há aspectos que nos passam despercebidos, devido ao “costume” e naturalização do racismo e dos tratamentos desiguais. A cada aspecto e consequência do racismo abordado, passamos a compreender a amplitude do problema e a entender muitos problemas que acometem a sociedade.
    Enfatizando o que está nos parágrafos 3 e 4, é importante, especialmente para aqueles que usam argumentos como “mania de perseguição” e “coitadismo”, notar que a exclusão racial e muitas vezes econômica, juntas, não acontecem por um dia ou meses e nem quando o indivíduo já está mental e fisicamente formado – e muito menos termina depois disso. Desde que somos crianças, vemos que em programas, novelas e comerciais de TV há pouquíssimas pessoas negras (exceto em época de Carnaval…), e raramente ou nunca em papéis de destaque, menos ainda nas ‘lindas’ histórias infantis e de contos de fadas que vemos. Na escola somos tidos como “os feios” e hostilizados, zombam de nossos cabelos e os chamam de ‘ruins’. Vemos adultos olharem para colegas de classe com expressões como “Olha, que olho lindo, azul!”. Muitas vezes em casa, já temos os cabelos hostilizados e ouvimos coisas como “Você tem que estudar e se esforçar mais do que os outros porque você é negro” (não está tão diferente da realidade, mas expresso dessa forma, é uma mostra de parâmetros e educação errados). Chegamos à vida adulta e a discriminação continua, para relações, para empregos, para locais. Isso tudo muitas vezes somado à condição financeira, de moradia, social e familiar ruins. Por isso, realmente, torna-se difícil enxergar-se de maneira positiva e ter boa autoestima.
    Confesso pra você, até meus 10 anos de idade, eu sonhava em ser loira, de olhos azuis (extremamente triste isso, né), para poder receber a mesma atenção, tratamento e mesma realidade que as pessoas que têm esse biotipo. Já na pré-adolescência, passei a me aceitar, me gostar e ver como muita gente é bonita; mas, para isso precisei de educação, valorização e de referenciais de pessoas que eu admirasse e tivessem um biotipo semelhante ao meu. Esses referenciais foram: irmã, professora e algumas conhecidas.