No dia 30 de Abril, por volta das 19:40, fui até ao prédio da Faculdade de Medicina, onde tentei entrar para encontrar amigos de sala no conhecido de todos, Pub Med, situado no espaço do Centro Acadêmico de Medicina, CAOC. Na porta, recebida por dois guardas da universidade, apresentei a carteirinha da faculdade, conforme me foi solicitado. Recebi como resposta que não poderia entrar, pois a entrada só era permitida a estudantes da Medicina.

Aleguei que outras pessoas estavam entrando, que estava me comunicando com colegas que disseram estar lá, porém, mais uma vez fui informada de que não poderia entrar. Foi dito ainda que havia uma festa, por isso não estava sendo permitida a entrada das pessoas, e que o espaço referido estava sendo evacuado, de modo que as pessoas, a partir de então, só sairiam e não mais entrariam. Aleguei novamente que não estava entrando para nenhuma festa, que não haveria festa no lugar, e afirmei se tratar apenas de um encontro entre as pessoas da faculdade.

Diante das negativas e impedimento de entrar, dei a volta ao prédio. Avistei que, como disseram os amigos de sala, tudo estava correndo normalmente no Pub Med, todos interagiam e não havia festa. Voltei a porta do prédio da Medicina e apontei que as informações dadas anteriormente não eram condizentes com o relatado por amigos, nem com o que tinha acabado de ver. Interroguei os dois guardas sobre os motivos do impedimento, visto que outros não tinham sido impedidos. A alegação seguiu a mesma, de modo que pedi que chamassem alguém que pudesse mediar aquela discussão, alguém a quem pudesse recorrer.

Simultaneamente, outro guarda, que se identificou como responsável por intervir nessas situações, veio ao nosso encontro. Nesse momento, um homem – branco – entrou sem que nenhuma identificação lhe fosse solicitada. Indaguei sobre isso, sobre as informações incoerentes que haviam sido dadas como justificativa para barrar minha entrada. Questionei qual seria o motivo, visto que outros estavam entrando. Esse senhor alegou que ainda que não tivesse festa, eu entraria e comigo entrariam outros, e outros, e ai então a festa que não estava acontecendo, passaria a acontecer, contrariamente às ordens que ele havia recebido de impedir festas. Em diversos momentos, aliás, os três alegaram que estavam cumprindo ordens.

Argumentei que com essa conduta, eles me impediriam de entrar no prédio, circular por ele, me impedindo de exercer um direito. Disse que, conforme esse mesmo direito que me era preservado, como cidadã ocupando um espaço público, entraria. Os dois se posicionaram diante da porta. O terceiro, mediante minha insistência e resistência, disse que me levaria para me mostrar que meus amigos não estavam lá, não haviam entrado, e então eu voltaria.

Entrei acompanhada dele até o Pub Med. Diversos colegas de sala, além de outros estudantes de outros cursos, estavam lá e não havia festa. Fiquei. Apontei que tudo estava como eu havia descrito anteriormente e, portanto, não haveria motivos pra eu me retirar. Ele, em tom de voz alterado a partir de então, disse que eu estava sendo arrogante e ameaçou me tirar dali a hora que ele quisesse, pois ele podia.

Percebendo a situação, varias pessoas me acolheram e pude conversar sobre o ocorrido, escutar sobre como outras pessoas estavam sendo abordadas, a que horas estavam entrando ou saindo. Devo afirmar: todos os que tentaram entrar foram interpelados. Apenas eu fui impedida. Apenas eu fui escoltada, mediante minha resistência. De fato, eu fui a única mulher negra que se propôs a entrar sozinha.

Apesar de todas as tentativas de negar, apaziguar e escamotear o que é evidente, a interdição se deu por um fato que não pode ser ignorado: sou negra. Vou afirmar novamente: sou negra. Afirmar ser negra, o que não pode ser negado em circunstancia alguma, é evidenciar também que meus acessos, meus direitos, minha liberdade, minhas escolhas e tudo aquilo que se oferece a qualquer sujeito social, para mim, muitas vezes é restrito e interditado. A contradição está no fato de que todos enxergam minha cor, mas se negam a enxergar que é justamente por ser dessa cor, preta, que essa ação se dirigiu a mim e não a qualquer outra pessoa.

