Precisamos falar sobre apropriação de cultura.

“Se cantar pra boy é evolução, eu vou morrer conservador.”
Eduardo, ex Facção central.

Aconteceu com o rock, com o jazz, com o samba, agora está acontecendo aos poucos com o pagode, com o funk e com o rap. Parece até que é um caminho natural da cultura negra, parece comum assistirmos o que é produzido pelos nossos, ser de alguma forma “silenciosa” e sorrateira, apropriado pelos mais favorecidos (brancos, classe média e alta) e transformado em algo embranquecido, folclórico, afastado de suas raízes. A apropriação de cultura é uma questão que deve ser levada a sério, mas ainda não é. Ainda só prestamos atenção quando algo muito “grande” acontece, ou seja, uma black face ali, um debochezinho aqui ou um show de artista negro pra um público completamente branco e rico, mas não deve ser assim. A ofensa não deve ser só levada a sério quando é direta, deve ser levada a sério também quando é indireta, quando tenta ser invisível.

O maior problema da apropriação de cultura é que ela, como qualquer mecanismo racista, tem o propósito de excluir o negro dos espaços, dar um novo formato pra sua identidade, limitar sua maneira de se expressar, criando uma nova cultura mais acessível e mais comerciável. Esse mecanismo faz o trabalho de substituir, de uma forma esdrúxula e direta, o negro pelo branco, um branco que vai buscar fazer exatamente o que o negro faz, mas com o bônus da cor que é mais aceitável e que deixa tudo mais bonito. Assim, sempre com o propósito de comercializar, a apropriação de cultura facilita a passagem pela mídia, a comercialização da cultura fica mais fácil, o capital corre tranquilamente.

Dessa forma ela exclui e invisibiliza o negro e o favelado , tornando esse processo cada vez mais engenhoso e que acontece por baixo dos panos, um racismo disfarçado de moda, de apreciação. Às vezes nós negros somos enganados com isso, pois essa apropriação tem diversas faces. Pra escurecer um pouquinho vou lançar um breve exemplo disso: podemos pensar na chegada de Elvis Presley na música americana. Ignorando toda a questão do artista e seu talento, não precisamos fazer muita força pra perceber que existia toda uma lógica de mercado por trás do surgimento desse ícone. O modo que ele dançava, o jeito que ele cantava, era um estilo completamente influenciado pela cultura negra e por artistas negros, artistas que obviamente causavam grande fervor na época como Little Richard e Chubby Checker, dentre outros.

Os brancos incomodados com o talento que os negros tinham e com o efeito que causavam nos jovens da época decidiram criar um ícone só deles que pudesse abafar esse fervor todo que a música negra causava. Funcionou muito bem, por isso hoje chamam Elvis de rei do rock-and-roll ignorando toda a história negra que existiu antes dele e isso é, sem dúvida, apropriação de cultura seguida da disseminação de uma história embranquecida.

Mas vamos falar um pouco do que está acontecendo agora, especificamente na cena musical brasileira. O maior exemplo de apropriação de cultura pode ser observado em alguns bailes funk que acontecem dentro das favelas hoje, direcionados apenas pra elite branca com ingressos custando 150 reais ou mais. O funk que era visto pela mídia como uma cultura que não presta, hoje atrai a classe média em peso, a ponto de saírem das suas casas bem localizadas e confortáveis para invadirem a periferia. Do outro lado, vemos também alguns artistas renomados como Seu Jorge, que recentemente fez um show em uma festa chamada VIP, onde a elite coxinha se reuniu para assistir o jogo de Brasil e México. Os ingressos custavam até 1000 reais e o único negro no lugar era o artista. Outro caso é o artista Criolo (ex Doido), que fez um show só para artistas da Globo onde o valor dos ingressos beirava os 200 reais.

Daí surge à questão: o negro só é moda quando vira produto? O rapper Criolo não representa o rap nacional e dentro da favela são raras as pessoas que conhecem seu trabalho. Mas o discurso dele, as músicas, todo o repertório é construído em cima de um cotidiano de favela, de empoderamento do povo negro. O mesmo acontece com o Seu Jorge. Por que o negro favelado não pode assistir aos seus shows e por que essa mensagem não chega mais até esse determinado grupo? Porque a música que eles produzem virou consumo apenas para a classe média branca?

Grande parte dessa classe média branca que invade a favela e faz aparições em shows de artistas negros acha o negro muito agradável para conviver, “tem amigos negros”, mas só quando esse negro serve pra alguma coisa, quando ele é “útil”. Quando acham que podem fazer uso da arte que esse negro produz, quando esse negro é uma peça de entretenimento e também quando podem usufruir do seu trabalho braçal – a maneira mais antiga de exploração – porque afinal de contas precisa do porteiro, do motorista, da empregada sempre a postos pra ajudar no que for preciso.

