Nota da coordenação: no conteúdo abaixo, a autora erroneamente associou gênero a sexo biológico em dois momentos:

“Feminismo é a negação de um poder dado aos homens, porque eles têm um órgão chamado pênis e por causa dele temos que ser submissas.”

“(…) ao decorrer dessa nossa luta contra o poder que vem do pênis temos que parar e discutir o que é ou não racismo com feministas de outra cor (…)”

Nesse sentido, o coletivo de mulheres Blogueiras Negras vem a público se desculpar por ter falhado em seu compromisso de não endossar práticas cissexistas. Após apontamentos da transfobia flagrante desse conteúdo, temos o dever de tentar corrigir essa falta e não compactuar com a opressão.

Alteramos os trechos do texto em questão, suprimindo a referência ao genital, e publicaremos nota de retratação da autora nos próximos dias.

Aprendi que o feminismo começou como uma luta de classe média formada por mulheres brancas. Discordo.

Feminismo é a negação de um poder dado aos homens. Foi assim que ordenou o cara branco quando criou o rapaz ingênuo que foi traído pela mulher suja gerando assim a desgraça da humanidade, a maldita Eva. Não briguem comigo, esse negócio está escrito.

Meu feminismo é negro, não posso lutar contra ao machismo e esquecer a luta do meu povo, pois quando um preto nasce, ou ele tenta se encaixar como MORENINHO ou luta. Eu, mulher PRETA, luto. Assumir a negritude não te dá muita escolha, o contexto não nos aceita, passamos a vida recebendo a mensagem que a cor branca é superior caso você não aceite sua vida passa a ser uma saga diária, o contexto social não da espaço para pretos que questionam.

Dito isso, quero conta-lhes um segredo: o feminismo tem origem nas senzalas. Peço um minuto de silêncio para a morte ideológica de quem acha que o feminismo é de pele alva. Começou na senzala quando a mulher preta se recusou a se deitar com seu “ senhor” e por isso foi para o tronco, na senzala quando a mulher branca com ciúmes mandou arrancar seus seios e queimar suas partes íntimas e depois voltar a servi-la se não morresse, na senzala quando ela se recusou a também se relacionar com o homem negro para gerar filhos para serem vendidos como escravos.

Temos um “problema” com algumas feministas brancas, somos mulheres até nossa cor chegar: um defeito de cor.

Nossa negritude não pode ser escondida e as feministas pretas não podem ser apenas feministas. É evidente que um movimento só de mulheres brancas não representa toda a nossa necessidade, ao decorrer dessa nossa luta contra o poder que vem do masculino temos que parar e discutir o que é ou não racismo com feministas de outra cor, o que é retrocesso. Enquanto fazemos isso, os caras ensinam as meninas que umas são pra casar e outras para foder por exemplo. E lá estamos nós no meio do caminho explicando às nossas parceiras de luta que “ TUAS NEGA” é machismo e racismo junto.

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Os homens tem a total certeza que podem impor algo ao outro gênero afinal deus quis assim, está documentando em livro famosíssimo que é até tido como sagrado. Então se o que está escrito lá tiver de acordo com interesses pessoais, tudo certo.
E quando você é mulher preta tem que opor a isso a ainda se rebelar contra o racismo – porque claro, veem mulher preta e logo acham que podem fazer e acontecer, afinal são as negas deles e isso seve para mulheres brancas – é fácil ver que na luta feminista mulher branca é mulher, mulher preta é só um corpo negro.

Quero contar outro segredo já que hoje resolvi acabar com a magia do feminismo elitista branco. Enquanto vocês mulheres brancas saiam às ruas para luta por direito iguais (voto, direito a separação e herança, anticoncepcional e a não serem tratadas como empregadas etc), mulheres de cor preta estavam lavando suas roupas, arrumando suas casas, cuidando dos seus filhos e correndo para não sermos estupradas por seus maridos. É toda aquela historia que ninguém gosta de contar, pois suja a imagem dos brancos que não têm culpa só porque são branquinhos.

Não estou falando que mulheres brancas não têm problemas ou não sofrem, estou falando que a mulher branca enfrenta o machismo e a mulher preta precisa encarar o machismo e o racismo. E que nós feministas negras não vamos lutar contra o machismo e deixar de lado a nossa história, nossa origem, nossa terra. Não queremos perder mais nada. Enquanto houver dificuldade em reconhecer os problemas da mulher preta não seremos livres os preconceitos tem a mesma origem, esse é o mantra.

Conheço feministas de cor branca que reconhecem esse câncer: racismo.

Mas há outras que fecham os olhos por que racismo é problema de preto, claro. Quando falamos que não a casa cai. E não é a casa grande, é a senzala. Pois bem, não acredito em um feminismo que deixe a mulher preta excluída, isso é ilusão. Eu sei a verdade dói. A analogia que sempre faço é a mesma os homens dizem – não sou machista mas acho que há coisas que são de mulher – e a feminista branca que não é tocada pela luta da mulher negra diz – não fecho os olhos para o racismo, mas vocês veem racismo em tudo.

Esse “mas” é uma desgraça. Perceberam?

Não generalizo e não estou menosprezando a luta das feministas brancas, mas peço que não fechem os olhos diante da nossa. Nascer mulher não é fácil, nascer mulher preta é lutar para nascer e já começa no parto. Acham que a negra tem poder de ser imortal, o problema é quando ela morre.

7 Comentário

  1. Meninas, adoro os textos daqui. Sou branca, mas me considero mestiça (tenho ascendência indígena) e com certeza minhas ancestrais tb sofreram a mesma violência. Apenas uma coisa: sororidade. Não fecho os olhos ao racismo. Não mesmo. Mas enquanto os homens nos tratarem assim (branca é pra casar, negra é pra trepar) eles estarão nos dividindo ainda mais. Outra: exige-se também certo comportamento de uma mulher branca muito mais recatado que de uma negra. Uma moça negra extrovertida sorridente é “simpática” por natureza, sem ser levada a mal. A branca é puta, devia ser quietinha. Assim como é “noemal a carioca com menos roupa, a paulista atarefada, a gaúcha fechada… uma baiana branca talvez tenha mais liberdade de sorrir que uma gaúcha negra. De cada uma de nós se espera um comportamento. Não nos levemos por isso. E das asiáticas, o que se cobra então? Silêncio e delicadeza de queixas. Das indígenas? Nem sei dizer. Não vou ser cega ao racismo, mas peço sororidade. Beijos.

  2. Concordo muito, Márcia. E não chamo de feminismo uma luta que não considere outras opressões. O feminismo É negro, pobre, gay, lésbico, trans e mais um monte de coisas. O q foge disso n é feminismo, é mera enganação.

  3. Sensacional! E é impressionante como esse texto cabe muito bem para outras “raças” em outros países. Na Guiana Inglesa por exemplo, é justamente o contrário: ser mulher e branca é que é o problema. Um país onde a cultura machista predomina, onde as mulheres não se defendem, não se unem, onde toda branca é prostituta, toda negra é pobre, toda indiana é rica e toda chinesa é invisível.
    Excelente texto!

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