Comprovam os dados: temos mais chances de morrer em abortos ilegais, somos maioria no trabalho doméstico, o encarceramento atinge em maior proporção nossos filhos e filhas. Mas o que temos feito para lidar com este quadro de desumanização tão perverso? Muitas coisas, iniciadas lá atrás, nos tempos da travessia pelo Atlântico. Nesta tessitura de múltiplas formas de reexistir insere-se a produção literária de Mulheres Negras. Mas haveria alguma coisa particular neste tipo de escrita? Sim. Muitas! E se somos sempre informadas pelas generalizações – da hipersexualização e do papel de servas da humanidade branca como colocar “fogo na dor”?

Cristiane Sobral, carioquíssima das quebradas de Coqueiros, hoje pássara preta, voando em Brasília, direciona o holofote. Dona de uma escrita instigante, a moça, que além de literata é artista e diretora teatral, mostra a que veio em seu novo livro. Batizada O tapete voador, a obra divide-se em… Ops – como a palavra da vez é des-fragmentar não faz sentido o “dividir”. Costurada em dezoito contos, a obra inicia-se na primeira pessoa de Barbara. Depois desta jovem destemida que aprendeu (e nos ensina) a andar “sem olhar para trás”, continuamos sendo apresentadas a uma verdadeira galeria de Mulheres Negras, que não nos deixam esquecer que somos diversas.

Em Vox Mulher, somos perturbadas por uma releitura de nosso corpo preto – um “continente a ser explorado”. Revisitamos também a “menina rechonchuda” que nos constitui, reacendendo em Nós o desejo de brincar “em meio ao caos” no conto “Bife com batata frita”. Já Jupira – protagonista de “A discórdia do meio”, mostra porque Mulheres Negras costumam ser lidas como fortes: “racismo é um osso duro de doer”. E para transgredir a história oficial do samba como território de macho, seria too much pensar que Jorge Aragão compôs o hino “Identidade”, após algumas palavrinhas de Malena? Uma cantora preta que de tão “conectada com sua ancestralidade e com sua arte”, sonhava e lutava por um tempo em que todos pudessem “frequentar elevadores”, sem distinções. Trabalhava para que o óbvio fosse incorporado: “se o social tem dono não vai”.

Já “Nkala”, conduz-nos aos tempos da travessia, quando, a despeito de todas as violências, nossos ancestrais converteram o “navio-porão” em “paraíso da liberdade”. Em “Pixaim”, a identificação é com o que todo dia nossos olhos dizem-nos, à frente do espelho: “a gente só pode ser aquilo que é”. Lição ensinada por uma carioca, moradora de Brasília. Semelhanças são meras coincidências? Fica a dúvida.

Enquanto “Olga” venceu o desafio de “voltar a si mesma”, Samuel, “O limpador de vidros” que gostava de quebrar gelo e botar fogo na vida (das moças) com as palavras insistia na pegada fala e falo incansáveis. Mas não é que até o danado carregava sua verdade: “negro brasileiro não vive um dia sem racismo”.

Ainda sobre homens pretos com H maiúsculo, o que dizer daqueles que têm a “eterna solidão” como “ponto sólido”? Deixar-se-ão regar pelas “lágrimas dos lírios” ou seria mais providencial cuidarem de uma “Samambaia”? O que “Lélio”, o criativo sujeito com “vocação para paternidade” diria de “Lulília”, a protagonista que o sucede no conto dedicado a explorar as vicissitudes das relações afetivas “Preta com branco”? Ou ainda, de que forma os “efeitos afrodisíacos” de personagens como Augusto podem ser ressignificadas como poções mágicas de amor e cuidado? A resposta está lindamente traçada em “Memórias”, onde o homem negro – desumanizado cotidianamente – celebra a dádiva da paternidade, com a chegada de Luther, seu “tão sonhado primeiro filho”.

Nas palavras que traço em primeira pessoa, revelo minha conexão com Ióli porque a pequena grande repactuou-me com um passado distante, ensinando-me que “tudo que tem o seu começo, tem também o seu fim”. E por falar em fim, nada melhor do que terminar expressando gratidão. Aí vai: obrigada Cris por espalhar “Flor”, inspirando-nos a contemplar a vida como uma “possível história” que um dia contaremos aos nossos filhos e filhas. Escritas como a sua selam o “compromisso com a ancestralidade” e revelam o segredo da “liberdade para dentro da cabeça”: enxergarmo-nos através de “Espelhos Negros”, convivendo com nossas luzes e sombras.