A questão é que escutar Criolo, Seu Jorge, usar dreads, turbante, ir em baile funk na favela, todas essas coisas não fazem ninguém menos racista e precisamos abrir os nossos olhos pra isso. Estamos afundados nesse processo todo. Nosso papel enquanto negras e negros é tentar ao máximo valorizar a nossa cultura de raiz, propagar o amor a nossa raça, se incluir e criar espaços afrocentrados, juntar forças e nos abraçar uns aos outros. Essa é a única arma, esse é o único jeito de lutar contra esse sistema que tenta nos esmagar todos os dias.

Precisamos acima de tudo perceber que o racismo continua impregnado dentro desses movimentos que dizem que “o preto está na moda”. Só porque a classe média branca gosta do que o negro produz não quer dizer que ela gosta de conviver com o negro nos seus espaços diários, que ela não pratique racismo todo o dia com seu porteiro, com sua empregada. A questão pontual é essa: porque o negro não está na moda quando o assunto é o extermínio da juventude negra? Por que não está na moda quando as nossas estatísticas de desemprego, população carcerária, população de rua, subempregos é mais alta? Por isso a apropriação de cultura não é bonita, não me agrada, não é um elogio, é um processo racista que infelizmente não nos damos conta por completo ainda. No entanto precisamos, precisamos muito falar mais sobre isso.

Referências

Criolo: http://www.rapnacionaldownload.com.br/novidades/criolo-ex-doido-faz-show-rio-com-ingresso-caro-e-cheio-de-celebridades/
Seu Jorge: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/seu-jorge-na-festa-da-copa-dos-coxinhas/
baile funk: http://revistadonna.clicrbs.com.br/2013/11/02/no-rio-de-janeiro-ingresso-para-baile-funk-na-favela-custa-no-minimo-r-150/
jovens brancas funkeiras classe média: http://revistadonna.clicrbs.com.br/2014/05/30/thamires-tancredi-de-iniciante-a-hard-as-funkeiras-que-vao-estar-no-baile-da-favorita/

49 Comentário

  1. Olá Mara, achei esse texto interessantíssimo, eu não entendia sobre apropriação da cultura antes dele. Fiz um texto no meu blog sobre o assunto e citei seu texto como referencia, espero que não seja um problema, se quiser dar uma olhada meu blog se chama Problemática Feminina e é do blogspot, o texto se chama ” A outra face do racismo”. Abraços.

  2. Oi, estive pensando sobre o assunto por isso dei uma pesquisada e encontrei esse texto. Tenho algumas perguntas: Quando uma pessoa pode ser considerada negra ou branca? Por exemplo uma pessoa com muitos descendentes brancos e negros (avós e bisavós) dos dois lados da família e o pai pardo, que nasce com a pele clara é branca? E como um músico branco poderia compor em estilos nascidos da cultura negra sem fazer apropriação cultural? Algum dia negros e brancos serão capazes de compartilhar suas culturas de uma maneira harmônica ou é melhor ficar cada um na sua?
    Peço desculpas por qualquer asneira que eu tenha dito e obrigada pela compreensão 😛

  3. Olá, Mara. Nem sei se vai me responder, depois de tanto tempo, mas se alguém puder me explicar. Sou do movimento feminista, interseccional, por isso venho há tempos desconstruindo conceitos e percebendo meus privilégios como branca. Já li bastante sobre apropriação cultural, mas as vezes me sinto me apropriando sim, devido ao meu grande interesse pela cultura negra. Mas enfim, sou professora de ensino infantil e fundamental 1, tenho muitos alunos negros na escola pública… Eu sempre me questionei quanto à algo que falo bastante com eles…. Sempre (algo recorrente, não apenas em datas especiais como o dia da consciência negra) leio histórias com protagonistas negros, contos africanos, falo sobre grandes personalidades, inventores, artistas e etc negros, ensino cirandas, brincadeiras culturalmente negras … Tudo isso com o objetivo de introduzi-los em sua própria cultura (isso soa tão estranho e errado) que eu vejo que eles não conhecem, pra que se sintam representados, pra que valorizem suas raízes… falo sobre racismo, falo diretamente sobre como isso tudo é valioso e foi tudo produzido por eles.
    Aí é que eu me sinto estranha fazendo isso. Será esse meu lugar? Será eu, apesar de professora, a pessoa que pode chegar pra eles e dizer “ó… isso aqui é sua cultura, olha que lindo, valorize!”.
    Help.

