Há apenas três possibilidades para a pessoa negra no projeto político supremacista da branquitude – a invisibilidade, a exotificação ou o extermínio, como atesta a inominável notícia de que mais um menino negro foi assasinado em frente a uma loja do Habibs. Daniela Mercury está obviamente ciente disso, criadora e criatura de um processo de desapropriação cultural clássico que teve início nos anos 80 e que faz parte de uma rede de violências simbólicas e concretas que interliga a discussão sobre desapropriação cultural, os feminicídios e o extermínio da juventude negra.

Estamos falando de como a cultura de massa desapropria nossos discursos e narrativas para justificar uma relação desigual de poder em que a branquitude está em tamanha posição de privilégio e autoridade que pode nos exterminar enquanto perdura a vida ou em morte literal. Um discurso que nos adoece, sequestrando nossa saúde mental e física, usurpando direitos constitucionais e até mesmo a vida. Enquanto somos exterminados nos dizem que é apenas um turbante, uma peruca black power, uma homenagem. Mas é a nossa vida.

Por hora, vamos arrodear e nos transportar para uma época em que éramos todos tão jovens… Nas paradas de sucesso estavam Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Rpm, Blitz, Lobão, Legião Urbana, Titãs. Na televisão talvez o primeiro programa feito para jovens por jovens da era em cores,  o “Armação Ilimitada” com uma família super pra frentex que não se encaixava em definições. O novo projeto de Brasil era um clipe, aos moldes das experiências todas juntas e misturadas das décadas de 60, 70 e 80 nos Estates.

Segundo essa narrativa, aqueles tempos bons que não voltam nunca mais, não serviram para nada. Não participaram para construir um dos mais importantes segmentos da cultura jovem de massa. Sequer existiram. Nós, jovens pretos desde a década de 1930, não tivemos relevância alguma para o cenário cultural. Invisibilizados, podemos ser desconsiderados, tratados como dispensáveis. Gente que pode ser facilmente substituída logo exterminada.

Até hoje, nos canais de televisão paga porém “alternativos” tipo OFF, são mostrados documentários para preservar a ideia de que essa gororoba  toda modernosa, que teria dado origem a cultura jovem de massa tal como a conhecemos hoje, foi espontânea e promovida por meninos do rio, desbravadores das praias do sul, sudeste. No máximo, nas deprimentes quadras de Brasília, onde as pequenas utopias da arquitetura e o urbanismo de Lúcio Costa e Niemeyer haviam falhado maravilhosamente.

Mais tarde essa gente bonita – lemos aqui branca – teria a chance de provar seu valor, com a geração de apresentadores da MTV com nomes como Soninha Francine e Astrid Fontenelle, hoje respeitáveis senhouras que respondem respectivamente pela Secretária de Assistência Social de São Paulo sob a gestão de João Dória (aquele que decretou guerra contra o pixo) e programa Saia Justa, que demorou nada menos que 15 anos para ter em seu quadro uma atriz negra, espaço hoje ocupado por Taís Araújo.

E a gente nem parou para falar de pessoas como Roger Moreira que reeditaram os bastiões da tradição, família, propriedade e off course, dos bons costumes. Gente como Alexandre Frota, que inclusive pode dar sua opinião sobre educação.

Gente que cresceu bebendo leite A e entre nós, os que estavam bem na fita ficávamos felizes com o tipo C. O primeiro era a Xuxa, a Monique Evans. Era a modernidade dos primeiros shoppings, o metrô desalojando a população negra dos grandes centros, se por acaso ali resistissem. Era o som dos iê, iê, lariê, era gente bonita, elegante e sincera. O leite C, ahhhh… Preciso dizer? A gente fazia filho e não consegue criar, fazia carro e não sabe guiar, fazia trilho e não tem trem prá botar. A gente inclusive pedia  grana e não conseguia paga. Alguma dúvida?

Nós e nossos corpos concretos e simbólicos por consequência éramos e somos o outro num projeto de sociedade que era keep cooler e não geladinho, farinha de puba, fofão no carnaval. Assim, um das principais tarefas dessa gente bonita – leia-se branca – foi vender um projeto cultural alinhado aos valores de uma supremacia branca que estivesse de acordo com os valores que justificariam a continuação da invisibilidade, exotificação e extermínio  da população negra e indígena.

Nada mais emblemático nesse sentido que Rock ‘n Rio, um woodstock atrasado e completamente deturpado para o formato de arena. Todos nós, mesmo que através da televisão, cantamos que éramos campeões com Fred Mercury.

