Ouvir Luedji cantar é fechar os olhos e ser transportada pras lembranças de saudade que não se tem notícia. Aquelas mesmas, atlânticas, escondidas e reveladas na pele, nos textos nas composições.

No ano passado, seu vídeo clip Um Corpo no Mundo sacudiu a internet e impressionou a comunidade negra que adimirada conheceu o trabalho dessa artista baiana que vive em São Paulo. Entrevistamos Luedji numa conversa breve de pé de ouvido, com vontade de saber mais e mais. Confere o que ela tem feito e como será bom o que vem por aí!

Charô Nunes e Larissa Santiago – Quem é Luedji Luna?

Luedji Luna – Mulher negra compositora e cantora.

Charô Nunes e Larissa Santiago – Conte para gente um pouco sobre quem veio antes de você, seus pais, seus avós, o bairro onde nasceu… Como você se relaciona com essas memórias afetivas?

Luedji Luna – Eu sou filha de Adelaide e Orlando Santa Rita, um casal que se conheceu no contexto dos movimentos sociais da década de 70, minha mãe era do Alto das Pombas e meu pai do Calabar, dois bairros “periféricos” próximos, em meio a região mais burguesa da cidade de Salvador, a Barra. Minha mãe fazia enfermagem na UFBA, mas trocou por economia porque Marx era economista (hoje ela se arrepende), meu pai se formou em história, tb na UFBA. Eles foram dois jovens que queriam revolucionar o mundo, mas acabaram revolucionando as próprias vidas, e também a minha… Fui uma filha planejada, fruto de um casamento afrocentrado, de dois funcionários públicos, que com muito custo conseguiram comprar o apartamento próprio no bairro do Cabula, um bairro distante do centro da cidade,  lugar que já foi um quilombo, e onde aconteceu em 2015 a chacina que tirou a vida de 12 jovens negros.  Fui uma criança criada por mãe e pai, ambos presentes, e na minha infância transitava entre o Calabar na casa de minha vó Maria- uma senhora que conhecia toda alquimia das plantas e fazia o melhor ensopado de frango já comido- e o Alto das Pombas, na casa do meu avô Lourival, um pedreiro aposentado, que no São João fazia uma fogueira imensa na porta de casa.

Minha mãe certa vez me disse: “Luedji, vc foi criada pra ser alguém grandioso!” Me deram o nome de uma rainha africana e não pouparam esforços para que eu tivesse, autonomia, voz, e ocupasse os espaços de poder tão negados às mulheres negras.

Eu sou esse projeto político,  meu pés me levaram por caminhos não desejados pelos meu pais, mas ainda assim caminham na direção de dar conta desse projeto.

A música tem muita força!

Charô Nunes e Larissa Santiago – O território deixa marcas na alma, nos discursos, nas vivências? E como tudo isso te levou à São Paulo e depois de volta à Bahia?

Luedji Luna – Sim, pensando território tanto do ponto de vista o espaço físico, da geografia, do clima, quanto do ponto de vista social, cultural, ambas as coisas deixam marcas e interferem na nossa subjetividade.

Eu volto à Bahia com o mesmo frenesi que vivo em São Paulo, com ausência de vitamina D no sangue, por conta do cinza, menos tolerante, e com necessidade de respostas e resoluções, São Paulo me fez assim.

Salvador é fluxo, é tempo de maré, é um lugar onde me vejo, que ao contrário de São Paulo, tem muito preto, é lar, é espelho, eu me sinto feliz só em respirar em Salvador, baiano é bairrista mesmo, a melhor gente, o melhor clima, o melhor lugar do mundo é o nosso! Mas eu tenho dificuldade de me relacionar com o tempo e com a dinâmica que a cidade vive, é uma metrópole que trabalha com uma lógica oligárquica, eu não sou filha de ninguém influente, parente de ninguém influente, amiga de ninguém importante, jamais conseguiria a abertura que consegui em São Paulo já no primeiro ano, sem conhecer absolutamente ninguém, eu só precisei ser boa, só precisei ser capaz. Percebo que apesar de racista, São Paulo permite uma mobilidade econômica que Salvador não permite, por isso acho que o racismo na Bahia é ainda mais perverso, isso é muito triste. Acredito que se tenho alguma visibilidade na minha terra, é em função desse trânsito, São Paulo me deu muito apesar do frio, da poluição, da falta de mar e da solidão. É uma terra extremamente generosa!

Charô Nunes e Larissa Santiago – Você tem planos de conhecer outros países?

Luedji Luna – Com certeza absoluta! Eu já tenho tido esses sinais, recebido mensagens de fãs de outros países, seguidores, então circular fora do Brasil é um plano real, e pensar a carreira nesse sentido também. Um Corpo no Mundo no mundo mesmo!

Charô Nunes e Larissa Santiago – Cantora e Militante, como isso se intersecciona na sua vida?

