O golpe anda a plenos pulmões. Não foi um evento isolado no tempo e no espaço, com consequências aterrorizantes para a população negra, nós sempre à margem da cidadania e da humanidade. Nós que testemunhamos os poucos mas tão importantes direitos que temos serem fortemente  ameaçados.

Nós bem sabemos mas precisamos dizer que somos as mais afetadas pelo desemprego, as que ganham menos, as que sempre estão em situação de vulnerabilidade enfim. Com as reformas da previdência e trabalhista isso se agrava ao ponto do insuportável e só desumano.

Aquelas que por acaso estiverem empregadas vai enfrentar condições de trabalho que já não podemos descrever sem pensar na barbárie. A jornada de trabalho poderá ser paga por hora, tornando ainda mais frágil qualquer vínculo empregatício e por consequência a manutenção de direitos.

É o que aponta o parcelamento das férias, uma tendência que aponta para sua completa extinção. O conceito por trás dessa medida é a ideia de que a vida do ser humano pode ser trocada integralmente por dinheiro, sem considerar que há muito mais na subjetividade de cada uma de nós.

Para nós mulheres negras que somos a carne mais barata de todos os mercados ainda hoje, o efeito disso é que precisaremos para sermos competitivas no ambiente de trabalho estarmos ainda mais disponíveis do que sempre estaremos. Uma afronta a todas nós mas especialmente às trabalhadoras domésticas.

Para nós, mulheres negras da geração nem nem, significa que estão enterradas quaisquer chances que já eram muito poucas de trabalho. Nossas únicas chances agora são os mercados informais, nossos empreendimentos que vão sobrevivendo por conta da necessidade de não morrer de fome.
Nossas chances de voltar a estudar também são ínfimas porque todo esforço será no sentido se conseguir sustento, pagar aluguel.

Para nós mulheres negras que somos vítimas de violência doméstica e estamos sob a dominação financeira e emocional de nossos maridos, as reformas trabalhistas e da previdência trocaram os cadeados que nos prendem em casa. Agora serão mais pesados e maiores, não há perspectivas de que possamos escapar para uma vida segura e digna onde possamos trabalhar, nos aposentar, ter moradia, saúde e segurança.

Para nós mulheres negras mais velhas que não nos aposentamos e estamos ainda no mercado de trabalho, os riscos também são imensos. Mais do que nunca, não há certeza de estabilidade. Podemos ser demitidas a qualquer momento, sob força do racismo, machismo e debilidade dos direitos trabalhistas e previdenciários.

O que temos aqui também é genocídio, encomendado pela mão de homens brancos, racistas, machistas, capitalistas, aqueles que tem o poder sobre a vida de todas nós. Gente que não vê humanidade, identidade. Hoje nós paramos contra esse projeto supremacista que nos quer todas disponíveis como peças, invisíveis ou mortas.

Nós meninas negras, as mulheres negras de amanhã, entraremos no mercado de trabalho sob a foice do genocídio. Querem que a trabalhemos até o fim, sem que nunca possamos nos aposentar. Nossa carne vai ter um preço ainda menor, só haverá duas saídas – aceitar para não morrer ou morrer de lutar a exemplo de nossas avós, mães e mais velhas.

Porém nem todas podem parar amanhã, somos nós mulheres negras que estamos no mercado de trabalho mas em condições tão frágil que não temos sequer direitos que amparem nosso direito à greve. Somos aquelas também que estão fora de qualquer debate e sequer tivemos a oportunidade de entender que as reformas da previdência e trabalhistas vão acabar com as condições básicas mas ainda insuficientes para pensarmos em cidadania.

Assim, nós mulheres pretas paramos contra as reformas. Paramos contra o Racismo que justifica tais medidas, contra toda e qualquer prática institucional que confirma o genocídio do povo preto. Pelas mulheres encarceradas pelo discurso contra as drogas, contra a injusta e racista condenação de Rafael Braga. É por todas e por nós.

Imagem – Huffpost