Também nessa época, os povo do RPM diziam que era mais populares que os Beatles e olha, se consideramos proporcionalmente suas vendas, até que aqueles meninos tinham alguma razão. Ainda que o fenônemo tenha sido nada mais que uma jogada de marketing tremendamente bem articulada para fazer crer que uma gangue de bonequinhos lego estava fazendo a revolução!

Estava tudo bem, só que não: diz povão!!!

Marinez, eterna cantorna da Banda Reflexu’s, disseminadora de hits como “Madagascar olodum” e “Serpente Negra”

Mas espia, nós estamos aqui certo? Somos mais da metade da população, então o que deu errado no projeto da supremacia branca? Na realidade essa é uma engrenagem tão bem forjada que apesar de sermos a maioria, estamos numa relação de poder desigual. Mas sempre em luta. Não podemos nos esquecer que em 5 de janeiro de 1989 fora criada a lei 7.716 que tipifica o crime de racismo. Em 1995 é construída a Marcha Zumbi dos Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e pela Vida e também a Conferência de Durban.

É nesse contexto que se insere o processo do movimento Axé, que foi em primeiro lugar invisibilizado e posteriormente ridicularizado, até ser exotificado. Até porque o legal mesmo era ser essa gente roqueira que emulava bandas como The Smiths, The Police e Beach Boys. Essa estratégia ainda é usada para toda e qualquer música e cultura de preto. Mas, apesar do que martela o discurso oficial até hoje, havia um tanto de coisa estava acontecendo também na Bahia e sim, era muito mais importante, profundo e relevante do que os filhos dos políticos, donos de TV e empresários tinham a dizer.

Todo esse fervo só chegaria como cultura de massa ao sudeste por conta dos programas como Chacrina e Globo de Ouro. Uma das bandas a penetrar esse espaço foi a Banda Reflexu’s que trazia em sua formação a inesquecível Marinez com sua voz que encantou um país. Mas havia muito mais a ser visto, ela usava tranças em cujas pontas pendiam formosas contas que nós meninas nascidas na década de 70 todas usamos. E suas roupas eram completamente diferentes de tudo que se havia visto até então na televisão.

Ela talvez tenha sido uma das primeiras negras que não foi retratada como uma escravizada, que cantava a voz do seu povo em rede nacional ou alguma coisa perto disso, dado o alcance da televisão nessa época. E as letras naõ deixavam o ponto sem nó. O LP “Reflexu’s da Mãe África” era profundamente politizado, potencialmente perigoso trazendo temas desde História, Segregação e Urbanismo. Era empoderamento chegando onde não chegavam os panfletos, as reuniões. Isso é revolução para além do tapete do apartamento, adentrando a sala de estar. Diz povão!!!

Só para termos uma ideia do fenômeno, “Karaokê da Xuxa” com “clássicos” como “Estica e puxa”, “She-Ra” e “Rambo”, vendeu 700 mil cópias enquanto a Banda Reflexus estava na marca dos 2 milhões e os meninos beatles alcançaram 3,7 milhões de cópias com “Radio Pirata ao Vivo”. Ou seja, ainda que tivesse um conteúdo indesejável para o projeto de poder vigente, a cultura preta fazia muita grana. Era preciso desapropriar o canto dessa cidade.

Em 1992 foi lançado com grande alvoroço, o álbum de uma jovem chamada Daniela Mercury que, anotem, vendeu os mesmos 2 milhões de cópias que Marinez já havia alcançado há alguns anos antes. Ainda assim, foi essa a voz e a imagem que a GR*obo, a indústria fonográfica e a narrativa oficial escolheram como sendo a grande responsável pela popularização do axé que em breve seria Axé Music. Mais pra logo, música do mundo (world music) como bem pontuou Ana Maria Gonçalves.

Sobre a letra, diz sua autora que a afirmação não está em primeira pessoa, mas se refere aqueles que são o carnaval, gente preta. Seja qual for a interpretação e vamos aqui insistir no discurso dos autores da letra porque somos dessas, a estória tal como é contada apenas evidencia o fato de uma mulher branca ter roubado a fala de todo um movimento. Sua autoridade é tamanha que retira a voz de nossa boca para falar em nosso lugar, num exemplo clássico de desapropriação cultural, como conceituou Patrícia Alves.

Sua voz só será ouvida através de mim, vocês são dispensáveis. Essa é a mensagem. E se o nome disso não é a mais pura defesa de uma supremacia branca, não sabemos o que é.

