Numa conversa despretensiosa sobre seriados, sugeri a um grupo de amigos a série norte-americana Empire. E para minha surpresa, quase ninguém conhecia a produção. Então me vi com espaço para fazer a defesa, por que devemos ver Empire? Aqui no espaço do Blogueiras Negras, sinto a liberdade de explicitar o primeiro motivo que me levou a ser fiel telespectadora, já que 90% DOS ATORES SÃO NEGROS!

Esse foi o meu primeiro motivo, quando eu vi que o elenco tinha nomes como Taraji P. Henson e Terrence Howard eu já me vi com o dever de conhecer essa história. Não me arrependi e indico para todos os negros que querem sugestão do que ver na TV fechada (ou na internet). Nós, negros, precisamos sim estar atentos a todos os movimentos dos nossos irmãos de cor, seja na televisão, nos debates, na política ou nas artes. Temos que acompanhar a trajetória e nos unir na luta diária pelo reconhecimento que merecemos.

Empire é a série que tem sua base na música, mais especificamente no ritmo do hip hop muito comum nos Estados Unidos. No entanto, o seriado humaniza seus personagens mostrando que além de artistas e empresários famosos, mesmo com dinheiro, nós negros temos questões diferentes para enfrentar todos os dias, e que os demônios começam a nos perseguir dentro da própria família.

Durante a primeira temporada, fica evidente o quanto os acontecimentos da infância de uma criança vão moldar o seu caráter e gerar consequências para todas as escolhas e atitudes ao longo da vida. Lucios Lyon, o patriarca da família, vivido pelo brilhante Terrence Howard, é um ser humano extremante complexo, e verdadeiro em todas as suas nuances. Criado por uma mãe esquizofrênica, o pequeno Lucios teve que aprender a sobreviver aos rompantes psicológicos dentro de casa, e mais tarde foi forçado a aprender o que é ser “aquele que defende a si próprio” vivendo nas ruas ainda muito jovem.

Cookie Lyon, é a personagem que ganhou vida na atuação intensa e visceral de uma das maiores atrizes negras do nosso tempo, Taraji P. Henson. Para nos apresentar uma protagonista de comportamento tão dinâmico e peculiar, a atriz nos permite observar como se posiciona uma mulher negra diante da sua família, seus filhos e o homem com quem escolheu dividir os dias e as contas para pagar. Em algum ponto, é natural sentir identificação com seus medos e inseguranças, sobretudo, quando é quase palpável o quanto ela (a mulher negra e mãe) é capaz de abrir mão da sua felicidade.

Além de Terrence, existem outros cantores internacionais que trazem o lado artístico da série ao seu ponto alto. Entre eles, Jussie Smollett e o rapper Bryshere Y. Gray, conhecido como Yazz. A atuação leve da atriz Gabourey Sidibe (vencedora de prêmios e indicada ao Oscar pelo filme Preciosa – lançado em 2010) carrega uma veia cômica, que sabe o momento de tornar-se profunda em seus questionamentos.

Jussie Smollett, vive o filho do meio, Jamal Lyon, gay assumido, que desde muito novo enfrentou a desaprovação de seu pai diante de todas as atitudes que evidenciaram a sua essência. Ao meu ver, este é um dos personagens mais emblemáticos da televisão atual. Um filho rejeitado, que mesmo depois de empoderar-se de si mesmo, ainda busca a aceitação desse pai. Ainda que não parecesse certo, Jamal sempre quis ser um homem como o pai. Tão forte, bem resolvido e inteiro, como Lucios Lyon. Ver a desconstrução dessa necessidade que o outro te aceite para que você seja feliz, é um dos maiores ganhos da série. Vale ressaltar o aprendizado de poder amar alguém, mesmo que essa pessoa não aceite você.

O caçula é Hakeem, vivido pelo rapper Yazz The Greatest. De todos os filhos é o que menos se relaciona com o passado de privações da família, e isso faz dele um jovem riquinho mimado e sem noção da realidade. Para nossa felicidade, Hakeem Lyon vai crescer e amadurecer, e sua mãe terá uma participação significativa nesse processo. A relação entre eles demora para se estabilizar, porque como ainda era bebê quando Cookie foi obrigada a passar um tempo longe da família, o filho acabou se distanciando emocionalmente dessa lembrança materna.

O primogênito é Andre, personagem denso do ator Trai Byers. O filho mais velho vive formatado dentro de um terno e gravata, que em muitos momentos o fazem esquecer quem ele é, de onde ele veio, e como a sociedade enxerga-o. Algumas das verdades mais fortes e difíceis de encarar são jogadas na mesa em diálogos solitários, que Andre costuma vivenciar, já que herdou de sua avó paterna a esquizofrenia. O casamento com uma mulher branca, também define para nós quem esse homem quer ser, mas nos mostra a cada instante, quem ele é em sua profundidade.

Essa é a família protagonista de Empire, que agrega muitos outros personagens e tem seus valores “dançando” conforme a música. A trama é muito intrigante, e faz com que todos se perguntem o que sentem sobre os acontecimentos de sua vida. Porém, a resposta nunca será a que entregamos aos outros, e sim aquela que deixamos guardada em nosso interior.

O ganho extra para quem enveredar pelo caminho criado por Lee Daniels e Danny Strong são os espetáculos musicais apresentados a cada episódio. Nem sempre são grandes shows, mas certamente as letras das canções compõe e costuram as feridas abertas em Empire. Todo negro precisa conhecer essa história!