A trama do filme Tangerine (2015) de Sean Baker é bem simples: Sin-Dee Rella, travesti, negra e que trabalha como prostituta descobre que seu namorado (que é ao mesmo tempo seu cafetão) a traiu com uma mulher cisgênero e resolve sair a procura da mesma para tirar satisfações.

O que esperar desse aparente estereótipo „mulher trans-é-trocada-por-mulher-cis-e-arma-o-maior-barraco“? O papel de Vera Verão interpretado por Jorge Lafond no programa „A praça é nossa“ era baseado nesse estereótipo, ou seja, ele não nos é desconhecido.

Mas o que acontece, quando o estereótipo fala? E não o texto que escreveram para ele, mas sim o que ele realmente pensa? Será que seríamos capazes de entender a fala? Nesse sentido, Tangerine parece não ser uma tarefa muito fácil para quem acredita na impossibilidade de fala dos estereótipos (ou daqueles que foram condenados a serem vistos como tal). As figuras Sin-Dee Rella e Alexandra exigem serem ouvidas e entendidas mesmo enquanto correspondem a estereótipos recorrentes de travestis.

Em Tangerine a fotografia experimental das cenas filmadas com um iPhone 5s sublinham o caráter subversivo do olhar, intensificando a ideia do olhar por „trás dos bastidores“, e por isso mesmo, autêntico. As cenas nos mostram uma Hollywood que não deveria existir, a não ser como forma de admoestação para os fãs de um filme como La La Land. Antes de serem convidadas para atuar em Tangerine, Kitana Kiki Rodriguez (Sin-Dee Rella) e Mya Tailor (Alexandra) trabalhavam como prostitutas na mesma região onde as cenas foram rodadas, e muitas das situações descritas foram retiradas do cotidiano das duas. O cotidiano de duas prostitutas, transgêneras, negras poderia mesmo nos dar uma lição de vida ou estaria condenado a servir de exemplo para „o que não queremos ser“?

De volta à ação do filme, Sin-Dee Rella sai à procura da mulher cisgênero com a qual seu noivo a traiu, como Alexandra, sua melhor amiga e também negra, travesti e prostituta, a revela. Sin-Dee Rella acaba de sair da prisão para a qual foi por porte de drogas, que aliás, ficamos sabendo mais tarde, pertenciam ao namorado. Sin-Dee se sacrificara por ele, protegendo-o, numa inversão de papéis. Essa revelação nos ajuda a reconhecer a estrutura do filme, que se baseia, ou melhor, é uma alusão ao conto da Cinderela, como o nome da personagem principal deixa perceber. Temos, no entanto, uma Cinderela às avessas, num conto onde o príncipe não sai à procura da princesa, que se tornara irreconhecível através da camada de cinzas acumuladas no cotidiano de trabalho. Em Tangerine, o príncipe é o responsável pelo envio da princesa à prisão, onde ela será coberta de „cinzas“ (também símbolo de vergonha e luto) e onde sua mulheridade será negada, e não restituída, como no conto.

Sin-Dee Rella não corresponde à imagem imaculada da virgem a espera do seu príncipe, talvez por isso o prefixo sin, pecado em inglês, no nome Sin-Dee. Por outro lado, o nome Sindee é um corruptela do nome Cynthia, que também é um dos nomes pelo qual atende a deusa grega Ártemis, ou Diana na mitologia romana, e que está ligada à vida na selva e à caça. Ambas possibilidades parecem dialogar com a personagem Sin-Dee Rella, uma mistura de desafio à santidade (e sem paciência alguma) e  deusa grega caçadora, que sai à caça de provas da traição, que lhe darão o direito de exigir satisfações do namorado.

A personagem Alexandra, a melhor amiga de Sin-Dee Rella, é uma alusão à fada-madrinha do conto. É ela quem, durante todo o filme, toma conta da amiga, dá conselhos, tenta chamá-la à realidade. Muitas vezes o filme parece não ter uma personagem principal, tamanha é a presença e importância do papel interpretado por Mya Tailor, e que foi aliás a mais premiada nos festivais de filmes nos quais Tangerine foi mostrado. Enquanto Sin-Dee Rella vai passando (e desestruturando também) pelos vários setores do que seria chamado de submundo Hollywoodiano, Alexandra passeia por uma espécie de mundo intermediário, nos mostrando como a prostituição e as travestis não fazem somente parte de um submundo bem distante e invisível e com o qual nós, os visíveis, não entrariam em contato. E se nos encontramos todos nesse mundo intermediário, por que somente as travestis e  prostitutas não mereceriam contar suas próprias histórias?

