Quando Nicki Minaj surgiu nesse contexto pop eu não gostei de cara. Digo contexto pop porque ela já fazia rap há muito tempo, mas o mundo pop tem um modo peculiar de tratar os artistas, as mulheres negras nem se fala. Enfim. Sempre gostei de música pop. Hoje, com 26 anos, não estou por dentro de tudo. Assisti ao Grammy esse ano e não conhecia metade dos novos indicados. Mas já tinha alguma noção de que Beyoncé e Adele ganhariam os prêmios que achava que elas deveriam ganhar. (Não entrarei em polêmicas sobre isso aqui porque quero falar sobre a Nicki).

Em 2012 eu trabalhava numa loja de roupa e Super Bass era uma das músicas da playlist, e eu adorava quando ela começava a tocar. Tipo, adorava mesmo. Coloquei na minha playlist, mas ainda não tinha resolvido minha implicância com ela. Bom, eu achava a Nicki agressiva demais, não entendia a parceria dela com os rappers, e aquilo me incomodava. Em 2014 ouvi Anaconda e apesar de amar a música e todas as vozes que ela consegue fazer segui com meu incômodo. A estética do clipe me incomodava, o jeito que ela usa o corpo e o de outras mulheres me incomodava. Mas dessa vez decidi tentar entender o por quê do meu incômodo.

Anaconda é basicamente uma mulher falando sobre sua experiência com homens, ricos, bem dotados. Sexo, drogas, ostentação. Nada novo no mundo do rap americano, certo? Fora o detalhe de que é uma mulher falando sobre suas próprias experiências e sobre seu corpo. E isso incomoda. Reparei com mais calma que o Drake faz uma participação no clipe: calado. Isso mesmo, calado! É comum no mundo pop a participação de rappers negros nas músicas de cantoras brancas. Pesquisem aí as divas pop que vocês ouvem. De Britney a Ariana grande. O rapper negro agregando valor ao que elas dizem é quase como um ritual de iniciação. Bom, sabemos como a cultura negra é uma mercadoria rentável, né? Enfim, a Nicki não precisa disso porque ela já é a rapper. E o Drake pode participar calado sim.

Comecei a entender que a minha implicância era simplesmente por ela tomar o lugar do homem e falar sobre o próprio corpo. Snoop Dog, Lil Wayne, Young Thug, Kanye West, Pharrel Willians e infinito são rappers que eu ouvia adolescente (e ainda ouço) com muito incômodo pelo modo com que eles tratam a mulher nas letras e nos clipes, como objeto. Quando assisti Monster, do Kanye West, pela primeira vez, fiquei horrorizada. O clipe é mais do mesmo no que se trata de perpetuação da glamuorização da violência contra mulheres e do estereótipo da mulher negra forte e dominadora. Nesse clipe a Nicki é uma dominatrix e uma boneca. Eu tinha 20 anos e nem sabia quem era a Nicki Minaj ainda. Apenas não tinha meios de processar aquele clipe, só sabia que ele me incomodava. Ainda hoje não entendo algumas “escolhas” desse rapaz. Mas a Nicki escolher ser amiga e fazer parceria com eles é algo válido desde que ela tenha voz e não seja mais um corpo estático ou rebolativo mudo.

Estamos em 2017 e o Kanye continua resolvendo questões problemáticas com a simples resposta de que se trata de fucking arte, ele nunca se responsabiliza. Gold Digger é uma música que provavelmente você já ouviu. É dessas batidas que cola e não sai mais. Uma parceria do Kanye com o Jamie Foxx em que eles falam sobre a relação entre homens e mulheres negras. Mulheres negras aproveitadoras que só querem o dinheiro do pobre rapaz. Certa vez a Nicki criticou essa letra, disse estar cansada do preconceito que as mulheres negras sofrem, mas que já está “acostumada”. A letra diz claramente que o cara deixará o traseiro negro da mulher por uma branca. “ when you get on, he’ll leave your ass for a white girl”. Enfim. Não quero falar mais sobre o Kanye porque a minha questão aqui é mostrar como resolver minha implicância com a Nicki foi um modo bem bacana de descobrir que posso ouvir rappers mulheres. E não só ouvir, mas saber como elas são sobreviventes nesse ambiente escroto que insiste em colocar uma contra a outra e tirar a humanidade delas.

Nicki ganhou uma visibilidade no mundo pop que Azealia Banks, Remy Ma, dentre outras rappers negras não têm. Muitos que conhecem as tretas envolvendo Nicki e essas artistas nunca ouviram sequer uma única música delas. Se o sucesso no mundo pop é algo bom ou ruim, só cabe a elas decidir, mas é bem chocante pensar em como muitas são reduzidas ao estereótipo da negra barraqueira e metida arrumando confusão no Twiter. Nicki faz parcerias com vários rappers. Com o Lil Wayne, por exemplo, desde o início da carreira. Only é uma música em que ela diz claramente que nunca transou com ele e o Drake. Porque né, homens podem fazer parcerias e se amarem muito, mas uma mulher negra fazendo parceria com tantos rappers de sucesso só se tiver dando pra eles não é mesmo? E se tiver, porque isso é tão importante?
No começo desse ano fiquei sabendo do fim do relacionamento dela com o também rapper Meek Mill. Imediatamente lembrei-me de uma premiação em que a cada prêmio que ela levantava para receber, recebia o carinho e apoio do namorado. Não lembro ao certo a premiação.

Confesso que não sabia que ela namorava e ao mesmo tempo em que gostei de vê-la ganhando em várias categorias que concorria com nomes como Kendrick Lamar e o próprio Drake, gostava de ver esse lado mais “frágil” dela. Lembrei também de outra entrevista em que ela fala sobre o fim do namoro de 12 anos com o Safaree. Entre muitas coisas ela diz que nunca viveu uma vida de famosa sem ele ao lado e que se ela não fosse uma rapper de sucesso, provavelmente eles teriam casado, tido uma vida feliz e com filhos. Apesar das indiretas nas letras, ela tenta ser discreta sobre a vida pessoal, mas não é muito difícil deduzir que não deve ser fácil ser o/um companheiro da/para Nicki Minaj.

Recentemente ela “avisou” no Twiter que está solteira e focando na carreira. O que não exclui a possibilidade dela querer casar, ser mãe. Afinal, ela é uma pessoa, né? Pode querer várias coisas ao mesmo tempo sim. E antes que o texto se estenda mais ou acabe parando no arquivo por não conseguir definir a motivação exata dentre tantas tretas, acho que ele é sobre isso. Sobre os estereótipos que limitam, que desumanizam as mulheres negras. E como ruminei e aprendi muito nos últimos anos com essa questão; nesse texto a partir de uma figura do mundo pop. Mas sabemos que não faltam outros exemplos para pensarmos sempre em como podemos ser o que quisermos porque somos múltiplas.

Imagem destacada – Ebony