    • Oi Gabi, primeiramente tenho uma profunda admiração por professores parabéns pelo teu trabalho. E não, não acho que tu esteja te apropriando porque, pelo o que tu conta, em nenhum momento tu mostra a cultura como se ela fosse tua e o mais importante nessa relação é isso: se colocar no lugar de privilegiado e não tomar como seu algo que não é. Óbvio que seria bom se fosse um professor negro fazendo essas problematizações e apresentando esses fatos, tanto pra facilitar a representação deles na imagem do professor quanto pro empoderamento dessas crianças que ta em formação, mas não acho que seja ruim, na falta de um profissional negro, que tu faça esse trabalho. É extremamente necessário, mas sempre toma o cuidado de não impor as coisas, deixa eles também descobrirem e trazerem coisas pra sala de aula, como elementos da cultura deles que não estão necessariamente nos livros, coisas do dia-a-dia do que é ser uma criança negra, tanto para problematizar quanto para valorizar a vivência deles. Abraços!

  4. De que modo a gente que é branco pode fazer para curtir a cultura negra sem ser agente de apropriação cultural? Por exemplo, é possível usar dread sem que isso seja apropriação cultural?

    • Sim. É possível.
      E a primeira coisa é perceber esse processo histórico de embranquecimento (elitização) da cultura Afro.
      Não é simplesmente só curtir, é carregar consigo o valor que a cultura negra tem. Deve valorizar a cultura do negro sendo o negro protagonista da mesma.
      Saber que o Dread e o turbante que está no seu cabelo é uma característica da cultura negra. Saber que a capoeira era (é), no mínimo, uma forma de resistência do negro. Entre outras práticas.
      E acima de tudo Bruna, querer, sentir e passar as dores do racismo como a população negra passam diariamente, entender a atitude preconceituosa de ser visto como potencial suspeito de tudo.
      O último paragrafo da Mara Gomes está identificando muito bem as questões que devem ser partilhadas também, e não somente a nossa cultura como uma coisa legal.
      “Precisamos acima de tudo perceber que o racismo continua impregnado dentro desses movimentos que dizem que “o preto está na moda”. Só porque a classe média branca gosta do que o negro produz não quer dizer que ela gosta de conviver com o negro nos seus espaços diários, que ela não pratique racismo todo o dia com seu porteiro, com sua empregada. A questão pontual é essa: porque o negro não está na moda quando o assunto é o extermínio da juventude negra? Por que não está na moda quando as nossas estatísticas de desemprego, população carcerária, população de rua, subempregos é mais alta?”
      Enfim, em resumo, queremos que entendam a nossa LUTA!

  5. Gostei muito desse texto, pois eu já me questionei sobre a apropriação cultural de diversos setores, mas apenas depois de ler isso eu compreendi que isso realmente (e infelizmente) existe. Sou parda, mas neta e bisneta de negros e logo me considero negra, e defendo a cultura da classe. Tenho o cabelo cacheado, uso turbantes de vez em quando… Aliás utilizo minha aparência como um ato político. No entanto quando vamos falar de apropriação, normalmente os brancos (se possível até os negros) negam que isso existe tornando mais difícil essa desconstrução. É preciso ter cautela e muuuita análise. Mas parabéns pelo texto e pela observação!

  6. eu acho que apropriação cultural hoje é um dos maiores problemas enfrentados na atualidade, num mundo que se diz globalizado, mas que embranquece e europiza tudo, agora, eu acho que o problema deve ser bem mais ampliado e aprofundado, pq o que anda acontecendo com os ojás e filás é o que ocorreu com os alargadores, que hoje é representação urbanóide e que apagou por completo sua origem, os indígenas de etnias como Zoé, então se falamos que para usar indumentárias e ornamentos que representam algo cosmológico, é preciso que o sujeito esteja integrado, ou entendido das origens e representatividades desses objetos, muita gente realmente não deve usá-los, pois, acho que grupos urbanóides devem tirar seus alargadores, os pajés vão agradecer, afinal esses intrumentos fazem parte do no mundo cosmológico de tais povos indígenas … aliás, vi um doc uma vez sobre as redes de uma etnia indígena, que havia toda uma cosmologia inserida na sua produção e uso, salvo engano eram as redes responsáveis por bons sonhos, então, quem não entende a profundidade dessas cosmologias, como eu, não deve dormir de rede, que foi incorporada no mercado escondendo suas origens … é um assunto complexo, eu espero que muitos debates ocorram daqui pra frente

  7. Mara, entendo o que pontua. Compreendi a importância e necessidade urgente das perguntas que você faz no último parágrafo do texto. Contudo, se for considerada que é amante de Foucault, francês branco, caucasiano, de país imperialista, não deveria se sentir mal pela “apropriação cultural”. Da forma precária que entendo essas coisas, nada se resolverá se não existir integração, apropriação, trocas e imersão entre as culturas. Não existe um modo que isole uma cultura em uma redoma imaculada protegida de qualquer sincretismo multicultural e religioso.