Ainda falando sobre a hierarquia de mundos, a presença latente de uma Hollywood que se alimenta tanto do mundo intermediário quanto do submundo se faz perceber, através da tensão que personagens como os policiais e a sogra do taxista Razmik trazem à cena com suas exigências de ordem. Essas personagens nos lembram de que há um mundo fora dali, que dita as regras e formas de comportamento. Enquanto os policiais têm o papel de lembrar-nos de que pessoas como Sin-Dee e Alexandra jamais deverão se incluir na sociedade que tem a Hollywood cinematográfica e mainstream como modelo, a sogra de Razmik encarna o papel que tenta nos vender a crença de que todos aqueles que seguirem as regras impostas um dia chegarão lá.

A despeito de saberem se têm ou não chances de inclusão, Alexandra e Sin-Dee Rella têm pressa, a vida não espera. Assim, elas vão construindo vida onde esta não deveria existir. Onde deveria „haver bagunça“, Alexandra dita regras, como quando exige que o cliente  pague pelo programa ainda que não este esteja satisfeito com o serviço. O pagamento pelo serviço, esteja o cliente satisfeito ou não, é um fator importante na construção da humanidade da prostituta representada por Alexandra, pois através desse pequeno detalhe fica provado que, o que ela faz não é parte constituinte da pessoa que ela é, não faz parte de seu caráter, mas sim da profissão que exercita. Ela não é o objeto porque a ação que ela exerce é o objeto de negociação. Quando ela negocia o serviço e quando ela se nega a levar o calote, Alexandra está criando uma distancia entre o ideal que o cliente tem dela, prostituta e travesti. Do mesmo modo, quando ela paga para poder cantar num bar com o dinheiro que ganhou exercendo a prostituição, ela se aproxima do seu próprio ideal de travesti e mulher.

Enquanto isso, Sin-Dee Rella faz o caminho contrário de Alexandra, „bagunçando“a hierarquia opressora e exploradora, onde uma pessoa como ela não poderia pedir explicações a ninguém. Ela sai à procura de Dinah, a garota cisgênero por quem foi trocada e na confusão a „nova princesa“ do cafetão perde uma de suas sandálias. Porém, em Tangerine, nenhuma das princesas terá seu sapato de cristal perdido restituído pelo príncipe. O único cristal que recebem de Chester, o cafetão, é a metanfetamina que Dinah divide com Sin-Dee Rella no banheiro de um bar. O „sapato de cristal“ desse conto é uma corrente que Chester usa para prender o pé da princesa que ele quiser explorar.

Depois de toda a via crucis à procura de Dinah e da confrontação com o noivo, Sin-Dee acaba sabendo através deste que houvera outras traições e que ele a traíra com Alexandra. Sem dizer nada Sin-Dee Rella deixa o local e Alexandra a segue pedindo pelo seu perdão. Sin-Dee Rella a ignora e faz o que uma Cinderela faz quando perde a fé nas fadas madrinhas: ela deixa de acreditar em si e de lutar contra a imagem que a sociedade lhe impõe, entregando-se à resignação.

De volta ao trabalho, Sin-Dee Rella interpela um grupo num carro que passa, e que em resposta a ataca proferindo palavras transfóbicas e arremessando urina no seu rosto. Alexandra que observava tudo, ajuda a amiga, levando-a até uma lavanderia, onde Sin-Dee constata triste que o ataque arruinara sua peruca. Num gesto singelo de amizade, Alexandra retira a própria peruca e a empresta à amiga.

O filme mostra como Sin-Dee Rella passa o tempo todo à procura do seu príncipe, daquele que, assim pensava ela, poderia transformá-la numa princesa. Porém, fora dos contos de fadas, e mesmo dentro deles, os príncipes somente conseguem reconhecer uma espécie de reflexo da própria imagem idealizada, nada mais. Tanto nos contos, como na vida real, são as fadas madrinhas, imaginadas ou reais, quem sabem que por trás de toda aquela sujeira, que Cinderelas acumulam durante infinitas horas em que passam mantendo limpinha a vida dos outros, se esconde na verdade uma princesa. Ainda que a coroa usada por essas Cinderelas não seja às vezes de ouro, ela será com certeza feita de muito amor e resiliência, como é a coroa em forma de peruca que Alexandra coloca na amiga.

A vida, nos ensina Tangerine, ela pode ser muito dura; e as fadas madrinhas não são sempre perfeitas, mas elas sempre estarão lá quando precisarmos delas.