Caros amigos comunistas,

Este texto é direcionado para aquele amigo comunista/ DCE/burguês da Universidade.  Não desqualifico a luta de algumas pessoas do movimento estudantil, mas precisamos fazer a crítica e rever algumas situações de privilégios que quando são contestadas, somos chamadas de loucas, pós-moderna, entre tantos outros nomes.

Sou estudante cotista de um curso elitizado, sou a primeira turma de cotistas do mesmo, ao meu lado estudam pessoas que tiveram acesso a melhor educação,  cursinho de inglês e  cursinho pré- vestibular,  natureza marcante das Universidades públicas do país.

Alguns indivíduos dentro do próprio movimento estudantil,  se acham os revolucionários, porque estão ocupando cadeiras em conselhos superiores dentro da Universidade ou ocupando um cargo político dentro de CA ou DCE.  Todos nós aqui reconhecemos os avanços que aconteceram dentro da Universidade Pública, todos nós sabemos que hoje temos cotas sociais e raciais, que o negro pode entrar numa faculdade mesmo aquele espaço não nos pertencendo por séculos.  Agradeço ao movimento negro, por isso e ao M.E que não fez mais do que a obrigação, pois estão ali para lutar pelos estudantes.

A crítica que faço ao movimento estudantil é bem preta, nada de esclarecer.  Não adianta vir com o discurso revolucionário falando de cotas, falando de feminismo. Se dentro da Universidade desvia do neguinho que não é estudante.  Esse discurso revolucionário só serve para teses de congressos, a realidade é mais dura.  A menina negra não tem tempo para ficar passando em salas, fazendo plenárias, porque ela tem que estudar, trabalhar, permanecer na Universidade.

O movimento estudantil é um espaço de apropriação, um espaço que deixa qualquer estudante cansado fisicamente e psicologicamente.  Quando você aponta algum caso de racismo, machismo ou homofobia dentro do próprio espaço somos crucificadas e levadas para fogueira.  Ao mesmo tempo não podemos demonstrar fraquezas e não podemos fazer uma crítica ao coleguinha comunista, que somos taxados.

É um espaço tão doentio que o estudante é obrigado a perder provas, tarefas acadêmicas para estar cumprindo outras tarefas em nome dos estudantes, a maior das hipocrisias é o interesse de alguns partidos ou grupos políticos disfarçados de luta em nome de todos do coletivo.  É meio que óbvio que nesses espaços de disputa política, nós mulheres negras somos expostas a todos os tipos de humilhações psicológicas.

Referência: foto tirada na Marcha das Mulheres Negras, Brasília, 2015

No mesmo espaço de formação política você escuta companheiras xingando a coleguinha de outros grupos e chega num debate pregando a “sororidade”, no mesmo espaço onde companheiros esculacham a moça que não conseguiu cumprir uma tarefa, os mesmos vão ao Facebook se dizer pró-feminista.  Num mesmo espaço onde pessoas fazem discursos lindos, na prática vivem agredindo verbalmente companheiras e companheiros.

Nós mulheres negras quando entramos na Universidade, percebemos que ali não é nosso espaço, então começamos a nos organizar em movimentos estudantis, porque aparentemente nos sentimos confortáveis no meio dos camaradas.  É muito confortável ver alguns homens e mulheres majoritariamente brancos “lutarem”  por uma Universidade pública e para todos.   Todavia, é possível notar as contradições no dia a dia,  pessoas do próprio movimento fazendo piadinhas com negros, silenciando mulheres negras, silenciando toda uma luta do movimento negro da Universidade, fora  toda a cobrança vinda de uma vida acadêmica. E ainda com as agendas do movimento estudantil, é possível que uma jovem negra consiga cumprir todas essa carga e responsabilidade sem cair o rendimento acadêmico?

A resposta pode ser sim ou não, a questão é que nós mulheres negras temos outras atividades para além das acadêmicas e do próprio movimento estudantil, a verdade é que nós mulheres negras temos que trabalhar, algumas cuidar dos filhos e da família.  Quero expor aqui, que nós mulheres não temos tempo de ficar brincando de política dentro da Universidade, brincando de ganhar DCE, enquanto vocês ficam nessa realidade branca, nós temos que acordar cedo todos os dias e correr atrás do que é nosso, nós mulheres negras temos jornadas duplas, triplas, temos que conquistar espaços que não são nossos.  Enquanto vocês disputam uma cadeira no conselho superior, nós disputamos uma cadeira na Universidade. Enquanto vocês ficam panfletando em eleições, minhas irmãs negras ficam limpando a sujeira que vocês fazem.

Essa crítica não é só minha, é de várias mulheres negras que não se sentem representadas pelo movimento estudantil. Caros amigos comunistas, a realidade é mais dura que um sofá de DCE.