O Jiu Jitsu Brasileiro é uma arte marcial 100% brasileira criada pela família Gracie. Detentor de uma eficiente técnica de defesa pessoal, o grande mestre Carlos Gracie vislumbrou no jiu-jitsu um meio para se tornar um homem mais tolerante, respeitoso e autoconfiante. Na década de 90 o jiu jitsu começou a se tornar muito popular na cidade do Rio de Janeiro e logo depois no resto do Brasil e do mundo. A cada dia mais professores de jiu jitsu principalmente brasileiros estão colonizando todos os continentes do mundo ensinando jiu jitsu para diferentes povos. Mundialmente conhecido como: jiu jitsu brasileiro.

As mulheres negras estão ocupando um espaço pouco ocupado por mulheres, o jiu jitsu brasileiro. É imensurável  a garra dessas guerreiras ocupando os pódios do Brasil e do mundo. Os torneios de jiu jitsu que premiam em dinheiro, geralmente premiam um valor para o feminino inferior ao valor dos prêmio pago aos homens, porém as categorias femininas continuam pagando o mesmo valor de inscrição que as masculinas. Apesar dessa machista adversidade, muitas mulheres entregam suas vidas aos treinos, se entregam de corpo e alma ao jiu jitsu brasileiro e mostram um belo show de técnicas refinadas. Temos atletas de jiu jitsu negras no Brasil que já são referência para outras atletas, é o caso das duas atletas do alto rendimento Nina Moura e Jéssica Santos. Grandes nomes do esporte que com apesar de todas as dificuldades chegaram aos principais pódios dos maiores campeonatos de jiu jiu jitsu do mundo.

Para a mulher, especialmente o jiu jitsu tem inúmeros benefícios. Além de ser uma arte, é defesa pessoal, alguns o chamam de xadrez humano, um jogo mental, de inteligência, o jiu jitsu desenvolve toda a musculatura do corpo, e também exige o uso da mente, melhora os reflexos, velocidade de reação, coordenação motora, velocidade de raciocínio, capacidade de tomar as melhores decisões sob intensa pressão e o equilíbrio necessário para encarar os obstáculos dessa vida. Não há como contar e enumerar todos os benefícios proporcionados pela arte, esporte e filosofia de vida, e para muitas mulheres uma alternativa de ocupar espaços que não eram ocupados por mulheres antes.

Temos mulheres negras morando em outros países ensinando a arte marcial a outros povos e sendo bem mais valorizada. Atletas negras conhecendo os países do mundo inteiros com campeonatos, ministrando seminários, falando outras línguas, um estilo de vida que não é bem a realidade de muitas outras mulheres negras brasileiras. Se há racismo dentro do jiu jitsu? Há racismo em absolutamente todo lugar, a população brasileira foi formada com um racismo inconsciente, implantado e imposto pelo colonizador até hoje. Algumas atletas apontam o racismo, enquanto outras dizem não sofrerem dentro do tatame e sim fora. De qualquer forma a busca dessas mulheres negras é evoluir atrás da arte marcial.

Segue uma entrevista feita com uma das muitas atletas negras de jiu jitsu brasileiro, onde as mesmas aceitaram compartilhar essas experiência individual de cada uma sendo mulher, negra e praticante de jiu jitsu.

Nome Completo, idade, cidade que nasceu, cidades que morou, idade que iniciou jiu jitsu, principais títulos (se competidora)

Nívea de Souza Moura, 24 anos, nascida em Brasília-DF, morei no Rio de Janeiro e Brasília 18 e meio, quase 19 anos. Bi Campeã Brasileira, Bi Campeã Sul Americana, Campeã Brasileira Sem kimono, peso e absoluto, Campeã Européia ( Lisboa- Portugal ), Vice Campeã Mundial ( Long Beach, California – Estados Unidos )

Vanessa Gonçalves, 36 anos, nascida em Ladainha/MG. Moro em Ubatuba/SP. Comecei a fazer jiu- jitsu a pouco tempo, comecei com 35 anos. Não sou competidora.

Dayana Silva de Nova Iguaçu RJ. Iniciei as artes marciais em 2007 em um projeto da cidade com aulas gratuitas,comecei com o Muay Thai no qual hoje sou Kruang(grau) preto, em 2009 surgiu uma proposta para lutar MMA( modalidade que eu não treinava). Lutei e decidi me dedicar a arte, pra isso tinha que treinar “chão”, começei a treinar um pouco, mas o necessário para lutar. Em 2012 decidi começar a treinar com pano. Hoje treino Muay Thai, Jiu Jitsu e MMA todo dia. Não me dedico mais ao Muay Thai a nível competitivo, treino Jiu jitsu e participo de algumas competições,
mas tenho como foco principal o MMA.

Como/Porque começou a praticar jiu jitsu?

Nina Moura: Eu já treinava judô a 12 anos e migrei para o jiu jitsu através do meu irmão que já treinava me apaixonei (não poderia ter sido diferente rs)

Vanessa Gonçalves: Comecei a praticar jiu-jitsu pra acompanhar meu Marido, e acabei gostando.

