É incrível a frequência com que esta pergunta aparece na minha vida.

Hoje, depois de muitos anos não enxergando o racismo entranhado nas relações sociais que vivemos no Brasil, eu já consigo responder: “SIM! Passo por situações de racismo quase todos os dias”.

Eu poderia acabar este texto por aqui, se nós pretxs, mesmo depois de 127 anos de abolição da escravatura no Brasil, tivéssemos nossas vozes respeitadas e pudéssemos falar por nós mesmos. Ou seja, se simplesmente os dados alarmantes sobre a situação dxs negrxs no país e o testemunho das vítimas do racismo fossem suficientes para que pudéssemos reivindicar reparação da dívida histórica que o Estado brasileiro tem conosco.

Mas, não. Não pararei por aqui por que da mesma forma que esta pergunta é comum, as reações, especialmente dxs brancxs, também são comuns e previsíveis.

“SIM, eu já fui vítima de racismo. Na verdade eu sou vítima de racismo quase todos os dias.”

O que se segue…Olhares de surpresa acompanhados de frases como: “isso não é possível”, “estas coisas não podem acontecer no século XXI”, “você tem certeza, às vezes a gente vê pelo em ovo, né?”, “não acredito, afinal, você nem é tão negra assim”.

É um festival de impropérios que é tão ofensivo, especialmente por que normalmente ele vem de pessoas brancas, que por um momento fazem até você duvidar dos fatos que marcam toda sua vida.

Em um país em que 97% das pessoas dizem não ser racistas, mas 98% destas mesmas pessoas afirmam que conhecem alguém que é preconceituoso*, o que faz alguém acreditar que quando uma pessoa negra afirma ser vítima de racismo ela pode estar “vendo pelo em ovo”?

Primeiramente, o próprio racismo! Por que no Brasil ainda é inadmissível que o povo preto possa delimitar o que é um comportamento racista. É inadmissível que negras e negros possam dizer por si mesmos sobre suas dores e suas ambições.

Em segundo lugar, e não menos importante, é a concepção do que se configura racismo. Um fato para ser considerado racismo no Brasil tem que ser ofensivo, como chamar uma pessoa negra de macaca, ou jogar banana para ela, como foi o caso do Daniel Alves. O resto é apenas “vitimismo” ou “ponto de vista”.

Mas, ao escrever este texto, eu nem penso em dialogar com xs brancxs que tentam me convencer todos os dias da minha mania de perseguição. Até por que não preciso convencê-los. RACISMO É CRIME NO BRASIL. Isso basta a você, racista, que ainda quer ter direito de ter “ponto de vista” racista.

Meu objetivo com este texto é dialogar com irmãos e irmãs que passam por racismo todos os dias e que acabam sendo “convencidos” de que alguns comportamentos são normais, que todo mundo passa por determinadas situações independente de sua raça. Isso sim me preocupa.

Cada vez que alguém tenta nos convencer que não fomos vítimas de racismo em determinada situação, acaba, de forma consciente ou não, nos afastando da possibilidade de nos reconhecermos como irmãos, de entendermos que as nossas dores têm a mesma origem ainda que nós nunca tenhamos nos visto. Ou seja, não ver o racismo nos afasta, nos isola e impede que avancemos juntxs.

Portanto, é importante delimitar que:

  • É racismo sim, quando alguma característica física sua, especialmente se ela for própria da sua raça, se torna motivo de piada no grupinho. Como o tamanho do seu bumbum, ou da sua testa, até mesmo as suposições sobre seu desempenho sexual que “com certeza” é acima da média.
  • É racismo sim, quando impõem a você “talentos típicos” do povo negro, como saber sambar.
  • É racismo sim, quando taxam de imoral ou sem valor para a cultura músicas geradas a partir dos povos da diáspora africana, como o funk, o samba ou o rap.
  • É racismo sim, quando há sempre um segurança ou atendente no comércio na sua cola, sem você ter pedido ajuda.
  • É racismo sim, quando te dizem que você tem que ser melhor do que todos para provar que merece estar aonde chegou no trabalho ou nos estudos.
  • É racismo sim, quando tocam no seu corpo, sem sua autorização – muito comum com nossos cabelos – para saber se “é de verdade”.
  • É racismo sim, quando te dizem que sua roupa colorida é “coisa de baiano”. Vamos lembrar que isso tem um tom pejorativo, afinal Salvador é a cidade mais negra fora da África.
  • É racismo sim, quando dizem para você que você é “descolada” quando na verdade apenas usa seu cabelo natural.
  • É racismo sim, quando seu carro é parado na blitz e o procedimento utilizado é diferente do “padrão”. Ouvir perguntas tais como: “este carro é seu?”, “onde você arrumou este carro?” não fazem parte da rotina de uma blitz.

Ou seja, uma série de estereótipos e comportamentos que são ditos comuns, não são COMUNS. Inverta as situações acima e veja se elas acontecem com a mesma frequência com brancos e negros.

E no momento que começamos a reconhecer que SIM, PASSAMOS SITUAÇÕES RACISTAS COTIDIANAMENTE, aprendemos a nos defender, vemos a necessidade de nos unir, começamos a nos ver como grupo. Ainda que tenhamos nossas peculiaridades, nossa luta nos une!

Então, se por um momento você achar que está passando por uma situação racista, não se acanhe, não se envergonhe. Não acredite na conversa de que somos vitimistas. Temos uma história de branqueamento e construção do racismo como uma forma de opressão fundamental para manter as relações sociais como estão. Então, grite, reclame, denuncie, se una aos seus.

Reconhecer que vivemos em uma sociedade racista, tomar com as próprias mãos o poder de fala que ainda estamos conquistando a duras penas são apenas alguns pequenos passos para garantir que as próximas gerações não tenham que viver em um mundo racista.

* Lilia Moritz Schwarcz. História da Vida Privada no Brasil – Contrastes da intimidade contemporânea. [S.l.]: Companhia das Letras, 1998.