    • Primeiramente, me desculpe se eu não sei escrever bonito, mas, vamos lá.. Eu amei o teu texto, serio mesmo! Mas, tiveram uns pontos que eu particularmente Não concordei, pois amo a cultura negra, penso em usar turbantes ( Quando meu cabelo estiver maior ), e tal, mais depois deste texto, agora fiquei pensando que estaria DESRESPEITANDO essa cultura Maravilhosa, caso eu use ou curta algo da mesma. Enfim. :/

    • Olá Rodrigo, há alguns equívocos na sua colocação. O primeiro esta nesta ideia de integração: os exemplos citados pela autora não são eventos musicais integradores: são eventos canibais e folcrorizantes. Basta ir a um deles e perguntar ao público: “e no dia da consciência negra, você foi a qual protesto? E na marcha contra a intolerância religiosa, onde você estava? Quantas estatísticas sobre racismo você denuncia e divulga? Ou veio aqui só vestir turbante e gritar Epa Hei Iansã, totalmente bêbado, banalizando as tradições culturais e religiosas negras sem saber sequer o que significa?”. Faça o teste. E, segundo: o termo “redoma imaculada” teria que pressupor uma cultura que seja hegemônica amplamente resguardada. Não parece exatamente a situação da cultura negra, não é mesmo? Não se pode negar à cultura negra o direito ao resgate e a se defender de depredações irreversíveis. O que é bem diferente de purismo.

  8. “Boteco do Ratinho” , este é o nome de um quadro que faz parte do programa do Ratinho (SBT), e vai ao ar todas as quartas-feiras, onde convida cantores de diferentes gêneros e épocas, Ok, uma bonita homenagem aos “grandes cantores reconhecidos” da música brasileira. Só não entendo uma coisa, porque SOMENTE as dançarinas negras, APENAS dançam o estilo musical- samba ou pagode? As outras dançarinas dançam variados tipos de estilo musicais, mas as negras não fazem partes deste momento…

  9. sendo branca e reconhecendo meus privilégios, tenho lido sempre que possível sobre apropriação cultural, pelo menos desde o surgimento de miley cyrus com o ‘twerking’ e, mais recentemente, tenho acompanhado as discussões envolvendo iggy azalea e as críticas de azaelia banks sobre o assunto. mas confesso que não é da noite para o dia que eu vou ter entendimento pleno acerca dessa questão; estou menos certa ainda de como agir com responsabilidade do meu lugar cômodo de privilegiada, fazendo música. o que tenho feito é ouvir. mas eu não quero ser a inimiga.

    e aí me deparo com um dilema. eu toco blues, mas de acordo com o texto (e a publicação indicada aqui: http://on.fb.me/1BZA6gT) entendi que não deve haver muita coisa além de música sertaneja, ou música medieval européia, ou [o que não é derivado de música negra hoje em dia?] que eu possa tocar. mas essa música não me envolve ou me emociona como o blues.

    então eu tenho uma pergunta: sendo branca, se eu toco blues e estou me apropriando indevidamente de uma cultura que não é a minha, como eu faço para não disseminar mais essa forma naturalizada de racismo; qual é a forma correta de agir sem ter que largar a música ou que tocar um gênero pelo qual não tenho paixão?

    obrigada

    • Oi Antropofa-gaga, acredito que você compreendendo a origem, sabendo quais foram as principais vertentes para a origem e as mudanças que ocorreram no blues e conseguindo passar isso a diante, não se apropriando disto e não deixando de mencionar essa sua preocupação em divulgações e outras falas, você está representando algo que lhe é importante e nos é demasiadamente importante também.

