É fato que a historiografia deixa muito a desejar quando o assunto é a história da mulher. Os livros de história – especialmente aqueles utilizados em salas de aula – insistem em contar uma história feita de grandes acontecimentos e protagonizada por homens (em sua maioria jovens, heterossexuais e brancos). A história que os livros didáticos oferecem aos seus usuários não contempla a multiplicidade da população brasileira. Aliás, não contempla nem mesmo outras regiões do mundo (permanecemos intoxicados pela tradição europeia).
  • Giovana Xavier

    Oi Dulci;
    Seu texto traz reflexões importantes. Sou historiadora e estou com dois artigos no prelo sobre a trajetória de Maria Nascimento (ambos devem sair este ano). O livro da Júnia Furtado sobre Chica da Silva oferece uma interpretação totalmente diferente daquela estereotipada da mulata sensual e irresistível. Certamente uma ou duas obras não resolvem a questão da invisibilidade das mulheres negras na história, mas são um bom começo. Nessa direção, indico o livro Mulheres Negras no Brasil escravista e pós-emancipação, coletânea organizada por mim, Flavio Gomes e Juliana Farias e que conta com histórias de mulheres negras Brasil afora. Seguimos conversando.Encerro com um lindo fragmento de Maria Nascimento:
    Se nós mulheres negras do Brasil, estamos mesmo preparadas para usufruir os benefícios da civilização e da cultura, se quisermos de fato alcançar um padrão de vida compatível com a dignidade da nossa condição de seres humanos, precisamos sem mais tardança fazer política.

    • Dulci Lima

      Maravilha! Quero ler seus artigos sobre Maria Nascimento.

  • Nedi

    Embora concorde com vc em relação a invisibilidade” dela, creio tbm que há a questão de que os negros não tem onde escrever/mostrar sua história e, mais grave, são boicotados pelo aparato da edição/distribuição.

    • Dulci

      Sim, Nedi. Ainda há obstáculos editoriais. Mas, o problema é ainda anterior. Primeiro precisam surgir as pesquisas, depois as publicações. Estamos num momento muito favorável. Por causa da lei 10.639 muitas editoras têm se interessado na publicação de material sobre a história e cultura afrobrasileira. Há inclusive editoras se especializando na publicação desse tipo de material.

  • Dulci, sobre a Chica da Silva tem livro! E de historiadora!

    • Dulci

      Sim, Flávia! Felizmente recentemente tem saído bons trabalhos que “reabilitam” a imagem de Chica da Silva. Mas, o que se mantém no imaginário é a Chica exótica, que tinha escravos, que usava do sexo para conseguir o que queria. Era a isso que eu me referia. Além disso, dentro da ciência histórica vozes isoladas de um ou dois trabalhos não são suficientes para estabelecer um novo paradigma. É importante que haja um corpo de trabalhos sobre Chica e outras mulheres negras para que fundem novos olhares!

  • É como ser invisível tipo nas história toda do Brasil só tivemos alguns papeis: parir, servir e saciar o senhorzinho com a nossa carne exótica e malemolência. E sabemos que o buraco e mais em baixo, e que tem muita coisa em baixo do tapete da casa grande.

    • Dulci

      Jéssica, além de questionarmos a história da escravidão brasileira é essencial que façamos isso em relação a outros períodos. Há um silêncio perturbador em relação a população negra após a escravidão. Para onde foram e o que fizeram os negros e negras desse imenso território brasileiro?

  • Desculpe, quis perguntar onde posso encontrar a publicação.
    Obrigada

  • Olá ! Onde posso a publicação mencionada (Mulheres Negras do Brasil) aqui em salvador?

  • Alessandra Almeida

    Que lindo texto. De fato eh triste ver a nossa historia tao cheia de propositais lacunas.

    • Dulci

      Obrigada, Alessandra!