O racismo escarra na sua boca enquanto te beija…
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Augusto dos anjos

Nos conhecemos no Happn. Ela me encontrou, eu me interessei de cara, a conversa foi rápida até ela contar que é bissexual tem um namorado e que saiam com outras mulheres. Eu estava interessada? Estava curiosa, nunca havia ficado com uma mulher. Disse que sim, mesmo achando que não ia rolar. Trocamos fotos, depois de algum tempo veio o convite de verdade e nos encontramos. Ainda achava que não ia rolar mas, a gente se gostou e rolou. Os aplicativos estão cheios de casais. Eu fui principalmente por ela, mas me senti envolvida pelos dois.

Rolou naquela noite e mais duas vezes, quando nossas agendas bateram. Me envolvi, fiquei encantada com eles de uma forma que antes nunca havia acontecido comigo. Quando a gente se encontrava e bebia e conversava e transava ouvindo música alta durante toda a madrugada na casa deles eu entrava numa bolha fora da realidade e não queria mais sair, queria sempre voltar. Não havia regras, isso me deixava perdida, mas eu arrisquei porque era uma experiência única, estava divertido.

Mas, lógico que tem um porém, eles brigavam, aconteceu duas vezes. Na última vez que nos encontramos foi muito complicado, houve uma discussão que não acabava, onde eu era espectadora sem saber o que fazer. Na manhã seguinte acabou. Fui embora. De coração partido, mesmo sabendo que o problema não era meu, ao mesmo tempo não entendia o que havia acontecido. A gente se distanciou, eu me distanciei, para me proteger da vontade de ainda estar com eles. Ficou tudo mal resolvido. Depois de um tempo quase superado.

Até que lá nos aplicativos da vida encontrei ela outra vez e, num like por impulso, voltamos a conversar e cometi o maior sincericídio da minha vida e escrevi para os dois como foi pra mim viver essa relação. Tudo que eu senti, que eu sofri, que me magoou o modo como terminou. Me expus sem esperar uma resposta, apenas para tentar digerir finalmente. E a resposta veio em um convite para conversar.

Fui. Mais ou menos um ano depois nos encontramos na mesma praça. Arrastei a metade de mim que estava morrendo de medo e fui. Para esclarecer as coisas, tentar entender o que havia acontecido, ouvir o que eles tinham pra dizer. Eu queria ouvir.

Ouvi pedidos de desculpas, ouvi que eles haviam se entendido, que estavam bem, que o problema nunca foi comigo. Que com outras garotas isso jamais aconteceu, que eles gostavam de mim e que queriam pelo menos ser amigos. Eu não sabia o que falar, aceitei as desculpas e nesse momento passou pela minha cabeça ir embora, já que tudo havia se resolvido. Não fui. Continuamos a beber e nos beijamos, lógico que a atração continuava lá. Mas eu estava insegura. A noite foi ficando estranha, parecia com um ônibus descontrolado indo em direção a um muro e eu não sabia como impedir, as conversas foram ficando ruins, o clima pesou. Achei que tudo bem estar tudo estranho, podíamos falar depois, éramos amigos. Amanheceu e eu estava isolada, sem ideia de como conversar. Ainda estava achando que tudo ia ficar bem, fui embora pensando assim.

No dia seguinte, quando tentei conversar, vi que não. Que nas palavras dele fui “desagradável e cuzona com eles” que “ou eu sou muito burrinha ou curto dar uma de louca” e que por isso eles não tinham mais interesse, perderam o tempo deles comigo. Me deletaram. Fim.

Fiquei desesperada, me achando a pior pessoa do mundo, era como se eu tivesse arquitetado um plano de vingança, me tornei a vilã. Corri atrás, pedi desculpas, pedi pra ser ouvida. Mas ele disse que eu não ia ter outra chance. Engraçado que nunca pensei que estava tendo uma chance, como se fosse minha culpa então tudo que aconteceu antes. Pensei que havíamos nos encontrado para que tudo ficasse bem.

