Minha primeira sensação ao ver, pela primeira vez, esta fotografia de Vicenzo Pastore foi de encantamento. Seu olhar afetuoso para o filho e a sensação de aconchego que ela transmite me remeteu, imediatamente, à iconografia mariana, mais especificamente às representações da Virgem Negra, compreendida como a grande mãe, aquela que tem um grande poder de cura e transformação, a consoladora dos aflitos e dos excluídos, que leva conforto e alento para seu povo. Por isso, passei a chamá-la de A madona negra e o menino. Mas também passei a me questionar qual a percepção de outras pessoas sobre essa imagem ontem e hoje.

A imagem, segundo Jacques Rancière, “é a relação entre um todo e as partes, entre uma visibilidade e uma potência de significação e de afeto que lhe é associada, entre as expectativas e aquilo que vem preenchê-las”. Assim, uma imagem fotográfica, que possui significados intrínsecos ao seu contexto original, pode gerar significados outros em tempos/espaços distintos ao que foi produzida. A partir desta noção podemos nos perguntar: quais os usos da imagem dessa mulher negra segurando uma criança em seus braços? Como o modo de ser dessa imagem se relaciona com a maneira de ser dos indivíduos e das coletividades? Porém, antes de tentar responder a estas perguntas é preciso contextualizar a imagem.

O retrato, do já citado Vicenzo Pastore, é uma foto posada, de 1910, feita em seu estúdio fotográfico na cidade de São Paulo. O fotógrafo italiano é conhecido por suas crônicas visuais da cidade paulista. Seu olhar evidenciou o cotidiano de pessoas simples do povo, como por exemplo crianças brincando na rua e mulheres conversando. Também registrou trabalhadores de rua, entre eles engraxate, vassoureiro, jornaleiros, feirantes.

Mas Vicenzo também produziu carte de visite(cartão de visita), técnica que popularizou a fotografia em meados do oitocentos. Ao longo da segunda metade do século XIX, esses cartões foram usados como registro etnográfico dos tipos e costumes de países das Américas e da África. Eram vendidos como suvenir para colecionadores, principalmente para estrangeiros. O carte-de-visite sobre a mulher negra com seu filho, por exemplo, foi um presente de Pastore ao Rei da Itália.

Desta forma a fotografia acabou cumprindo um papel de multiplicadora das visões preconceituosas e racistas. Criou-se uma estética do exótico, pautada em uma “poética iluminista do pitoresco”, uma cultura visual sobre o Outro, sobre aquilo que era estranho ao modelo e aos costumes eurocêntricos. No caso do Brasil, padrões de representação do escravo já sintetizados anos antes na obra de artistas viajantes como Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e Johann Moritz Rugendas (1802-1858).

O retrato trás uma mulher negra, posicionada ao centro da imagem, com uma criança, também negra, no colo. Em torno deles uma paisagem bucólica, remetendo à zona rural. Ambos vestem trajes muito simples e bastante surrados. Mãe e filho estão descalços, signo que revela a condição de escravizado dos personagens, uma vez que durante a escravidão era proibido aos cativos o uso de calçados.

Outro aspecto iconográfico a ser considerado na construção da cena escravista é o fato de o fotógrafo subverter a tradicional e emblemática representação sobre a mulher negra escravizada oitocentista: a da ama de leite, ou mãe negra, com o filho da senhora. Vicenzo coloca na cena o filho biológico da mulher retratada, como que reivindicando seu direito aos cuidados e ao aleitamento materno. A expressão suavizada no rosto da mulher, seu olhar fraterno para o filho humaniza a personagem. Este tipo de alegoria não era comum em cartes de visite com a temática do escravizado, fator que, paradoxalmente, evidencia a sensibilidade do olhar do fotógrafo. Não fosse isso o retrato seria só mais um carte de visite destinado a satisfazer a curiosidade da civilização europeia. Só que não.

O problema é que a fotografia é de 1910, isto é, pós abolição da escravatura. Pastore manipula a imagem do negro liberto, explorando-a comercialmente. Coisifica mãe e filho para o deleite do olhar estrangeiro. Os códigos visuais presentes na composição acabam mobilizando o imaginário coletivo de modo a reiterar e perpetuar no tempo ideologias racistas como, por exemplo, a ideia de inferioridade, de subserviência e a imagem reificada do povo negro, vistos por aqueles como tipos esvaziados de identidade.

Tendo em vista a afirmação de Racière de que as imagens são “operações que vinculam e desvinculam o visível e sua significação, ou a palavra e seu efeito, que produzem e frustram expectativas” proponho a re-significação do modo de ser da fotografia de Vicenzo Pastore, assim como de toda a estética do exótico que envolve representações sobre o negro. Proponho a construção de novos códigos visuais, como os por mim estabelecidos no início do texto, para a representação imagética do povo negro. Acredito que desta forma, gradualmente, seja possível desconstruir visões preconceituosas e estereótipos racistas historicamente construídos e, ao mesmo tempo, resgatar a autoestima do povo negro contribuindo, assim, para o fortalecimento da sua identidade.

 

Referências Bibliográficas:

BELTRAMIM, Fabiana Marcelli S. Entre o estúdio e a rua: A trajetória de Vicenzo Patore, fotografo do cotidiano. Tese de doutorado, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas/USP. São Paulo:2015.

HIRSZMAN, Maria Lafayette Aureliano. Enre o typo e o sujeito: os retratos de escravos de Christiano Jr. Dissertação de Mestrado. ECA – USP, 2011.

RANCIÉRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: EXO experimental, 2005.

Imagem destacada:  Fotografia de Vicenzo Pastore, 1910.