Dois anos após de formada (estudei Direito) decidi fazer outra graduação já que Direito nunca me satisfez e apenas estudei por pressão familiar. Optei por Ciências Contábeis e, como desejo ter experiência na área contábil, me candidatei em vários processos seletivos para estágio.

Quando meu currículo foi selecionado por uma grande multinacional fiquei super feliz e esperançosa de ser contratada, já que possuía todos os requisitos e qualificação exigidos pela empresa – já tinha uma graduação, estou em curso na segunda, falo 3 idiomas, além da experiência profissional em Direito em vários ambientes.

No dia da apresentação, como sempre era a única negra do grupo de entrevistados e ao ver apresentação de cada um pensei que tivesse chance de ser contratada pois possuía experiência em uma área diversa e, além disso, ninguém ali tinha experiência no meio contábil, logo estávamos todos em “pé de igualdade”. Doce e triste engano!

Cerca de um mês depois da entrevista, ao acompanhar o processo vi a seguinte mensagem no meu perfil que havia cadastrado:

“Não foi possível seu aproveitamento nessa oportunidade, já que não se encaixa no perfil, no entanto, você está indicado para o banco de talentos do processo seletivo para o Programa de Estágio…”.

Quando li fiquei em choque, frustrada e decepcionada comigo mesma pois possuía (ou pelo menos achava que possuía) todas as condições exigidas pela empresa. Ao pesquisar as pessoas que conseguiram ser contratadas entendi a frase “você não se encaixa no nosso perfil”: todas as mulheres eram brancas: uma loira, outra morena, enfim todas estilo top model.

Nessa hora me questionei: “Será que vale a pena tentar de novo, estudar tanto para este tipo de resposta?” Minha irmã que é engenheira também passou pela mesma situação, nunca tinha o perfil desejado e no final optou pela carreia pública, pois nela o mérito realmente vigora.

Admito que após refletir muito, agora também decidi seguir e estudar para ter uma carreira pública, pois ser mulher negra solitária em um mercado de trabalho que constantemente te exclui MACHUCA DEMAIS, que sempre dá a desculpa “você não tem o perfil” é dolorido e cansativo.
Enfim, espero que um dia esta situação se modifique e que as pessoas passem a analisar o perfil competência e não padrão de beleza, raça, gênero em uma seletiva emprego.

Imagem – reprodução web

  • Ramiro

    Pessoal, boa tarde. Também passo por isso.
    Quando eu era pequeno sempre ouvia das pessoas que se eu
    estudasse teria uma vida melhor e mais digna.
    Sempre estudei muito.
    Fiz três cursos técnicos( Administração, Telecomunicações e Eletrotécnica),
    5 anos de Inglês, diversos cursos profissionalizantes( mais ou menos uns 30) e
    estou no último ano de Engenharia Elétrica. Isso sem falar que moro só,
    não tenho filhos e nem vícios.
    Tudo isso eu achei que seria o suficiente para uma vida melhor, mais justa!! Mero engano.
    Hoje, vejo-me desempregado. O que mais me chateia é que quando aparece
    uma vaga de emprego, muitas vezes é com proposta de míseros salários,
    ignorando totalmente minhas formações e experiências.
    Dói-me ao entrar em uma empresa deparar-me com pessoas menos qualificadas
    do que eu numa posição melhor.
    Relutei por anos e anos para uma posição melhor. Desisti.
    Hoje, como a anônima do texto acima, só me vejo na carreira pública.
    Não como ascensão profissional, mas como sobrevivência, pois tenho contas a pagar.
    Confesso que desisto!! Entrego o bastão. Deixa para para os mais novos que querem lutar!!
    O engraçado é que alguns colegas branquinhos, no qual estou me afastando,
    não entendem o porque não engreno na minha profissão. Não entendem como estudei
    a vida toda não tenho uma situação financeira melhor. Acho que fundo, eles até sabem,
    mas fazem vistas grossas.
    Então, é isso!! Daqui pra frente, só carreira pública!!

  • Carla Dani Miranda

    Eu desisti de procurar emprego por maneiras tradicionais sinceramente. Ainda tenho a sorte que minha área depende mais de criação digital (e mesmo assim é complicado). Fico pensando no pessoal de áreas que não podem depender disso.

  • Camilla Gomes

    Passei exatamente pela mesma coisa.
    Eu tinha passado pra próxima fase, mas depois de olharem para mim derrepente não tinha mais passado.

  • Ana Nardi

    Apesar de ser uma triste realidade, lendo essa texto consegui me sentir melhor. Estou tão exausta de não me encaixar no perfil que nos últimos meses tenho começado a duvidar de mim mesma, ver que não sou a única passando por isso me ajuda a me cobrar menos, me ajuda a ver que o problema não sou eu.

  • Laura

    Nossa estou sem palavras. Estou prestes a me formar e sei que passarei por isso. Muito triste, porém real!