Pedagogia da Travestilidade

Quando procurei material que pudesse me auxiliar no início da transição, para minha surpresa, me deparei com uma situação que não esperava: o Brasil era/é o país que mais mata travestis e mulheres trans do mundo. Infelizmente, nós temos a metade do número mundial desses assassinatos. Ao absorver essas informações, questionamentos da minha parte foram feitos: como nunca tive acesso a esses dados? O que leva esses assassinatos a não ganharem visibilidade nacional? O que tem sido feito para reparar esse dano? Meu fim será o mesmo?

Horas antes de escrever este texto, infelizmente, fui mais uma vez vítima de transfobia. O sentimento de humilhação permanece, mas, nesse momento, tento lidar de uma outra maneira. Quando li “Ensinando a Transgredir” pela primeira vez, uma das passagens mais importantes, na minha opinião, é a em que bell hooks sugere que nós transformemos a dor em teoria. E que essa teoria, por conta de seu valor libertador, não só transforme quem a escreve, como também quem a lê e coloca em prática.

O episódio que me ocorreu hoje não é isolado. Pelo contrário, ele faz parte do cotidiano de inúmeras mulheres trans e travestis. Nossa vida, em um país como o Brasil, é construída a partir de ausências. Principalmente, de direitos. Sendo um deles, o de viver.  Afinal, nossa existência não é válida, “ela não deveria estar acontecendo”. Por isso, precisa ser extinta e com requintes de crueldade, como bem apontou Berenice Bento, em seu artigo sobre transfeminicídio.

Durante essa semana, ouvi de uma travesti que o brasileiro parece acreditar que travestis não sangram. Ao dizer isso, ela sintetizou, para mim, o que venho construindo por todo esse tempo que tenho não só vivido enquanto uma travesti, como também estudado o que é ser travesti no Brasil: somos vistas como sub-humanas aos olhos dos brasileiros. Nossas lágrimas enquanto levamos facadas, nossos apelos enquanto somos carbonizadas, nossos gritos enquanto estamos sendo espancadas… nada disso os faz serem empáticos. Uma vez que nossa vida, na visão de quem nos genocida, não importa. Ela não merece sua empatia.

O brasileiro, durante a construção de sua identidade nacional, foi ensinado a sentir ojeriza da nossa população, de nos subjugar como seres inferiores. Assim como eu, você que está lendo esse texto, já ouviu coisas bem pontuais sobre travestis. Injúrias que criam um arquétipo ruim em torno de nossa identidade. Entretanto, hoje, depois de estudar, posso contestar essas mentiras vendidas como verdades. Quando li “A máscara”, capítulo traduzido de um trabalho da Grada Kilomba, consegui relacionar com inúmeras coisas a que nós somos submetidas: possuímos uma máscara em nossos rostos. Travestis não falam. Para além disso, mesmo que falassem, não seriam ouvidas – assim como continuamos não sendo todas as vezes que tentamos expor as mazelas que nos rodeiam.

O que leva vocês a ter medo de que travestis falem, que criemos nossas próprias narrativas; que venhamos a possuir domínio sobre o que é dito sobre nós? Kilomba abre meus olhos: assim como os esteriótipos em torno do negro são uma criação do branco, os esteriótipos em torno das travestis podem ser vistos como uma criação por parte das pessoas cisgêneras. Elas projetam nas travestis o que possuem de reprimido em si mesmas, fazendo com que nós nos tornemos, em seus olhos, o que não podem ser e/ou o que não devem se aproximar. Ou seja, as travestis, esse “Outro”, o corpo estranho que transitou entre as categorias estáveis e essenciais da nossa sociedade, se torna aquilo que a população cis possui medo de ser e tem nojo de presenciar o Outro sendo.

A problemática em torno da precariedade que ronda as travestis está nas mãos das pessoas cisgêneras. Vocês possuem uma dívida histórica conosco. Por toda desumanização que nos causaram e continuam causando por evitar se colocarem contra ela.

Se você, pessoa cis, deseja demonstrar empatia por nós, assuma uma posição de reparação e comece, desde já, a mudar sua omissão em relação às violências a que somos submetidas: crie possibilidades para nossa existência, lute pela garantia dos nossos direitos, cuide da nossa integridade física e psicológica, vigie nossos passos, nos pergunte se precisamos de algo, auxilie nossa trajetória, procure nos ajudar a, enfim, nos sentir bem e seguras em meio a vocês.

O maior compromisso que pessoas cis podem ter conosco, população T, é o de reparar o dano histórico que causaram em nossas vidas.

Que para uma mão cisgênera que nos mata, exista 5 para nos proteger!

 

Imagem destacada: Peça “Quem tem medo de Travesti”