  10. Não acho que um artista, por mais branco que for, deva limar de sua produção as influências de qualquer cultura que ele quiser inserir alí.
    Se um músico branco sempre escutou blues, rap, afro-beat, coco de roda, afoxé e compõe música com traços obviamente originários da cultura negra, você não tem o direito de dizer a ele que está errado. Que o certo seria ele buscar influência na cultura “branca”, do tipo “Ah, você nasceu branco, não tem direito de compor assim, troque suas influências porv música européia, ou estará sendo responsável pelo extermínio da juventude negra”. Claro que não! Isso é limitador no âmbito das artes e ignora que a cultura se desenvolve de trocas e as influências estão difusas na sociedade. Um cara nasce no Brasil, branco, galego, pode até ser filho de alemão, a música negra também pode fazer parte da formação cultural independente de cor-de-pele, também é autêntico.

  11. Se por um lado o samba é um ritmo autêntico criado pela negritude brasileira influenciada pelo ritmo ancestral angolano Semba, aqui, no processo de dominação cultural que os escravos sofreram, incorporaram instrumentos típicos europeus, como os instrumentos de corda ( se bem sabemos que a África ancestral feita escrava pelos portugueses, ou seja, salvo engano, a porção suldoeste, tinha como forte instrumentos percussivos e a Europa os instrumentos de corda e de sopro ) … Nesse caso o que antes ocorrera via um processo de domínio de uma cultura sobre outra, hoje se afirma autêntica, que o é ( repito – é autêntica afrobrasileira ), mas que inegável subversão do dominio hoje se afirma como identidade, mas pra pensarmos, vale assistir o documentário A Rota Dos Orixás, quando filhos de escravos conseguiram fugir e voltar para África e lá, por serem excluídos culturalmente, fundaram uma colônia de negros que misturados culturalmente com brancos se tornaram segregados socialmente … Enfim minha dúvida é o que seria apropriação se todo processo cultural é fruto de uma troca, o samba criado por negros ( fato) mas não o seria sem o contato com o branco e seus instrumentos de cordas, o negro africano que no passado se apropriou da tecelagem islâmica oriental e hoje se afirma como África, com saber onde exatamente nasce uma cultura, se sabemos que ela não é uma gênese mais fruto de um processo de trocas?

  12. Assim o texto muito bom mesmo, eu adoro esse site, um exemplo mesmo … agora fiquei meio confuso sobre uma coisa, existe apropriação cultural e tem trocas/intercâbios culturais e ainda tem dominação cultural, então um exemplo de apropriação são as imagens de Iemanjás brancas, um exemplo ( na minha visao limitada ) de trocas culturais são os turbantes usados pelas africanas ( para esclarecer, Raul Lody – antropólogo da ufba no seu livro Jóias do Axé, fez um estudo e descobriu que o costume de usar turbantes e filá, para homens, são consequências de trocas culturais trazidas pelas civilizações do oriente médio, civilizações antigas onde hoje é Paquistão, processo de comécio com a África isso não lembro quando antes de cristo ) e um exemplo de dominação cultural foi os africanos trazidos escravos ter que adotar nomes portugueses e usas as roupas portuguesas, caso venha reconhecer as saias das mães de santo com inúmeras anáguas, uma influência direta da dominação cultural europeia, lógico que existe essa leitura própria fricana sobre tais roupas … bem eu juro fico bem confuso sobre essa questão pq o que ontem foi dominação, como as vestimentas das bainas, hoje uma mulher branca usar pode ser interpretado como apropriação, entende? eu estou confuso,me ajuda .. Bjao axé!

  13. Oi Mara,

    Gosto muito do blog, parabéns pelo trampo. O texto descreve minhas crenças, até chegar no ponto de que o Criolo não representa o rap brasileiro e que Seu Jorge se vendeu. Acho que é preciso ponderar. É uma ideia que ignora o fazer do artista, de que a música é um produto e o show também. De que ambos estão em um mercado. E dizer isso não ignora absolutamente todo o cenário histórico e atual de apropriação da nossa cultura pelo homem branco. Acho até mais descontextualizado ainda no que diz respeito ao Criolo, que ainda é um artista, que embora tenha entrado nas graças da crítica, está construindo sua trajetória em um circuito muito maior. Até isso pode ser uma moda se o cara não se consolidar. Seu Jorge está em outro estágio dessa trajetória. E se ele for moda, é uma moda que está durando muuuuuuito tempo. Então não acho que seja por aí. Acho que essas afirmações sobre esses dois artistasO cara fez vários shows gratuitos em Brasília de graça para o público e estive em vários! “Aaaa mais ele mudou o som dele”, e daí? Bob Marley mudou as harmonias e características de sua música para ser aceito na Inglaterra e ele é menos preto e militante por isso? Mano Brown já se apresentou diversas vezes para “públicos seletos” em várias casas de shows de elite, ele é menos preto ou militante por isso? Esse é o raciocínio que inclusive Malcon X voltou atrás em determinado momento da vida, quando repensou que sua causa podia ter aliados não negros para ajuda-lo. Deslegitimar um artista negro ou negra com esse argumento é cair na armadilha de dividir para conquistar usada pelo racismo desde sempre. Novamente, parabéns pela militância, não é ataque as ideias é debate entre pares. Grande abraço e muito axé.