Margareth Menezes em 1986, quando estreia no Teatro e logo em seguida desponta na carreira musical

Afinal, para a branquitude é fácil passar a borracha e esquecer dos 30 anos da música Faraó, que coincide com o lançamento do furação da Bahia, Margareth Menezes – quem aliás, não recebeu nenhuma homenagem! É estratégico esquecer que a voz de Ellegibô é preta e reivindica um Egito negro, afinal toda a filmografia está aí nos dizendo o contrário, não é Ridley Scott?

Margareth Menezes e o canto negro da cidade mais negra fora da África são linhas no Tempo da mesma história: atriz, indicada duas vezes ao grammy (um latino e um awards) e destaque em Festivais, como o de Cartagena, na Colômbia, a cantora ainda não é o centro das atenções. Nos perguntamos o porquê? Alguém dançou atrás de algum trio elétrico esse ano ao som de Ellegibô?

Como a gente bem sabe, somos nós a cor dessa cidade. Cada Afoxé, cada Maracatu, Escola de Samba e Bloco Afro que coloca milhares na rua sai sem patrocínio, sem dinheiro e sem apoio de artistas brancos tão empenhados em causas negras. Cadê alguém de vocês brancos oferecendo uma campanha pro Ilê Ayiê sair ano que vem? Ou prestigiando a presença do Bankoma na avenida, numa hora que NENHUMA televisão – a não ser a pública – está cobrindo? Falar de empoderamento negro enquanto os dinheiros caem todos no mesmo bolso é bem fácil. E como disse o maestro Letieres Leite, “se Margareth Menezes fosse branca, não haveria Daniela Mercury” – e a gente sabe que não mesmo!

Daniela Mercury foi ao profundo da questão, cantando também que a branquitude era “o mais belos dos belos”. A palavra estava dada, o monstro estava ali para nos comer a todos como em “Você não entende nada” de Caetano. Mais tarde, a cantora de ascendência européia ganharia o Grammy com “Balé Mulato” com  “Baianidade Nagô” e “Que bloco é esse” em 2006. Seria considerada a “Carmem Miranda dos novos tempos” e a “artista que Madonna gostaria de ser”, segundo informações da wikipédia.

Gostaríamos aqui de apresentar estatísticas mas isso seria impossível nesse momento. Não havia discussões que levassem em conta questões de raça e gênero, não em grande escala ou no âmbito dos órgãos oficiais e espaços de poder. Eis uma das mais cruéis facetas do racismo institucional. Vivíamos sob o discurso da cordialidade, em seus últimos dias de descaradamento, coisa que o axé de preto certamente contribuiu para desmascarar.

Agora Daniela Mercury volta aos holofotes pela homenagem racista e discussão rasa sobre o que seria empoderamento negro – homenagem feita a Elza Soares que inclusive não foi convidada, sim? Ou citada sua obra de Mulher do Fim do Mundo, citou? –  aquilo que tem toda autoridade do mundo para discutir mesmo que entenda lhufas do assunto. Porque empoderar dá dinheiro, mas não pra gente preta obviamente. Que o digam nós especialistas em todas as áreas de conhecimento, formadas pela academia e pela prática, desempregadas. Algumas em situação de profundo adoecimento emociomal e psicológico, que são superados a um custo altíssimo. Gente que segue na lida, sabendo que o que paga é mesmo mudar o mundo um pouquinho de nada por vez, mas com pouca esperança de que caiam alguns vinténs na conta corrente no final do mês.

Afinal, sempre existe aquelas gentes aliadas super legais para propor um projeto bacana na música e na militância e bum, fazer muito dinheiro enquanto gente preta vê navios ou vão, por motivos pessoais e profissionais que não nos cabem julgar aqui afinal não é esse o foco desse texto, se colocoar em posição de coadjuvantes. Aqueles que servirão intencionalmente ou não para provar com ou sem palavras que aquela pessoa só está bem intencionada.

E olha, Daniela não estava bem intencionada. Porque nunca esteve. Desde o início de sua carreira tem se especializado em desapropriação cultural. Silenciando toda uma geração de artistas e conssequentemente, toda a população que estes representam. Ela só quer seguir fazendo o que sempre faz. Uma cultura de preto sem pretos e não vai ser um cabeleira black power que vai mudar isso.

Pode se pintar de pixe minha branca, que não vai ser Odara!

Imagem destacada: Portal Fotos públicas, desfile dos Blocos Afro em Salvador, 2015