Eu imagino que deve ser difícil quando tu te consideras livre para tudo e de repente vem alguém, levanta o dedinho e diz que não podes fazer determinada coisa. Turbantes, tranças, dreads, blackface, por exemplo… Poder, poder, vocês podem tudo, só não devem fazer algumas coisas, mas se querem, vão lá, façam.

Turbantes, tranças e dreads são alguns dos símbolos de resistência negra diante do racismo. Mesmo estando “na moda”, até hoje passamos por constrangimentos por usar esses símbolos. Quando uma pessoa não negra lança mão de algum desses símbolos, ela esvazia o sentido original, o símbolo vira um acessório de moda, um produto. Sacaram? Não comparem isso a alisar e platinar o cabelo porque só demonstra a ignorância de vocês sobre o assunto. Cabelo liso e platinado é símbolo de resistência ou de luta a quê? Não sejam essa pessoa mimada que odeia quando apontamos o privilégio e se defende nos atacando.

Não reduzam o nosso conhecimento/vivência/estudo/militância a uma mera questão de opinião. Falamos com um embasamento que vocês nunca terão. Acreditem, sabemos do que estamos falando, ao contrário de vocês que, sim, têm apenas uma opinião.

Não nos acusem de segregacionismo. O mundo tá segregado, não ver isso é um privilégio que vocês têm. Ok? Aumentou o número de assassinatos de mulheres negras, enquanto diminuiu o de brancas. Há o genocídio da juventude negra. As mulheres negras são as que mais morrem no parto e as crianças negras também. Então, não venham dizer que somos todos iguais, que alma não em cor, mais amor por favor… Essa paz de que vocês falam e clamam é branca, ela não nos alcança. Na verdade, o que vocês querem é que fiquemos em silêncio!

Quando falamos que vocês não devem fazer algo, não é que a gente quer atingir vocês. É que primeiro queremos nos fortalecer, refletir sobre o que é ser pessoa negra. Sim, estamos apendendo o que é isso. Aprendendo a curar nossas feridas. A identificar o que é racismo e o que é “nosso”, pois por muito tempo só o que tínhamos era a estranha sensação de não pertencer a nada, de ser inadequado a tudo: cabelo feio, lábios feios, nariz feio, a cor então…

Percebem que isso não tem a ver diretamente com vocês? Percebem que no mundo que foi criado para vocês pelos seus ancestrais, faz pouco tempo que estamos dizendo que vocês não são protagonistas de tudo? Percebem que isso não é sobre vocês? Percebem?

Não nos acusem de sermos agressivas, quando nós só estamos nos posicionando. O racismo não é good vibes, nós também não! Estamos falando porque por muito tempo fomos silenciadas e invisibilizadas. Estamos falando, mas quando for preciso, nós gritaremos!

Então, não levem para o pessoal, não se vitimizem, não sejam mimimizentos. Na boa, às vezes, vocês veem racismo reverso em tudo!

Informações:

Sobre a mortalidade de mães negras

http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/radio/materias/RADIOAGENCIA/489786-MORTALIDADE-MATERNA-ENTRE-NEGRAS-AUMENTOU-NO-BRASIL.html

Sobre assassinatos de mulheres negras

http://www.brasil.gov.br/defesa-e-seguranca/2015/11/mulheres-negras-sao-mais-assassinadas-com-violencia-no-brasil

Sobre o genocídio de jovens negros

https://anistia.org.br/imprensa/na-midia/violencia-brasil-mata-82-jovens-por-dia/

Flávia Ribeiro

Sou mãe, jornalista, feminista negra, paraense, louca por doces, leonina com ascendente em escorpião… Sou mais um monte de coisa que não cabe aqui!

Imagem destacada – Jezebel