  14. Olá,
    Primeiro, parabéns pelo texto. Como sempre muito bem escrito, conciso, e tocando no ponto da questão.
    Meu comentário é simples.
    Essa apropriação cultural, é a famigerada Indústria Cultural, o grande carro chefe da cultura capitalista. E é esse o seu papel, esbranquiçar tudo. Pegar qualquer movimento que seja, destruir a sua essência, reproduzi-lo em linha de produção, e vendê-lo a todo alienado que pague.

  15. Mto bom o texto. Mas flor, gostaria de expor uma condição minha e perguntar se vem ao caso e como posso interpretar isso:
    A cor da minha pele é branca, apesar da minha afro-descendência (minha família passou pelo tal embranquecimento), meu cabelo é a única coisa que denuncia minha negritude. De uns anos pra cá, tenho deixado ele completamente natural. No entanto, ele está tomando um comprimento e volume intensos, sobretudo no verão, está difícil de conviver com ele solto. Estive pensando em fazer dreads. Agora, a questão é: se eu dredar meu cabelo, vão pensar q meu cabelo era liso antes, por conta da cor da minha pele, e que eu estou “me apropriando” de uma cultura “que não me pertence”?
    Já ouvi mtxs negrxs dizendo que não se mede negritude pelo tom da pele. Que aqueles considerados “pardos” devem ser chamados de negrxs e sua negritude reconhecida. Entendo que engano pela cor da pele, mas me parece q me negam uma negritude que me pertence também, já que meus bisavós também foram escravizados, e que medem sim minha negritude pelo tom da minha pele, que se comparada a de uma “genuinamente” branca, não é branca…

  16. Excelente texto, acho que é o primeiro texto decente que leio sobre apropriação de cultura, acredito que por não ter sido escrito por americanas se dirigindo a um leitor branco. A maior parte dos textos sobre esse tema são sobre gente sentindo culpa liberal por gostarem de jazz ou terem alguma estátua de uma divindade “não branca” em casa. Eu fico profundamente irritada com esse enfoque no que pessoas brancas fazem ou deixam de fazer. O mais importante é empoderar @s [email protected], e focar no desenvolvimento dessa identidade e cultura.

  17. Mara, ótimo texto. Gostei mesmo, e como li em algum comentário no Facebook: quero ver ter vontade de ser negro quando tavam no tronco (e em tantas mil outras situações mais atuais)…

    Fiquei sem entender muito bem se vc aponta que há ou não separação entre a apropriação e apreciação da cultura negra por brancos.
    Entendo que a apropriação seja o sequestro da história e da produção negra, que embranquece ao reescrever a história e colocar um branco como “dono” daquele patrimônio, enquanto a apreciação seria uma demonstração de apoio, de apreço e respeito.
    Na minha leitura pareceu que tudo foi colocado no mesmo patamar – tanto a apropriação como a apreciação devem ser tratadas como ofensa no nível que ocorrer, de forma que o branco ou se afasta ou se afasta ainda mais do consumo de cultura negra.
    Obrigada e beijos.

  18. Mara, parabéns pela análise. Por favor, fale, quando puder, sobre a construção de Carmem Miranda e a apropriação da cultura negra da Bahia. Há uma mitificação dessa figura que a artista criou por uma elite estadunidense. A leitura que faço é que Miranda tem a mesma função que Elvis, dentro da comparação que você fez, para a cultura de mercado de sua época e esta construção se estende hoje nas figuras que representam a axé music, para o mercado da TV. Por favor, gostaria de ver uma análise sua sobre esta questão. Agradeço.

  19. Mara , você exemplificou de maneira perfeita como ocorre essa apropriação da cultura negra de forma indevida ao citar o caso do Elvis. Isso também ocorre por aqui e não ocorre somente com a cultura negra, pois os que são considerados mais aceitáveis pela sociedade se apropriam indevidamente da cultura também de índios e outros grupos menos favorecidos. Considero inaceitável a forma como alguns desses aproveitadores do talento e da cultura alheia vão afastando os verdadeiros representantes da cultura negra do protagonismo e dessa forma acabam monopolizando a visibilidade da sociedade.Só não concordo quando você disse que somente os negros podem propagar a cultura negra. Você acha isso mesmo? Acredita que podemos ou até devemos amarrar as trocas culturais dessa forma, impedindo que outros incorporem ao seu repertório outras influências? Eu não creio que isso seja possível e nem recomendado, pois seria uma forma de exclusão da mesma forma. Devemos sim, criticar quando pegam nosso saber popular e se arvoram em proprietários dele sem ao menos nos dar o justo reconhecimento ou impedir-nos de ocupar espaços considerados exclusivos aos mais aceitos.

