Entrevistar a Dr. Katleen foi uma experiência muitíssimo agradável desde o começo. Na sala de espera, que eu dividia com pacientes dela e de outras dermatologistas, a voz que se ouvia era da Dra: falando alto, brincando, zoando as pacientes (“Você vai fazer a pele, né? Não? Cabelo? Por quê??? Não!! Você vai fazer a pele porque ela tá horrorosa, o cabelo tá lindo! Aqui, passa a anestesia no rosto dela… Não… você vai fazer a pele!”).

Já dentro da sala dela, muito bem recepcionada pela Dra, ela fez questão de me deixar muito à vontade, tirando meu receio de estar ali atrapalhando uma dermatologista “global”, entrevistada por Grazi Massafera e Fátima Bernardes: “para com isso! Eu sou de todo mundo!” foi o que ela disse no finalzinho da entrevista, aludindo a uma possível postura esnobe de sua parte por causa desse histórico de entrevistas.

Aliás, o material que a Dra. Katleen dispôs pra gente, e que vocês conferem no vídeo, é muito mais do que havíamos planejado. “Havíamos” eu e todas as participantes do grupo Blogueiras Negras que sugeriram perguntas a serem feitas. Já adianto que dois fatores impossibilitaram que todas as perguntas fossem feitas. O primeiro foi o tempo: a Dra. Katleen ainda tinha duas pacientes, e eu não poderia me demorar muito na entrevista (apesar de ela ter me deixado à vontade para escolher ficar e fazer a entrevista depois que ela atendesse as pacientes. Mas, infelizmente, era eu que não podia ficar até tarde). O segundo é quase uma decorrência do primeiro, porque haveria tempo para fazer todas as perguntas, mas a Dra. Katleen FALA MUITO! E isso foi MARAVILHOSO, porque na primeira pergunta – sobre sua trajetória na Universidade – ela já falou sobre pressão e cobrança familiar, estereotipação, lugares (não se espera) que um negro ocupe, reprodução de racismo, auto-estima da mulher negra, cabelo, relacionamento interracial…. Gente, quase onze minutos que me deixaram hipnotizada. Eu me identifiquei em vários momentos com a fala dela (quando ela diz que botou tranças), com ela falando, por causa dessa habilidade de emendar um assunto no outro e ir falando e se empolgando como nós fazemos quando alguma coisa verdadeiramente nos apaixona.

E foi isso que vi na Dra. Katleen: paixão. Paixão pelo que faz. Paixão em ser negra. Paixão por nós, mulheres negras.

Uma coisa que me chamou muita atenção foi a Dra. falar em certos momentos que era “o mordomo da Casa Branca” (em referência ao filme estrelado por Forest Whitaker e que conta a história de um mordomo negro que serviu a presidentes americanos de 1957 a 1986). Inclusive, a primeira vez em que ela se diz “o mordomo”, ela explica o porquê de não atender mais em Madureira. Ao contrário do que quis dar a entender a ilustre dona Regina Casé, a Dra. Katleen não “trabalha num consultório na periferia” e sim “no Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro, na clínica dermatológica mais top” não por elitismo ou coisa parecida. Muito pelo contrário.

Entre frases impactantes e perguntas retóricas, Dra. Katleen mostrou que as cessões feitas por nós, mulheres negras, a uma sociedade racista não são – nem de longe – uma “traição” a nossa raça, ou uma reprodução de racismo. Na verdade, cedemos para sobrevivermos, para não sofrermos represálias; cedemos para mantermos nossos empregos, para não sermos zoadas na escola, para sermos mais populares, ou menos invisíveis. E não é diferente pra quem é uma dermatologista conceituada e que atende numa clínica na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Espero que vocês gostem desse trabalho feito em conjunto do Blogueiras Negras. e fiquemos de olho, porque a Dra. Katleen prometeu novidades!