Dayana Silva: Comecei em com intenção de melhorar a técnica para lutar MMA, hoje treino porque gosto e também participo de algumas competições.

Entre os seus ídolos no jiu jitsu, existem lutadoras negras? 

Nina Moura: Sim , Jéssica Santos (Preta Jeh)

Vanessa Gonçalves: Gabi Peçanha, faixa azul, do Rio de Janeiro. Academia INFIGHT

Dayana Silva: Não.

Quais são as mulheres negras que você se inspira na vida?

Nina Moura: Simone Biles, Serena Williams ,Viola Davis, Michelle Obama, Maria Aparecida Rodrigues (mamãe)

Vanessa Gonçalves: Thaís Araújo, Lazaro Ramos, Rafaela Silva, Barak Obama, Michele Obama, Anderson Silva

Dayana Silva: A minha mãe e minha avó. A minha avó materna é índia, vivia em Manaus ela morou nas ruas, trabalhou como empregada ainda quando era criança, já passou fome, frio, sofreu preconceito e diversos tipo de abusos, ela não sabe quem são seus pais biológicos, pois morou de casa em casa quando criança. Quando tinha 17 conheceu o meu avô, casaram e juntos e com dificuldades criaram 10 filhos e NENHUM seguiu caminhos tortos! A minha mãe é muito guerreira, dos 10 filhos ela é a 2º filha, e em um dos momentos de dificuldade ela largou os estudos ainda adolescente para cuidar dos irmãos mais novos enquanto meu avo trabalhava, ela
cuidava deles um horário e trabalhava como caixa de mercado e fazia extras lavando louça para os vizinhos, passava roupa entre outros bicos.

Depois de adulta ela ainda não tinha retornado aos estudos, e já casada com o meu pai trabalhava como empregada domestica e fazia faxinas extras. Houve uma época que meu pai se acidentou e ficou impossibilitado por um tempo e além de trabalhar como doméstica minha mãe fazia bolinhos de aipim para vender (é uma delícia rs), e eu ia oferecer nas casas quando chegava da escola. Depois de adulta eu insistir pra que ela voltasse aos estudos, e isso aconteceu! Terminamos o Ensino Médio juntas em 2008. Eu sou a primeira da 3º geração a terminar o Ensino Superior e em breve ela vai fazer também. Me orgulho muito de ter mulheres como elas na minha vida!

Você acha que o jiu jitsu auxilia a lidar as questões de racismo que você enfrenta na sua vida fora do jiu jitsu?

Nina Moura: Sim!! O jiu jitsu nos deixa mais equilibrados, fortes, pacientes  e focados !!!

Vanessa Gonçalves: Acho sim que o Jiu jitsu, te auxilia pois além dá inclusão que o esporte te da, te ajuda na a se defender.

Onde você estaria e o que estaria fazendo agora se não tivesse conhecido o jiu jitsu?

Nina Moura: Sinceramente eu não sei, eu vivo em uma cidade onde a criminalidade infelizmente é alta. Já vi vários amigos morrerem nessa guerra sem fim eu tinha dois caminhos a percorrer o que todos estavam trilhando e um que não tinha nada a ver com o mundo em que eu vivia eu me desafiei e graças a Deus conseguir ter um destino diferente de tudo que imaginei ter.

Vanessa Gonçalves: Antes de fazer jiu-jitsu fazia todos os tipos de dança, (dança do ventre, de salão, ballet, street) então se eu não fizesse jiu provavelmente eu estaria dançando.

Dayana Silva: Eu sou técnica em Patologia Clínica e trabalhei um bom tempo na área, acredito que estaria trabalhando em um hospital agora cursando Ciências Biologicas. Também seria maravilhoso, mas não é mais a minha área.

Você se sente mais incluída e aceita pela sociedade pelo fato de praticar jiu jitsu?

Nina Moura: Eu acho que muitas  pessoas me olham diferente pelo fato de praticar jiu jitsu e ser faixa preta.

Vanessa Gonçalves: Eu particularmente não me sinto mais ou menos incluída pelo fato de praticar jiu, mas vejo que vários colegas tem mais aceitação por praticar o esporte.

Dayana Silva: O esporte além de muitos benefícios funciona como uma ferramenta de socialização. Eu moro na Baixada Fluminense e treino na Zona Norte e Sul, lugares e pessoas de perfis diferentes do meu me sinto aceita e respeitada em todos lugares que treino.

Você acha que o jiu jitsu te beneficia mais que uma outra menina negra que não pratica jiu jitsu na sua questão racial? Se sim pode citar exemplos?

Nina Moura: Eu acredito que sim!! Eu acho que por conta de tanto racismo algumas mulheres se sentem muito pra baixo o jiu jitsu levantou minha auto estima!! Eu não penso mais como antes, eu sei do meu valor e do que sou capaz, eu fico impressionada que em pleno século 21 ainda exista tanto preconceito como algumas pessoas ainda tem a mente tão pequena? Eu fico muito feliz quando vejo pessoas negras formadas  e bem sucedidas, referências para outros, mostrando que somos capazes de chegar aonde quisermos.