    • OI, Max. Desculpe a demora pra responder não tinha recebido notificação do comentário. Mas assim, quando estamos falando de luta racial o negro é o único que pode apontar o que é ou não racismo, porque só ele sente, só ele sofre disso. O branco é aliado dentro dessa luta, ele pode e deve lutar conosco mas não por nós, porque somos os protagonistas. Do mesmo jeito eu vejo a disseminação da cultura negra, o branco pode apreciar, mas não pode ser protagonista da disseminação dessa cultura senão ela perde a sua identidade primaria e ganha outro sentido. Quando alguns aspectos da cultura negra são disseminados por brancos se distorce o sentido dado anteriormente a essa cultura, (pelo menos eu não conheço nenhum tipo de apropriação que tenha sido feito para o nosso bem e que tenha dado bons resultados). Podemos usar o dread como exemplo, pro povo negro ele significa resistência, luta contra um sistema eurocentrista, porque nos remete ao movimento rastafari, que tomou como imagem o negro que chegava do navio negreiro e tinha o aspecto do cabelo apelidado de “dreadful” (medonho, terrível) pelos senhores de escravo, porque esse era o aspecto do seu cabelo após ficar semanas dentro de um navio sem nenhuma higiene. Agora um branco usando dread não remete a nenhuma dessas coisas, ele está se apropriando desse fator de resistência e mudando o significado dele, a história por trás se perde e o dread virá apenas um fator de estética e não de resistência negra. Não sei se escureci alguma coisa, mas podemos discutir mais. Obrigada pelo comentário!

  20. Nossa, texto maravilhoso! Tão bom quanto tuas respostas aos comentários, que me fizeram refletir ainda mais.

    Não sou negra, mas já fui dolorosamente ferida pelo racismo não endereçado a mim. Quando eu tinha quinze anos, resolvi apresentar a família meu primeiro namorado, que é negro. Lembro o espanto dos familiares e os comentários assustadores que escutei. Um dos tios chegou a dizer que eu poderia até namorar, mas que não inventasse de ter filhos, pois teriam uma boca imensa. Outros brincavam que ele “nem seria feio, se cortasse o black-power power”. Enfim, desde esse primeiro choque, passei a me atentar o quanto nossa sociedade é racista, e o quanto há essa tentativa de apagamento da cultura negra.

  21. Confesso que não sei dizer se o discurso – radical – do texto me confronta ou se apenas discordo de alguns itens. Confesso que esse empoderamento do branco sobre a cultura negra é um ponto que deva ser discutido, mas por mais que devamos lutar por nosso espaço, não sei se é por meio de uma declaração de “guerra” aos brancos que este espaço será ocupado.

    E fui contemplada pelo questionamento da Talita:
    Reclamamos quando a cultura negra é apropriada e embranquecida para facilitar a comercialização mas reclamamos também quando não dão espaço nem visibilidade para nossa cultura. Como diferenciar apropriação de valorização de uma cultura? Abçs

    • Primeiro vamos escurecer que é dar espaço pra cultura negra. Dar espaço pra cultura negra é incluir negros em lugares onde eles não estão inseridos e permitir que eles produzam a sua arte, a sua cultura. Dar espaço pra cultura negra não é chamar um branco e pedir pra que ele faça o papel do negro na história. Nós já estamos dentro de uma guerra declarada há mais de 300 anos quando os primeiros negros vieram pro Brasil acorrentados dentro de um navio negreiro, não existe isso de “ser agressivo com o branco” de “ser radical” o racismo não nos dá beijos e abraços todos os dias, precisamos apontar o racismo e lutar contra ele. Os negros estão morrendo, colocados em empregos subalternos, subjugados e inseridos dentro de periferias há muito tempo e o branco não participa desse processo a guerra já foi declarada a muito tempo e quem perde somos nós.

  22. Sensacional. Se pudesse, gostaria de assinar como co-autora rsrs.Também percebo essa tentativa, na maioria das vezes bem sucedida, da apropriação branca da nossa cultura. Acredito, que nós, negros, devemos abraçar essa causa e é nosso dever cobrar dos artistas que NOSSO povo tenha acesso à NOSSA cultura. Nós somos quem tem o dever de reivindicar isso.

