No dia 17 de maio, a Instituição Evangélica de Novo Hamburgo – RS – promoveu uma atividade entre os alunos do Ensino Médio chamada “Se nada der certo”. Conforme as fotos divulgadas pelo site Bombô, os alunos se fantasiaram das mais diversas profissões: gari, empregada doméstica, frentista, ambulante, entregador de jornal, caixa de supermercado.

A IEHN divulgou nota tentando justificar a atividade como “um momento de integração e descontração” que ”em momento algum teve a intenção de discriminar determinadas profissões”. A instituição ainda tentou reinterpretar o nome da atividade, dizendo que ele fazia referência à não-aprovação no vestibular, e não a “não dar certo na vida”.

Vamos lá, gente, não existe malabarismo semântico que ressignifique um “se nada der certo”: nada significa nada! Esse nada aí é o tudo que se tentou e não se logrou êxito. No caso, a tentativa refere-se, claro, à não aprovação no vestibular, e a atividade entre os alunos da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo, por consequência, ilustrou através deles qual seria a saída – extremamente improvável, convenhamos – daqueles que falhassem na aprovação.

Alguém seriamente acredita na hipótese de que algum daqueles jovens da elite nova-hamburguense não passe em algum vestibular e/ou não ingresse em alguma instituição de ensino superior? Essas crianças são treinadas para encabeçar as listas de aprovação dos vestibulares do Brasil todo, são treinadas para passar em mais de uma Universidade, são treinadas para terem a opção de escolherem entre uma instituição pública e uma instituição privada.

Esse “momento de integração e descontração” foi um deboche da jovem classe média branca de Nova Hamburgo aos 25,9% de jovens desempregados no Brasil – que vão buscar em subempregos e trabalhos informais, uma saída para o desemprego e para a satisfação de necessidades básicas.

Nenhum daqueles jovens se imagina faxineiro, empregada doméstica, ambulante, caixa de supermercado, gari, frentista, entregador de jornal. Mais do que isso, nenhum deles ASPIRAM a qualquer uma dessas ocupações – que só seriam viáveis caso “nada desse certo”. Eles estudam para e almejam serem médicos, engenheiros, arquitetos, jornalistas… isso se não herdarem a empresa do papai, aí qualquer diploma resolve.

Tudo isso torna o fantasiar mais cruel e escarnecedor, uma vez que as realidades emuladas estão longe de suas perspectivas para o futuro: foi o deboche pelo deboche.

A esse ponto é obvio dizer que a atividade “que em momento algum”número teve a intenção de discriminar determinadas profissões “ além de tudo é racista.

Isso porque as profissões e atividades que serviram de fantasias são, em sua maioria, exercidas por pessoas negras – população, por questões históricas, com problemas de inserção no mercado de trabalho. Acontece que a falta de qualificação profissional de nossa população negra é uma das causas da procura por empregos informais. E mesmo quando inseridos nesse mercado formal, estatisticamente ainda ganhamos menos que pessoas brancas.

Além disso, salários baixos, poucas garantias e proteção para o empregado são alguns dos fatores que fazem desse tipo de trabalho algo bem distante do objetivo profissional de qualquer pessoa.

Ainda que essas atividades todas sejam dignas – e são! – não é à toa que são tratadas como subempregos: fora as garantias (já citadas) quase sempre nulas, essas são profissões exercidas por quem não tem certo nível de escolaridade e não pode escolher entre trabalho ou terminar os estudos. E adivinhem entre qual população a taxa de analfabetismo é maior? Pois é!

Fora todas essas questões sociais, o sistema de vestibular em si já é uma coisa cruel. Elitista, classista e segregador, as provas de acesso ao ensino superior provam que o número de alunos que ocupam as vagas – mas concorridas ou não – oriundos de escolas particulares é superior ao número de alunos que vêm de escolas públicas. Ainda que o sistema de cotas venha para reparar aquilo que nos foi, historicamente, negado, mexer na educação de base é imperativo para que os jovens de escola pública partam mais ou menos do mesmo lugar, e para que esse sistema de seleção se torne menos injusto.

Enquanto isso não acontece, o rendimento escolar continua sendo termômetro de competência para acesso ao ensino superior e, consequentemente, ao mercado de trabalho.

Ora, voltando à famigerada atividade, a lógica é simples: aqueles que não foram aprovados no vestibular (fantasias a quem se fazia referência – segundo a nota da IENH), não o foram por falta de competência, logo – como nada deu certo, como os anos de estudos não ajudaram a atingir o objetivo que era passar no vestibular e, consequentemente, arrumar um bom emprego – agora eles terão de trabalhar num subemprego: no caso, representado pelas fantasias dos alunos.

Ou seja, se a população negra é a que menos tem acesso à educação, se é a menos alfabetizada, se – assim – é a que menos tem acesso ao ensino superior, qual é a cor daquela empregada doméstica que a formanda branquinha representa? Qual é a raça do gari e do faxineiro dos quais os vestibulandos branquinhos se fantasiaram? De onde vem aquele vendedor de água e refrigerante que o aluno do 3º ano imitou? Qual é a cor desses “sem-diploma” para quem nada deu certo? Me espanta muito não ter rolada um blackface.

Por mais que esses jovens se tornem médicos, veterinários, dentistas, engenheiros; por mais que eles deem certo na vida, seu projeto de humanização já deu errado.

Imagem – reprodução facebook