Por Mariana Barbosa para as Blogueiras Negras

Quando, inspirada por alguns/algumas amigos/as, parei para refletir o que foi ano de 2013 na minha vida, me peguei refletindo a minha negritude.

Enquanto eu ouvia um vídeo do coral de Soweto fazendo uma homenagem à Mandela num supermercado, não conseguia parar de chorar. Aquele canto que mais parecia pranto, carregado de dor e também de história, parecia descer pela minha espinha, chegar aos meus pés e estabelecer uma conexão com meu passado. Foi uma sensação muito estranha. Eu me senti conectada, de fato, à minha negritude, como poucas vezes havia experimentado. Cada uma daquelas vozes era um relato de resistência, de força, de comunhão.

Pareciam me contar uma história…

Então eu refleti!

Em 2013 eu entrei para o Centro Acadêmico da faculdade com a intenção de atuar em prol dos estudantes. Eu já era representante do meu semestre, então me parecia um caminho legítimo a seguir. Mas o que eu escondia, inclusive de mim, era a atração que eu tinha por aquele grupo de pessoas que discutiam um projeto de sociedade em que eu pudesse ser ‘eu’ – mulher negra -; e que o meu ‘eu’ não fosse destoante.

Pela primeira vez, depois de anos em escolas particulares em que eu me sentia como um quadro negro pendurado numa imensa parede branca, eu me permiti ser esse  ‘eu’. Eu me permiti sentir a mim mesma, e a minha negritude desabrochou.

Desse dia em diante a forma como eu via o mundo mudou completamente. Passei a entender algumas preocupações peculiares que pertenciam somente à minha mãe. Comecei a refletir mais sobre o meu irmão e como ele é visto da porta de casa pra fora. Assistir televisão virou um problema. As redes sociais, um prova constante de que a luta contra o racismo está longe de seu fim.

Ele produz indivíduos fraturados, negros e negras, que vêm sua autoimagem distorcida. O racismo trabalha com a desumanização dos/as negros/as. Nossa carne suporta mais dor, nossa morte é menos dolorida, pois somos seres animalescos, mercadorias, produtos de barganha. Lutamos pela nossa liberdade e emancipação; mas ainda carregamos conosco os grilhões que ainda nos prendem a uma história de terror secular.

Em cada lugar em que chegamos, grilhões arrastando no chão, somos lembrados/as de nossa condição de sub-humanos/as.

Não nos é permitida nem mesmo a nossa história. Somos sempre tratados/as pela perspectiva do/a outro/a. Procure ler autores/as negros/as ou africanos/as falando sobre escravidão. Tente. Se esforce…

Nada.

O racismo trabalha com a expropriação de nossa memória pelo furto da nossa história.

Porque nossas crianças aprendem com profundidade e nem ao menos conseguem citar Rosa Parks ou sabem quem foi Dandara, num contexto de Quilombo do Palmares?

Por que não há produção científica Africana na minha graduação?

A transformação social vem pelo rompimento com essa epistemologia viciada. Que conta apenas fatos e versões de privilegiados.

Não quero mais os/as mesmos/as autores/as, filmes, arte, História. Quero Bell hooks, quero conhecer os Panteras Negras, quero saber quem foi o verdadeiro Mandela, odiado por elites brancas durante quase todo o período em que esteve na prisão, e agora idolatrado por essa mesma elite, como pacifista e líder da África do Sul.

O racismo se fortalece da dificuldade que nós, povo afro brasileiro, temos de nos encontrar. De convergir. De nos organizar.

Não veem beleza em religiões de matrizes africanas, não celebram nossas tradições e língua matriz como celebram e veneram a October Fest, por exemplo.

A nós é delegado o Folclore, o desconhecido. A macumba e a capoeira. Não temos cultura. Temos peculiaridades. A nós, sempre a curiosidade do observador externo. Nunca o respeito pelo que somos e cultivamos enquanto tradições.

Fazendo essas reflexões, a militância tomou corpo em minha vida e virou rotina. Como acordar todos os dias e continuar vivendo uma vidinha tranquila, preocupada com as minhas necessidades, quando quase 60% das mulheres vítimas de violência doméstica são negras?

Não há como pegar um ônibus, ir a uma loja, assistir a uma aula na UnB sem que o racismo atinja minha face, me tire o sono, ocupe meus pensamentos. E esse é o preço da consciência. Nunca se permitir parar. Nunca se permitir ignorar.

Mas a militância não é feita apenas de cartazes, manifestações, abaixo-assinados. Ela é maior. Militar é questionar o tempo todo.

É sentir-se incomodado/a com o status quo.

É buscar o debate, a reflexão.

É escrever um texto para um blog e esperar que pelo menos alguém se sinta tocado por ele.

É estudar, capacitar-se; pois o conhecimento é a maior arma que se tem contra a ignorância.

Militar contra o racismo, em prol da igualdade racial, é bater de cabeça num grande bloco de gelo. Vai doer, vai parecer ineficiente durante um tempo, mas no momento em que você perceber uma mudança – por menor que ela seja – aquilo se tornará algo essencial em sua vida.

Já não consigo mais ficar calada.

Eu milito pela mudança.

Para que nenhum/a jovem negro/a seja assassinado/a. Para que nós, negras e negros, consigamos enxergar beleza em nossos traços e retomar a posse de nossos corpos.
Para que a “mulata-tipo-exportação” possa ficar apenas na memória de um país atrasado e eu possa exercer a minha negritude sem culpa.

Basta de Amarildos!

Que a militância tome conta da vida de todas/os as/os negras/os, como fez com a minha e façamos juntos/as, com que cada dia seja um pouco mais abolição.