O preconceito racial é assim, se inscreve invisivelmente nas nossas relações sociais e raciais, de forma que quem não quer percebê-lo, pode facilmente fingir que não o vê, pode negar sua existência. Não é o meu caso, que diariamente sofro com uma sociedade que me violenta, assim como a todos os meus irmãos negros, nos impedindo de ocupar os espaços concretos ou simbólicos que são nossos por excelência.

Obviamente, não foi a primeira vez que situações como essa me aconteceram. Para restringir o relato a esse espaço da universidade, quero lembrar a violência que sofro todos os dias ao entrar nessa faculdade branca, assistir as aulas de um corpo docente branco, com colegas de sala brancos, que discutem todos, diariamente, sobre a questão do negro, que não está aqui. Violência é ter que estar satisfeito e contente porque na minha sala existem outros quatro pretos como eu, violência é ter que se dar por satisfeita porque em meu curso, 20% dos alunos são pretos como eu.

É desse preconceito que queria falar, desse racismo que é institucional, pernicioso, estrutural, fundante das nossas relações, tão cristalizado dentro de nós que, para aquele guarda, me barrar estava justificado. Ele veio me lembrar que os pretos não podem entrar na universidade, que ali – no caso, aqui – não é nosso lugar.

Dentre toda a tristeza de ter sido barrada por uma mulher negra como eu; por um corpo de segurança submetido à subalternidade e à precarização das relações de emprego; da tristeza de se perceber num lugar que viola o direito da população de acesso a um lugar público, por ela sustentado; de ter sido impedida de exercer minha liberdade, discriminada, violentada e exposta, houve uma grande alegria: a personificação do preconceito.

Quando uma pessoa, em seu exercício distorcido e pernicioso do micro-poder impede a minha entrada, esse preconceito aparece, de modo posso enfrentar, lutar, discutir, parte do que espero conseguir com esse relato. Esse guarda, na sua ação criminosa – sim, impedir alguém de exercer seus direitos em função da cor é crime inafiançável – personifica, dá corpo a esse racismo institucional que se faz invisível pela negação e omissão de todos.

Que fique claro: não se trata de uma questão pessoal, do meu direito individual de ir e vir, trata-se do direitos de todos nós pretos, existirmos. Se esse guarda personifica o preconceito racial que se faz presente em todas as esferas da existência, eu também posso, em alguma medida, personificar o alijamento de meu povo preto. O que ocorreu comigo é uma metonímia, exemplo do que ocorre todos os dias no nosso país e no mundo. A interdição da minha entrada remete a todos os pretos das periferias que morrem, assassinados, massacrados, diariamente. Se trata das mulheres negras que não tem acesso a saúde, que sofrem no parto por negligencia, preconceito e violência. Se trata das crianças negras que jamais entrarão nesta ou qualquer outra universidade, pois morrerão antes, subnutridas ou assassinadas. Se trata das escolas que criminalizam a motricidade saudável das crianças negras, exilando-as do sistema de ensino.

Não é diferente o que sofri e o que todos sofremos por se tratar do Estado – o que inclui nós, população civil – nos coibindo a existência, nos matando subjetivamente e fisicamente, com seus agentes cuja função é manter a ordem. A ordem não era barrar a festa, a ordem era barrar uma negra, ordem referendada por um sistema de crenças, ideologias e interesses que permitiu essa interpretação por parte desse sujeito e que incide mortalmente sobre nós, sujeitos pretos.

Não vou agradecer pelo fato de, dadas as muitas estratificações postas em nossa sociedade, ter a possibilidade de dar voz e visibilidade a todos esses fatos. Peço que não sejamos coniventes com essa lógica, que digamos não à convocação diária de reproduzirmos atos racistas, que não aniquilemos as existências. Essa faculdade tem um compromisso que não é comigo, é com toda a sociedade. Todos nós, pessoas humanas, sujeitos cidadãos, atores da historia, temos esse dever.

Eu repudio este tipo de ação, convoco todos a se mobilizarem contra essas e outras violências, convoco todos à luta pra que acontecimentos como esse não mais aconteçam, luta por uma sociedade justa, equânime, em que os pretos podem exercer seu direito de existir, lembrando a todos de que a mudança começa por quem quer começar, por quem se indigna, por quem aspira por mudança, anseia por ver os negros pelos pátios dessa universidade, rompendo com a exclusão. A mudança começa por mim e por todos nós, está nas nossas mãos: façamos a luta pelo mundo e pela universidade que queremos.