TW (Aviso de gatilho): Gordofobia;

Era só pra ser mais um sábado de sol, daqueles em que fico o dia todo escrevendo, assistindo séries ou lendo. Mas resolvi ir a um evento próximo ao centro do Rio de Janeiro. E o que era pra ser um almoço vegano, se estendeu e virou uma happy night.

Encontrei alguns amigos, lanchamos, compramos coisas na feira de artesanato e resolvemos continuar a confraternização na casa de uma dessas pessoas, que morava praticamente na esquina do evento. Mas antes, claro, um bom vinho pra quem bebe. Fomos a uma loja especializada, a uns seis quarteirões dali. Voltamos com várias garrafas. No caminho, passando por uma das principais avenidas da cidade, um babaca (provavelmente de classe média, considerando o modelo do carro) põe a cabeça pra fora do veículo e grita bem alto: satanáááás! Ele e os amigos começam a rir dentro do carro. Meus amigos e eu achamos isso patético e infantil, obviamente, e comentamos algo como: “nossa, que panaca. Ele gritou satanás, que medo!” (ironia). Eles fingiram muito bem que não tinham entendido o porquê do xingamento, e a quem ele era direcionado. Bons amigos fazem isso.

Estendemos o programa até as nove da noite, mas pra mim ele acabou ali. Não por causa daquele idiota simplesmente, mas por conta de todas as ofensas que recebo. Por estar cansada de sofrer abusos verbais.

Não havia dúvida de que o satanás ali era eu. As demais pessoas presentes eram bonitas, do jeitinho que o padrão branco e magro impõe. Até havia outra mulher acima do peso no grupo, mas ela não era negra. A preta, gorda, com cabelo crespo e curto pro alto, horrorosa e com cara de demônio não poderia ser outra pessoa. Aquela que é hostilizada diariamente pela família, que recebe conselhos não solicitados sobre o seu peso, cor e cabelo até de estranhos, que é alvo de risadas no transporte público e que já foi agredida fisicamente na rua simplesmente por existir, é esta que vos fala.

Sempre tentei compensar a falta de atributos desejáveis de outras formas. Usei por muito tempo uma máscara de inteligente e esforçada. Me escondia atrás dos livros. Estudei de forma insana na faculdade e para diversos concursos. Estudava até altas horas da madrugada, ininterruptamente. Desobedecia meus pais quando eles mandavam eu ir dormir. Na falta de abajur, ia pro quarto e lia centenas de paginas apenas com a luz do Nokia lanterninha que tinha na época. Tive problemas de visão por causa disso. E como tudo que é feito “à força” não funciona, não consegui ser nomeada em nenhum cargo público durante os mais de dez anos de estudo, e não tive sorte na iniciativa privada. Parei de estudar feito louca quando tive uma crise de nervos e estafa em sala de aula, depois de ir pro cursinho durante uma semana com gastrite.

Tudo o que fiz pra ser aceita (ou pelo menos tolerada) deu errado: não consegui um emprego rentável, não sou bem sucedida. Muitas vezes penso que estou carregando uma maldição. Porque todos os dias são extremamente difíceis.

Adoeço todos os meses. Sinto dor todos os dias, desde o momento em que me levanto da cama até a hora de dormir. Minha família me considera menos que um zero à esquerda. Não sou convidada pra casamentos, natal, ano novo. Às vezes esquecem que existo. Às vezes agradeço por isso.

A maneira que encontrei pra fugir desta opressão que me persegue há mais de 20 anos é ficar cada vez dentro da bolha de proteção que eu mesma criei. Não sei se é saudável, se isso trará consequências a médio e longo prazo, mas (in)felizmente é o subterfúgio que tenho no momento.

Quem me conhece intimamente sabe que gasto uma parcela considerável do meu salário com táxis. Já me basta a rotina difícil e penosa de segunda a sexta. Moro próximo ao centro da cidade, e para lazer, em qualquer lugar que eu vá, eu recorro ao transporte particular. Economizo nas saídas, faço uma compra mensal super enxuta pra poder reservar uma parte do meu dinheiro pra ter sossego. Evito ao máximo ficar na rua “dando bobeira”. Em ponto de ônibus, em ruas movimentadas, em qualquer lugar. Sou um prato cheio para a humilhação.

Saio de casa para fazer coisas específicas e evito fazer hora (quanto mais tempo eu estiver exposta, pior). Se vou ao cinema no shopping, chego na hora da sessão, assisto e depois vou correndo pra casa. Quero voltar o mais rápido possível. Ao menos lá, estou protegida e cercada de pessoas maravilhosas que não me discriminam.

Se já xinguei e mandei à merda? Muitas vezes, e é ainda pior. Tenho medo de retrucar e receber um soco, uma facada, um tiro. De ser linchada na rua. Tenho vergonha das situações pelas quais passo. Vergonha de mim, ódio de quem pratica. Eu demonizo o preconceito com todas as minhas forças.

Minha autoestima é péssima, não me relaciono fisicamente com ninguém há mais de um ano, tenho poucas pessoas no meu círculo social e a tendência é diminuir cada vez mais, ao menor sinal de rejeição. Desenvolvi depressão, síndrome do pânico e sinto que emburreci. Demoro demasiadamente pra aprender coisas novas no trabalho e noto que já perceberam isso. Não me surpreenderei se a qualquer momento receber um aviso de demissão.

Produzo mal no trabalho e quase sempre minha cabeça está longe dali. Nem os nove anos de terapia resolveram. Tenho 30 anos e sinto como se dentro de mim morasse uma velhinha de 90, que a única coisa que espera da vida é a passagem dos dias.

Não tenho forças pra correr atrás dos meus sonhos e melhorar de vida. Frequentemente escuto que é só uma questão de esforço. Mas quem perdeu a graça pela vida, já cogitou o suicídio e dorme pra fugir da vida não consegue mover uma palha, quem dirá um grande projeto.

Não vou compartilhar esse texto nas redes sociais e em nenhum outro lugar da internet. Não quero que mais pessoas saibam da miséria que vivo todos os dias.

Essa sociedade hipócrita e execrável conseguiu transformar a maior das micareteiras na pior das antissociais. E na mais desesperançosa das pessoas.

Sou aquela que em vez de agradecer, entristece por mais um dia.


 

MILITANTE SOLITÁRIA – uma mulher negra e gorda que está tão cansada das capitais, vida, das pessoas e de ser rechaçada, que preferiu não se identificar.