Todo dia minha rotina é igual: checar e-mails, apurar fatos e descobrir o que a bandidagem andou fazendo durante a madrugada. Repórter policial, isso que sou. O diferencial é que, além de repórter, sou negra e sei bem o que é ser marginal: viver à margem da sociedade.

Na maioria dos crimes – as estatísticas não são exatas – estão envolvidos homens, jovens, geralmente de menos escolaridade e (claro) negros. Acontece que mesmo neste cenário desolador a negritude parece ser pejorativa. As descrições dos suspeitos feitas pelas vítimas aos policiais informam que um homem “de cor”, ou “moreno”, ou “escuro” praticou o crime.

Todo mundo sabe que o cara é negro, mas ninguém fala. Porque se falar pode ser racismo. E no Brasil não existe racismo. Os moreninhos criminosos são herança de negros e negras escravizados, libertos (“libertos”) e depois jogados à própria sorte. E depois de ter a condição de vida negligenciada, os negros também têm sua cor escondida.

Não, não é um mérito estar entre as estatísticas criminais para uma pessoa negra. Acontece que dados não são apenas dados. Dados são histórias e histórias demonstram os porquês. Só que nem a sociedade classe-média-burguesa-que-reclama-do-aeroporto-parecendo-rodoviária, nem as autoridades competentes querem saber dos porquês.

É mais fácil deixar o homem de cor criminalizado e sem conhecer também os fatos que o levaram a ser excluído. Também é mole proteger a família branca cristã que teve os objetos furtados pelos bandidos. Quando tanto vítima quanto polícia e até acusado se negam a enegrecer a descrição de uma pessoa, todos se negam também e admitir que sim, nós somos pretos. Aceitem isso. Sempre fomos e sempre seremos.

O homem escuro é tanto vítima quanto algoz. E nas indas e vindas em delegacias e batalhões de polícia militar realmente acredito que há – e há – bons policiais. Gente que quer defender gente. Mas inclusive eles não têm coragem de perceber o negro e entender a questão racial que permeia os boletins de ocorrência e os inquéritos policiais.

Outro dia um tenente viu uma tornozeleira com as cores da Jamaica usada por um homem (branco, pasmem!) detido por envolvimento com tráfico de drogas. Ele estava sentado e o discurso começou, enquanto ele cortava com um estilete o adereço:

– Eu não gosto disso. Não gosto do Bob Marley. Não gosto da música do Bob Marley e vou tirar isso… (pausa)

Eu olhando com uma cara de “continue” e os outros colegas da imprensa acompanhando a higienização.

(Olhando pra mim):

– Contra a cor dele eu não tenho nada, mas eu não gosto dele.

Os outros jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos imediatamente olharam para mim. Eu num riso meio sem saber o que fazer acendi um cigarro. Ser negra e estar ocupando um espaço antes delegado aos brancos (sim, estou na segunda graduação) como sujeito social ainda não é bem digerido pelas pessoas e alguns comentários podem ofender a “moreninha da imprensa”, que não é morena e sim negra.

E que fique claro, não creio que os criminosos não devam ser punidos. Devem, sim. Mas a gente não pode deixar de interpretar a história. É como diz o ditado: povo que desconhece a própria história tende a repeti-la.