Estamos numa luta constante contra as opressões da sociedade patriarcal racista. Diariamente somos algo de inúmeras agressões e seguimos lutando para conquistas espaços que nos são de direito, mas que a dívida histórica que ainda permanece, nos impede.
Como feminista atuante na linha da interseccionalidade, considero o ativismo das mulheres negras o que mais me representa e o que também acolhe manas similares ou não a mim e, com isso, me vem a reflexão: quando eu era adolescente eu não tinha um contato direto com o feminismo e isso fez – e faz – uma enorme diferença na minha vida. Em menos de cinco anos tendo contato com o feminismo, me sinto mais segura comigo mesma e meu modo de pensar, falar e agir mudaram muito, fui empoderada e enegrecida e ainda estou aprendendo muitas coisas.

Na atualidade, em vista do “fácil” acesso à tecnologia e Internet, se tornaria menos complicado adolescentes terem contato com essa linha de pensamento feminista e também empoderarem suas vidas, ter noção de seus direitos e ver as coisas da maneira que são, sem que a sociedade coloque-os embaixo do tapete.
Mas não é isso o que acontece, ao menos em São Paulo. Nas periferias que fazem parte do meu convívio, vejo as meninas negras sendo expostas nas escolas, grávidas sem poder estudar, sem apoio algum, as vejo presas no alisamento capilar e as vejo também sem conhecimento sobre nossas origens, nossas lutas e direitos.
Claro que nossas vidas são totalmente diferentes, mas precisamos cuidar umas das outras também e eu, Nênis, acredito que fará muito mais diferença empoderar uma adolescente do que uma mulher mais velha (não que não seja de extrema importância!).
Toda a construção social independente se inicia na adolescência e estar consciente de fatores extremamente importantes como nossos direitos, futuramente, pode trazer resultados direta e indiretamente mais eficazes. Não falo na ideia de fazer lavagem cerebal nas meninas – até porque suas mentes são fortes demais pra aceitar isso – mas falo de empoderar as meninas que serão minhas representantes quando eu não puder me representar mais nos espaços.

Vejo adolescentes em relacionamentos abusivos, as vejo grávidas e solteiras, as vejo sendo agredidas nos bailes, as vejo fugindo de suas sexualidades, as vejo passando pelas mesmas agressões que nós, porque elas são nós, nós éramos e somos elas, só que elas estão num momento mental com maior espaço e compreensão da sociedade. O interesse delas nessa desconstrução diária que é o feminismo pode ser muito maior do que pensamos e estamos preparadas, mas estamos tão preocupadas e ocupadas com as questões mais elaboradas do feminismo que por vezes não nos atentamos na fala de uma adolescente negra, ou talvez afastamos essa mesma adolescente por alguma fala problemática e qual nossa função? Não é a de desconstruir para que esse tipo de fala seja repensado, evitado até que ela entenda qual o peso de certas coisas? E o que temos feito por essas garotas? O que podemos fazer?

Tenho, para mim, que podemos construir conteúdos que se aproximem dessas garotas, construir espaços que as aproxime do feminismo, da forma que seja mais confortável para elas, até que elas mesmas passem a se auto-organizar e continuem dialogando conosco sobre todas as nossas pautas que, independentemente da faixa etária, nos afetam de inúmeras maneiras diferentes.

O feminismo chegou pra mim de uma maneira muito difícil. Eu demorei para entender, demorei para ver sentido e ver que falava sobre mim também. Se pensarmos nessas garotas, talvez o que falte para existir o empoderamento delas também seja paciência, didática, pensarmos nas nossas dificuldades conhecendo o feminismo e unir as soluções com a “facilidade” de acesso à informação. Fico imensamente grata pela existência do Blogueiras Negras Teen, pra que a gente possa nos aproximar cada vez mais de nossas irmãzinhas.

O AMOR É CONSTRUÇÃO.

Imagem Destacada: DreamWorks Animation Studio

  • Se precisar de mim para ajudar nessa busca por um espaço, estarei
    à disposição. Temos o CCJ (Centro Cultural da Juventude), lá é um local onde poderíamos realizar alguns encontros; temos um espaço na UNIFESP (Escola de Medicina), próximo ao metrô Santa Cruz, temos o ibira, onde não há custos de aluguel de imóvel também, dá para escolher um local onde nos identifiquemos, além do contato com a natureza, o vão do MASP e temos também o Centro Cultural de São Paulo (CCSP). Podemos escolher entre sábados e domingos semanais ou mensais em horários acessíveis à maioria (tarde principalmente). São sugestões a serem pensadas. Temos grupo do BN no face?? Abraços.

  • Nênis, acho que seria mais produtivo e prático se todas as redatoras do BN se reunissem em espaços físicos (diversos ou fixos) para discutir presencialmente todas essas pautas, pelo menos uma vez por mês. Só aqui pela net fica algo muito restrito e não dá para reunir todas. E pessoalmente vemos olho no olho as histórias de cada uma, o que facilita um maior entrosamento e interação entre as manas. Brancas black friendly também seriam bem vindas, e acho que deveriam ser discutidos assuntos como solidão da mulher negra, auto aceitação da imagem, dos cuidados com os cabelos, relacionamentos homoafetivos e feminismo. O que você acha? Tem como encaminhar minha sugestão para o pessoal? Postei por aqui pois não sabia como conseguir maior alcance, e acredito que assim as outras leitoras possam partilhar também da ideia, principalmente as que são de São Paulo (mas as de outros Estados também podem se organizar para essas discussões). Acho tudo isso muito importante, afinal, muitas precisam ser ouvidas mais presencialmente do que virtualmente, e eu sou uma delas. Pense com carinho, ok? Abraços, Dany

    • Nênis Vieira

      oi Dany, obrigada por comentar! sim, o espaço físico pra essa troca é essencial, extremamente necessária. Mas são enormes as dificuldades de organizar um encontro presencial nessa linha, pois existem as dificuldades de mobilidade, acesso ao transporte público e várias outras questões. você tem facebook? vamos nos alinhar pra vermos mais possibilidades? um abraço!