Enfim, por que estou contando esta história?
Porque eu sou negra e se eu não fosse negra nada disso teria acontecido assim. A história não acabaria dessa forma.
Porque durante esse ano meu processo de enegrecimento me deu clareza sobre algumas coisas que antes passavam desapercebidas por mim. Ou, que eu percebia, mas preferia ignorar.

Quando me percebi negra não havia como não questionar ou refletir sobre as minhas relações, ser negra é uma questão dentro das relações, todas elas. No nosso primeiro encontro eles disseram que “sempre quiseram sair com uma mina preta, que sempre ficavam olhando, mas que elas nunca davam bola pra eles”. Isso nunca me fez sentir especial, me fez sentir diferente.

E mais de uma vez o comentário em relação a mim foi a “neguinha peituda de black” e algo como eles “estavam desperdiçando o tempo brigando enquanto estavam comigo”. Não me soou como elogio, jamais. Nunca me senti importante por isso.
Então, durante todo esse ano que passei pensando neles e sofrendo por eles, eu pensava também sobre isso. Ao mesmo tempo que essa relação me fazia muita falta, eu questionava o tempo todo o que eu fui pra eles. Sempre soube que não era a única, que o lance deles era sair com várias “tinderelas”. Porém me perceber como um sabor de pizza doeu. Eu era a pizza sabor neguinha peituda de black do sábado a noite. Não tinha certeza disso, era uma desconfiança, até esse nosso último encontro que validou tudo. Como não transamos, não cumpri o meu papel, por isso eles perderam o tempo deles. Não atendi as expectativas que eles colocaram em mim.

Vimos aquela noite de forma totalmente diferente. Pra eles eu não servia mais.
Eu gostei deles, muito, tinha um carinho muito grande, mas percebi que não queria ser a pizza do sábado a noite. Gosto do sexo casual, contudo me percebi como objeto nessa relação, não havia troca, era eu me dando. Tratada diferente por ser negra. E eu não quero isso. Na realidade foi racismo. Cada elogio dele me soava como fetiche, minha boca, meus cabelos, minha pele.

Naquele momento eu não percebia, porque é sutil, é gentil, mas ficou claro pra mim que era isso mesmo pela forma grosseira e agressiva como eles me descartaram. Penso que feri muito o ego deles, dele principalmente, pela forma como ele me tratou no final, pela raiva e isso só expõe o machismo e o racismo de tudo isso, afinal como eu fiz isso com eles? Como ousei? Eles são tão legais, casal gente boa, desconstruído, descolado, de relacionamento aberto. E na tentativa de me proteger, eles se ofenderam. Nada do que eu disse importou, nem a forma como eu me expus e todas aquelas desculpas deles foram mentira, só valia se eu tivesse transado, se tivesse cumprido o meu papel de sexo do sábado a noite. Porém, eu estava insegura, ainda havia vontade e saudade, só queria entender tudo e talvez fosse a minha intuição me alertando.

Essa relação me serviu pra entender na pele como funciona o machismo, como funciona o racismo. Tenho muitas impressões sobre a relação deles como casal, mas é um problema deles. Falo do que eu vivi, de como me senti. Pra que eu servi? E como mulher negra fica mais clara a servidão, quando não servi pra trepar não havia mais interesse, mesmo que o discurso de algumas horas antes fosse o da amizade, fosse um pedido de desculpas. A questão é que na realidade eles são uma equipe que pode se virar contra mim, são dois contra um e a terceira pessoa está sempre em desvantagem. É um brinquedo na relação do casal. Se você é negra talvez seja pior. Digo isso partindo da minha história. Não posso dizer como eles tratam as outras, como tratam as brancas. Digo que eu fui um objeto que perdeu o valor, descartável. Mas eu não sou uma boneca, eu sinto, eu senti tudo.