    Só gostaria de levantar uma questão: Reclamamos quando a cultura negra é apropriada e embranquecida para facilitar a comercialização mas reclamamos também quando não dão espaço nem visibilidade para nossa cultura. Como diferenciar apropriação de valorização de uma cultura? Abçs

    • Oi, Talita! Fico feliz que tu tenha gostado do texto. Assim como falei pra Marcela logo acima, a cultura negra pra ser disseminada de um jeito que não seja apropriação deve ser propagada apenas por pessoas negras, a valorização da cultura surge quando inserimos negros em espaços onde eles não estavam inseridos e permitimos que eles próprios falem por si mesmos, mostrem sua cultura, sua arte, sua música. Quando o branco mostra pelo negro não é dar espaço, é como chamar um homem pra falar sobre feminismo. O branco pode sim apreciar a cultura negra, mas o que ele não pode é se apropriar dela como se fosse dele. Vou deixar um link com um guia sobre o que é e o que não é apropriação de cultura, é muito bom e ajuda pra caramba a escurecer as coisas. Abraços!

      Um pequeno Guia sobre o que é apropriação de cultura: https://www.facebook.com/notes/rachel-furtado/apropria%C3%A7%C3%A3o-cultural-um-pequeno-guia-sobre-o-que-%C3%A9-e-o-que-n%C3%A3o-%C3%A9-traduzido/10203757225116973

  23. Adorava o criolo,até ver em um show,ele fazendo uma performace de que estava incorporando,fiquei chocada,quando uma amiga minha que é da rua aonde ele morava,me falou que deixou de ir nos shows dele,pq essa encenação era recorrente.enquanto,ele fazia isso,os playboys brancos filmavam e ficavam histericos em seus deboches.
    juro pra vcs que fquei com nojo!

  24. Posso perecer idiota e desculpa mesmo se a pergunta for, mas quando vc diz que a unica arma é todos os negros se unirem vc quer dizer apenas entre os negros? Pq não seria muito mais fácil todas as pessoas sem preconceito se unirem e tentarem mudar esse cenario? sei la… Pq assim parece que todo branco ainda é senhor de escravo nao??

    • Oi, Isadora! Quando falo que os negros devem se unificar como uma arma contra o racismo falo sobre empoderamento negro. autoafirmação e essas duas coisas só podem surgir em espaços negros entre negros. Mas sim a luta antiracismo é coletiva, o branco precisa rever seus privilégios e lutar contra o racismo, mas o negro é o protagonista dessa luta e só nos espaços negros podemos conseguir o empoderamento necessário pra seguir enfrentando esse problema. O branco não é o senhor de escravos literalmente hoje em dia, mas ainda ocupamos um espaço ínfimo nas academias, nos cargos de poder, ainda estamos morrendo por balas “perdidas”, ainda somos chamados de macacos e assistimos nossas crianças sendo maltratadas nas escolas por serem negras, então silenciosamente ainda estamos abaixo do branco, subordinados a eles em muitos sentidos, por isso precisamos nos empoderar sozinhos, porque pode parecer um clique mas juntos somos mais fortes e quem é protagonista dessa luta somos nós negros, não os brancos.

  25. Super texto Mara!
    O samba “fino” hoje é branco, programas especializados em samba são apresentados e dirigidos por brancos…Isso é apropropriação de nosso patrimônio cultural!! Eles reverencia a música negra, mas os mercado musical beneficia apenas o artista e o espectador branco, que pode pagar a entrada exorbitante!
    Somos acima ganhadores, pois mesmos relegados ás periferias desassistidas, continuamos inventando e reinventando arte!! Viva os saraus de poesia! Viva a dança do passinho! Viva nossa resistência !! Viva nosso talento que NUNCA foi escravo! Dos RESTOS de suas mesas criamos a feijoada, da qual também se apropriaram, mas a gente segue!!!!

    • “Boteco do Ratinho” , este é o nome de um quadro que faz parte do programa do Ratinho (SBT), e vai ao ar todas as quartas-feiras, onde convida cantores de diferentes gêneros e épocas, Ok, uma bonita homenagem aos “grandes cantores reconhecidos” da música brasileira. Só não entendo uma coisa, porque SOMENTE as dançarinas negras, APENAS dançam o estilo musical- samba ou pagode? As outras dançarinas dançam variados tipos de estilo musicais, mas as negras não fazem partes deste momento…

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