Sim, eu já fui abusada. E isso não é de forma alguma algo incomum, embora seja sim motivo de tristeza e também combustível para seguirmos na luta contra o sistema machista opressor que vivemos atualmente. Mas esse relato não é para falar de algum dos abusos que sofri por parte de um ex-namorado, ou de algum cara legal com o qual me relacionei, numa noite em que eu bebi demais. Essa informação é só uma porta de abertura para dizer de diferentes tipos de abuso e dos diferentes tipos de abusadores. Sabemos que mulheres também cometem abusos, inclusive com crianças, tenho relatos do tipo ocorridos com pessoas próximas de mim. Mas vamos focar nos abusos cometidos por homens, que são sistêmicos e frutos de uma sociedade que considera a mulher como objeto ou como um ser humano criado para satisfazer as vontades dos homens.

Do meu lado existem mulheres que foram violentamente abusadas na infância por seus pais, tios, irmãos, ou algum homem próximo ao ciclo de convívio delas. Essa violência passa pelo corpo, pelo psíquico e pelas emoções dessas mulheres, ainda hoje. Amparar essas meninas/mulheres, dar colo, acreditar nelas e fazê-las acreditar que a culpa não é delas é minha missão como mulher, como ser humano.

Eu sou uma mulher negra. Além de machismo, assédio e abuso eu lido diariamente com o racismo, assim como todas as mulheres negras. É importante frisar esse lugar de fala porque ele trás dois indicadores.

Primeiro indicador, somos as mais vulneráveis. Num país onde o povo negro foi escravizado, a mulher negra foi também escrava sexual e isso é, ainda hoje, herança da nossa sociedade machista racista. As meninas pretas, tão logo começassem a formar o corpo como mulher, eram vendidas como escravas sexuais. Na minha geração e em algumas gerações próximas a minha, o que acontece com as meninas pretas nas escolas, e nos bairros onde moram é algo parecido. Quando seus corpos começam a se formar como mulher, elas saem da invisibilidade e vão para os holofotes da visão machista racistas de muitos homens. Passamos de invisíveis, ou “macacas” a desejadas, mas apenas para o sexo. Se hoje, assim como as mulheres brancas, estamos desromantizando relações abusivas que sofremos numa noite de muito álcool, ou com um namorado, ou com um cara legal que fez algo no nosso corpo sem a nossa permissão, estamos também desromantizando as nossas primeiras relações afetivas. Aquilo que acreditávamos que poderia ser um namoro, um “primeiro amor” eram em na verdade os primeiros passos para abusos e estupros que viriam a seguir.  

Segundo indicador, sofremos racismo diariamente, estamos acostumadas com a luta e por isso aprendemos a diferenciar as reações diante dos acontecimentos. Sofro racismo, minha mãe sofre, minha avó sofreu e minha bisavó também. E minha bisavó apanhou no tronco e talvez foi estuprada pelo bisavô de uma mulher branca que hoje faz um comentário racista sobre o meu nariz, ou meu cabelo, por exemplo. Só que essa mulher branca é também deveria ser minha parceira de luta contra o machismo, ela é mulher e por isso também sofre nessa sociedade machista. E eu sei disso e tenho que dar conta de combater o racismo dela sem deslegitimar a luta dela contra o machismo. Da mesma forma eu tenho que combater o machismo dos meus familiares e companheiros negros, sem deslegitimar a luta deles contra o racismo.

Ser mulher negra é ser duplamente estigmatizada e também por isso parecemos ser duas vezes mais fortes. Há que se saber o que fazer com tanta força.

Nesse ponto percebemos que aquele que violenta está ao nosso lado, mas está também DO nosso lado. E aqui preciso falar de algo menos óbvio que cor ou sexo. Há mulheres não negras que lutam contra o racismo em suas relações e elas são muito importantes para luta, haja vista que em diversas situações ou lugares elas serão as únicas que poderão ocupar o lugar de fala. Há também homens cis, que lutam contra o machismo nas suas relações, e  eles são importantes porque em diversos momentos não haverá mulheres para ocupar o lugar de fala em situações em que ele estiver. Porém essa mulher não negra e esse homem cis, são ainda opressores dentro da realidade que vivem. Eles erram, e algumas vezes até sem ter total consciência disso. O combate ao racismo e ao machismo passa pela penalização, mas também (e até me arrisco a dizer que principalmente) passa pela educação.

Pessoas que cometem racismo e machismo não são monstros. Algumas dessas pessoas se aproximam sim da monstruosidade mas, nas maioria das vezes, são pessoas comuns, pessoas “de bem”. Isso de transformar um abusador em um monstro não nos ajuda na luta. Ao contrário, faz com que não tenhamos coragem de denucniar e corrigir aqueles que amamos. Faz com que não enxerguemos o potencial machista nos homens próximos de nós. Não adianta criminalizar e penalizar apenas o namorado da outra, o parente da outra, o amigo da outra, vamos olhar para os que estão do nosso lado, vamos cuidar deles, educá-los, reconstruí-los. Dá pra fazer isso amando-os.  Uma mãe ama um filho e isso não pode não orientá-lo. A nós humanos falta integridade. Traímos, mentimos, violentamos, mesmo sendo pessoas boas, mesmo também fazendo várias coisas boas pelo nosso próximo.

Por respeito a vítimas fatais (mortos) por racismo e machismo, por respeito às pessoas que são espancadas e estupradas eu avalio os níveis de abusos e violências que sofremos. Luto no combate dessas violências, todas. Aponto menos o dedo para aquele que está longe, na minha frente ou atrás de mim e trabalho na reconstrução do racista e do machista que está ao meu lado, do meu lado. O desafio é fazer isso sem deixar de me amar. Não me interessa mais sangue, mais violência, mais intolerância. Me interessa a construção, me interessa o amor.

O outro sou eu.

UBUNTU