Sou mulher negra e periférica que já passou dos quarenta, que criou dois filhos sozinha, não por viuvez ou por conta de uma gravidez indesejada, mas sim porque fui preterida, trocada por uma não negra e, com isso, para não me ver submetida a humilhações desnecessárias, a saída encontrada foi assumir a responsabilidade sozinha.

Sou mulher negra que não terminou a ensino médio na idade desejada, que fez supletivo em escola popular, que trabalhou de babá, diarista, doméstica, balconista. Que levantava de madrugada para pegar duas conduções deixando os filhos dormindo. Dando nó em pingo d’água pensando no futuro deles, o meu viria por tabela e se desse tudo certo.

Sou mulher negra que não engatou uma relação duradoura, aquela que nunca se casou, seja com homem preto ou com branco, que aprendeu a lidar com a solidão afetiva e a desconstruir o amor romântico na base da ausência, da angustia, da culpabilização. Descobriu a duras penas que a pior ausência é a de si mesma e que a responsabilidade pela nossa felicidade individual não se delega a ninguém.

Sou mulher negra que entrou numa universidade pública, sem fazer cursinho, estudando na hora do intervalo do almoço e dentro do ônibus no caminho de casa. Curso noturno, depois de oito horas de trabalho diário, muitas vezes ficando apenas com o almoço e o café requentado da cantina ate meia noite, quando chegava em casa, tão cansada, que só um copo de leite alimentava.

Sou mulher negra que deixava os filhos o dia na creche e a noite por conta da boa vontade de parentes e vizinhos, porque grana para pagar alguém para olhar nunca tive. E no fim de semana nos divertíamos juntos fazendo faxina, enchendo os varais de roupa e dando banho no cachorro. Quando eles finalmente dormiam, amontoados a mim, me via puxando da bolsa um livro, um texto xerocado, um caderno para continuar minha produção acadêmica.

Sou mulher negra que passou pela graduação sem desenvolver um único projeto de iniciação cientifica, por algumas justificativas dos possíveis orientadores: sou aquela que trabalhava e não teria tempo para dedicar, aquela que estava retida numa disciplina que exigia maior tempo de estudos, aquela que estava acima da media da idade e que não valia a pena investir, aquela com filhos e que não teria disponibilidade para viagens para congressos, a de pouca renda e que provavelmente nem tinha um computador para escrever um artigo.

Sou mulher negra que foi olhada com estranheza ao entrar pela primeira vez na sala de professores de uma escola. Que foi questionada sobre a atuação em sala de aulas, silenciada nas reuniões e conselhos. Aquela que foi chamada de inexperiente.

Sou mulher negra que foi admitida num mestrado na primeira tentativa para a seleção, que concluiu a pesquisa na base da tarja preta, trabalhando e criando filhos, agora adolescentes, numa sociedade consumista, seletiva e violenta. Que descobriu na internet uma rede de mulheres negras que, como eu, se vestem de força todo dia para lutar e permanecerem vivas.

Sou mulher negra que leu teorias sobre feminismo na universidade e que não via sentido nos livros escritos por mulheres brancas, com seus vários amores, sem a obrigação do trabalho socialmente degradado, com suas empregadas “quase da família” e babas uniformizadas. Que observava os debates feministas e acadêmicos como quem olha para um aquário, tudo muito bonitinho, mas impossível de fazer parte.

Sou uma mulher negra que encontrou o feminismo negro, através de outras negras empoderadas, que me fizeram ver o quanto eu já era feminista antes de ler uma única linha do “Segundo Sexo”. Conquistei algum reconhecimento, continuo adentrando espaços ate então proibidos para mulheres pretas como eu, mas o melhor de tudo é ver que minha luta não é solitária. Somos muitas e hoje estamos unidas.

Meu feminismo tardio me ensinou que teoria sem luta não transforma nada nem ninguém. Me fez compreender que discurso que não contempla vivencias, não tem valor nenhum. Que sororidade sem desconstrução de privilégios é apenas uma palavra sem sentido. Que mulheres precisam lutar unidas, mas que as pretas têm um longo caminho a ser percorrido, pois ainda precisam ser ouvidas e reconhecidas como protagonistas de sua própria história.

Aprendi que sem minhas irmãs pretas, reais ou virtuais, minha luta não teria sentido, que as batalhas seriam ainda mais sofridas, que juntas somos mais e sim, somos nós por nós. Particularmente, aprendi que ainda tem muita mulher que se diz feminista, mas precisa deixar os livros e viver mais, entender que feminismo não se faz apenas na teoria, pois existem muitas feministas pelo mundo que, assim como eu já fui, nem sabem o quanto são pertencentes e essa categoria de mulheres libertárias, guerreiras e transformadoras.

Para essas, a teoria é algo distante e que pode nem chegar ate seus ouvidos, mas que nem por isso deixarão de promover as mudanças necessárias numa realidade determinada por condicionantes sociais e culturais estruturados a sua revelia. Meu feminismo tardio fez isso, me fez entender a teoria a partir da realidade e não a realidade a partir da teoria. Sim, tem diferença.