Luedji Luna – Eu faço música!  Se de um lado isso foi uma “escolha” de vida, por outro lado foi a renúncia de um projeto, o que se esperava de mim era que eu fosse juíza, diplomata, ou cientista, nunca artista! E eu tive todas as condições de disputar esses espaços, mas eu não sonhava com isso, e passei anos da minha vida nessa crise, nem estudava o suficiente para ser uma coisa, e nem era outra, foram anos de culpa e negação, afinal de contas, a gente tem querer?   A gente tem direito ao sonho?

Eu escolhi arriscar, mesmo sabendo que era uma escolha que me deixava em uma situação de vulnerabilidade, sendo já um corpo vulnerável. Eu escolhi acreditar no impossível, e me mobilizar pra torná-lo possível, esse sonho tem de dar certo não por mim apenas, porque é minha vontade, porque é meu capricho, mas porque eu coloquei em risco o sonho de muitos, a minha vitória é a vitória de muitos, e minha derrota também, percebe?  Eu não sou militante porque faço parte de uma organização, ou porque agora isso dá visibilidade, nem mesmo porque sou filha de pais militantes, eu milito porque eu me sinto responsável com uma história de luta anterior a minha existência que permitiu a minha própria. Eu me sinto responsável!

Charô Nunes e Larissa Santiago – O que significa ser mulher negra na música brasileira? Quais são as dificuldades e os desafios encontrados por você que são comuns a suas companheiras de profissão?

Luedji Luna – A mulher negra na música brasileira tem visibilidade e reconhecimento se ela for sambista ou cantar o que denomina black music (como se quase toda música não fosse preta). Os principais ícones das MPB, da Bossa, o que se considerada música das elites, são todas brancas, salvo raras exceções como Elza Soares (que também cantou samba). Eu amo o estilo, respeito, a questão é que é preciso recusar essa imposição de indústria que dita o que nós devemos ou não cantar. Alaíde Costa, Arícia Mess, Izzi Gordon, Virgínia Rosa dentro outros nomes que deveriam ser conhecidos e reverenciados tanto quanto Marisa Monte e Elis Regina.

Eu tive uma crise de referência quando decidi que queria ser cantora e compositora, porque não sabia da existência dessas mulheres. Ver a Ellen Oléria ganhando uma premiação em rede nacional bem no início da minha carreira foi um respiro, ver ela vencer reacendeu minha esperança. Hoje vejo muitas cantoras negras com projeção, crescendo cada vez mais na mídia, é bonito de ver a ascensão de Tassia Reis, Carol Conká, a Liniker, corpos negros que me fazem acreditar que é possível.

Tempos melhores estão por vir…Eu tenho fé!

Charô Nunes e Larissa Santiago – Luedji no mundo, qual o desejo dessa mulher negra que acredita na arte como revolução nesse contexto brasileiro?

Luedji Luna – Eu desejo ser! Eu desejo existir! E eu sou isso, um ser humano que canta e escreve. Eu desejo existência plena, sem miséria, sem medo, recebendo o que eu merecer! Eu desejo que outras mulheres negras possam ser também, possam existir, e que se pra garantir essa existência a gente tenha de mudar o mundo, ahhhhhh, então se prepara!

Charô Nunes e Larissa Santiago – Em que fase está o trabalho de Luedji Luna?

Luedji Luna – Eu acabei de lançar a campanha de financiamento coletivo para a gravação do meu primeiro disco.

O projeto intitulado “Um Corpo no Mundo” contará com 10 faixas, a proposta é de um o disco autoral, sendo uma das canções o já lançado single “Um Corpo no Mundo”.

O álbum terá produção de Sebastian Notini, músico sueco radicado na Bahia, também produtor dos dois últimos discos de Tiganá Santana, e o mais recente trabalho da também baiana Virgínia Rodrigues, o premiado “Mama Kalunga”.

O trabalho é uma proposta para se pensar identidade, é um olhar sobre mim mesma a partir do contato, ainda que disperso, com os imigrantes africanos em São Paulo. O projeto se fundamenta na ideia do não pertencimento, do corpo que ocupa o espaço, mas não se identifica, ele nasce da necessidade de conexão com a ancestralidade.

O álbum remete a travessia, o deslocamento, é a partir dessa noção que os arranjos serão pensados. Um disco fluído, com canções que transitam, com referências que transitam, onde nada é estanque. O que se pretende, na verdade, é levar essa sensação do não-lugar.

Um corpo no mundo, o que significa essa expressão para as mulheres negras?

Esse nome nasce, como eu havia dito antes, dessa sensação de não pertencimento próprio dos corpos negros diásporicos, ele nasce com esse sentido, ou seja, se eu não sou daqui, nem de lá da África (e de qual África), eu sou do mundo. Mas também cabe outras interpretações, como a ausência de limites, de barreiras, o grande significado pode ser esse também. O lugar do corpo da mulher negra no mundo é o lugar onde ela queira estar!

E que assim seja! Axé!