No mês da consciência, decidi contar um pouco sobre minha infância e história. Refleti sobre tudo que fez da Isabella ser o que ela é hoje e dentre muitas coisas, meus questionamentos.
Dentre as coisas que formaram cada canto do meu ser, uma situação de suma importância foi a minha infância na casa dos meus avós como caçula de muitos primos. As reuniões eram incríveis, super animadas, felizes e cheias de mim. Aquelas festas e reuniões familiares me deram a entender que a minha vida seria toda daquela forma ou daquelas pessoas, mas não foi bem assim.

Desde pequena, tenho um lado comunicativo muito presente e isso ajudou a minha infância ser a mais tranquila possível, começando pela minha escola particular do ensino primário, quando fui escolhida de forma unânime para ser a noiva na época de festa junina. Diziam ” Tinha que ser ela”, ”Ela é muito feliz”, ” A mais animada”, minha mãe lembrava. Eu, naquela época, creio que não tinha ideia do que estava acontecendo, só sabia que tinha um vestido bonito, diferente, e o resto, era o resto, eu ia dançar igual a todos. Mas ali, sem eu perceber, criou uma coisa que eu levo até hoje forte comigo.

Passou.

Fui para o ensino fundamental, continuei a risonha e querida por toda a escola, passando assim, pelo ensino médio, natação, ginástica olímpica, explicadora, faculdade.

Por que eu tô contando isso? Porque eu era aquela que me encaixava na porcentagem de 2% da população negra em todos estes lugares, as vezes, menos.

Na escola primária, eu era a única negra da minha turma, do fundamental e média era uma das pouquíssimas, na natação, não era diferente. Isso nunca me incomodou, pelo contrário, MAS me questionava ”Cadê os meus primos aqui?”, ”Cadê as músicas que escuto em casa aqui?”, ”Cadê as pessoas com o cabelo ‘igual’ o meu aqui?”. Este questionamento, é claro, não veio de imediato, mas conforme fui crescendo via uma coisa que não entendia e que queria entender. Eu procurava por referências no meu cotidiano indiretamente.

Isso me afetou? Não diretamente. Me fez crescer sabendo que as diferenças me serviram como um grande nada – de nada de diferente, porque afinal, eu sempre tive amigos (os melhores por sinal) e nada me fez cair na retração, MAS indiretamente, foi outra história. Construí em mim, uma autoestima baixa, já oriunda da minha própria essência e um grande influenciador para que isso ocorresse era a ausência dos meus primos, das músicas e do meu meu cabelo ali. Nada me fazia acreditar que eu pudesse ser tão bonita como os ‘’outros’’. Não tinha filmes que retratassem a minha vida.

E mesmo que eu não ligasse para a diferença, tinha uma enorme.
Foi percebendo isso que a desconstrução do sempre visto e aceito, deu lugar a minha contínua construção como negra.

Comecei a frequentar, por caminhos da vida, lugares em que negros eram predominantes e me encontrei, literalmente.
‘”Olha os meus primos aqui” – Afirmei e me afirmei.
Foi lindo vê-los com a força que me ensinaram em casa.
Mas por que eu não os via com frequência em meu meio?
Eu parei de tentar entender as desculpas da história. Eu queria poder fazer a minha história sem nenhum tipo de esteriótipo.

Hoje conclui que:

Mais que tudo, eu quero a desconstrução do sempre visto/aceito e não há nenhum problema nisso. A nossa força se torna maior com referências, pois a vontade, muitas vezes, vem do desejo de se tornar algo parecido. Se não as vejo, como vou saber que existem pessoas iguais a mim nos lugares que almejo? É um pensamento natural, é um fortalecimento para o futuro.

• Precisamos tê-los/vê-los.
A nossa força é muito maior que podem imaginar, mas os estereótipos insistem em nos empurrar para trás o tempo todo. Não temos que aceitar o que é mais ou menos ou aceitável para a sociedade. Nós somos muito mais e sabemos que estamos em todos os lugares.

• Por que não nos mostram por aí? – Pergunte para qualquer primo meu.
Isso constrói todo dia a nossa auto-estima e mais que isso, a busca por nossa origem precisa ser respeitada.
Nós queremos mostrar esta desconstrução com amor, pois a diferença imposta pelo ser humano, só pode ser destruída com amor e firmeza.
Primos, enfim, eu desejo a força para sermos referência e inspiração na vida de outro alguém e principalmente de uma criança, para que elas cresçam fortes e sabendo que podem tudo . Inspire alguém. Seja a referência que gostaria de ver quando era menor. Vamos mudar nossa Era. Vai ter negro poderoso e tem negro poderoso por aí, SIM. É hora de busca, resistência e força. É hora de mostrar que estamos em todos os lugares.

• Sou por uma Era com primos estampados!

Imagem de destaque – Arquivo Pessoal