Vanessa Gonçalves: O jiu-jitsu como qualquer outro esporte, te auxilia na forma que você encara as situações , te dá um auto controle, disciplina.
Mas não muda a cabeça de quem é racista.

Dayana Silva: Em termos, sim. Eu tive uma grande sorte de ter um projeto social na qual eu pudesse conhecer as artes marciais( eu acho que nunca iria a uma academia procurar saber sobre). A luta além de me proporcionar uma profissão, me fez conhecer novas pessoas e lugares, além de outras coisas boas, e é lógico, eu me dediquei com a ajuda incentivo dos meus pais que sempre me apoiaram e me deram uma boa educação. O que eu quero dizer é que em algum lugar pode existir uma outra menina negra que não teve a oportunidade de conhecer um projeto social, que não teve pais presentes como o meu, e quando algo der “errado” na vida dela vão dizer que foi um talento desperdiçado, eu digo que foi um talento não descoberto. Infelizmente as oportunidades não são iguais pra todo mundo!

Já sofreu racismo dentro do esporte?

Nina Moura: Sim !! Eu sempre lutava com uma atleta que era bem branquinha de olhos azul, sempre que ela perdia pra mim o pai dela ficava muito bravo e só acontecia quando era comigo eu sentia que era por causa da minha cor porque quando ela perdia para as outras meninas que eram brancas ele não ficava nervoso, ele já chegou até dar um tapa na cara da garota por que ela havia perdido pra mim!!

Vanessa Gonçalves: Nunca sofre nenhum tipo de racismo em nenhum esporte.

Dayana Silva: Dentro do esporte não.

O que as outras meninas negras da sua vida, amigas de infância/adolescência, estão fazendo agora? Onde elas estão trabalhando? 

Nina Moura: Algumas estudando, outras construíram família, já algumas estão pelo mundo a fora sem direção.

Vanessa Gonçalves: Os racistas acham que  pela cor dá sua pele, você  não tem nenhuma capacidade. Veja no caso da Judoca  Rafaela Silva, que sofreu ataques racistas e deu a volta por cima.

Dayana Silva: Umas trabalham como recepcionistas, outras como manicure, algumas como cabelereiras. Todas seguiram rumos diferentes.

Qual a importância que praticar jiu jitsu trás para sua vida?

Nina Moura: Eu era muito tímida mas também era muito briguenta, o jiu jitsu me trás paz, me acalma tenho muito mais paciência que antes, consigo me comunicar melhor com as pessoas, melhorou minha saúde e minha auto estima!!

Vanessa Gonçalves: A importância do jiu na minha vida é que em primeiro lugar é uma auto defesa, não que eu pense em sair por aí usando as técnicas, mas se caso for preciso sei me defender. Pra estar perto do meu marido, pois ele simplesmente ama o esporte

Dayana Silva: Além de benefícios para a saúde o esporte me ajuda a lidar com as situações do dia a dia, ele melhora minha concentração, ajuda na auto-estima e também é um esporte defesa pessoal.

Quais as maiores lições que o jiu jitsu trouxe para sua vida?

Nina Moura: Independente de cor, idade, sexo, classe social, ali somos todos iguais, com o mesmo objetivo ou com objetivos diferentes, não importa o jiu jitsu é para todos, não exclui ninguém, o jiu jitsu te acolhe, ele te mostra que você pode ser muito mais do que você imaginaria ser, te dá esperança !!

Dayana Silva: Que tudo é possivel! Uma arte onde o mais fraco tem vez, onde suavidade pode vencer a força bruta e as técnicas são ilimitadas.

O jiu jitsu te salvou de alguma forma?

Nina Moura: Sim!! Antes de praticar jiu jitsu eu gostava muito de beber, de festas, tinha muitas amizades boas, mas também algumas que não me faziam prosperar,  vi vários amigos meus morrerem terem um final trágico!! Quando comecei a treinar jiu jitsu mudei meus maus hábitos. Consegui ajudar outras pessoas que estavam perdidas como eu estava através de um projeto social, o qual dou aula e sou aluna também. Aonde a gente consegue tirar várias crianças e adolescentes da rua e da uma nova oportunidade através do esporte, quando eu era criança sempre sonhei em ser médica pra salvar vidas. Eu escolhi ser uma atleta e Deus me deu oportunidade de salvar vidas de outra forma!! Hoje eu salvo vidas através do esporte através do jiu jitsu !!

Dayana Silva: Já fiz uns bicos de segurança e precisei usar algumas técnicas, dei uma imobilização somente!

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Esse é o exemplo de uma de muitas atletas negras que estão realmente melhorando suas vidas mesmo com todas as dificuldades de ser atleta no Brasil. Em países de primeiro mundo os atletas ganham bolsas em faculdades, são tratados de maneira muito mais valorizada e respeitosa, mesmo assim corajosas guerreiras, arriscam, ousam e conquistam mesmo quando se tem todo um sistema contra você, que te diz de todas as formas que ali não é o seu lugar e dificilmente vendo semelhantes à sua volta. Elas vão literalmente para a guerra, se colocam nas academias e nas arenas de combate pelo Brasil e pelo mundo à fora.