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Finalmente consegui terminar de assistir “Cara Gente Branca” ou “Dear White People”, uma série inspirada em um filme homônimo, que narra conflitos raciais em uma universidade de ponta nos EUA no que eles chamam de era “pós-racial”.

Antes de começar a tecer infindáveis comentários sobre os conflitos da série, preciso dizer que ela NÃO É SOBRE PESSOAS BRANCAS!

Isso mesmo, queridas pessoas brancas que, por ventura, estejam se dando ao trabalho de ler esse texto! Várias de vocês apareceram na minha time line em algumas redes sociais postulando que a branquitude deveria assistir essa série, porque ela dialoga diretamente com pessoas brancas e as conclama a rever seus comportamentos e blabs, blabs, blabs… papo furado. Claro que deveriam assistir. Mas vocês não são o elo central dessa história.

Que vocês não seriam capazes de compreender algumas das sutis nuances das tensões raciais no espaço universitário, todo mundo já sabia. Mas confesso que me surpreendi com a capacidade que vocês têm de nunca se responsabilizar. A branquitude não é um ente despersonalizado que anda por aí, destemida e invisível, cometendo racismo. Vocês são a branquitude.

A branquitude habita os seus corpos. Por favor: ACORDEM!

Dito isto, é imprescindível contextualizar o momento específico em que se passa a série. Uma universidade (fictícia) que compõem a chamada Ivy League, um grupo restrito de universidades particulares de ponta, em cujo campus existe um alojamento exclusivo para alunos negros, além de ser presidida por um reitor negro e ter um presidente estudantil também negro – que por acaso é filho do reitor.

O interessante é que a série é extremamente contemporânea; não só em sua linguagem, como nas referências de cultura negra e na retratação do momento político mais recente. Os alunos negros visitam conflitos raciais numa sociedade que se intitula pós-racial, por acreditar que a eleição de um presidente negro – Barack Obama – tivesse, por si só, o condão de acabar com as práticas racistas.

O primeiro aspecto que precisa ser enfatizado é que a série não trata classe como uma questão central naquele espaço. Classe aparece como um fator acessório dentro de um espaço elitizado que reflete uma realidade específica das universidades e das comunidades negras estadunidenses. Apesar disso, são inúmeros os momentos em que consegui estabelecer conexões e paralelos evidentes sobre as comunidades negras que compõem o meu ambiente universitário pessoal: Universidade de Brasília, 13 anos após a adoção de cotas raciais e 3 anos após a sua revisão.

O que me faz brilhar os olhos e digitar com uma velocidade que desafia as conexões sinápticas do meu cérebro é a pluralidade de grupos e representações que temos em tela. É reconfortante me enxergar de múltiplas maneiras e em múltiplas personagens numa série cuja temática são as tensões raciais no ambiente universitário. Principalmente quando a trama se constrói em torno de duas mulheres e um personagem gay – fato que, inclusive, reflete as movimentações mais recentes de estudantes negros na UnB.

Sam e Coco são as duas garotas negras que movimentam os conflitos da série e que geram as maiores reflexões. Duas mulheres negras, Sam de pele clara e Coco de pele retinta, cujas marcas da coloração de suas respectivas peles orientam o caminho que ambas vão tomar para driblar as amarras raciais.

Enquanto Sam desenvolve um perfil militante, Coco está focada em suas estratégias de sobrevivência pessoal, na esteira daquilo que  Neusa Santos, em “Tornar-se Negro”, identifica como um processo no qual o reconhecimento de sua negritude, naquele espaço de performances raciais restritas, a leva a uma negação de sua identidade.

No entanto essa é uma ideia complexa. Só trabalhamos com a noção de negação de uma identidade quando trabalhamos, também, com um conceito daquilo que pensamos ser “identidade”!  Não existe uma obrigação ou um contrato que estabeleça um modus operandi que dite o comportamento de pessoas negras ‘conectadas a sua identidade’. Não somos obrigadas a adotar uma postura militante para que estejamos alertas e achemos saídas ao racismo.

Coco, ainda como a única personagem cuja experiência de classe é mencionada, evidencia que sua escolha é pela sobrevivência. E isso não a torna menos valiosa ou consciente. Na narrativa que a constitui enquanto personagem, a consciência racial é colocada como um moeda de troca, sempre barganhada com violência. O cabelo é o primeiro símbolo de ruptura e acepção de uma prática política de sobrevivência. Como o é para toda mulher negra, o cabelo se impõe enquanto uma bandeira que define como queremos ser enxergadas e como lidamos com  a nossa auto imagem. Mas não se iluda. Alisar os cabelos não torna nenhuma mulher menos negra ou consciente dos processos raciais aos quais está submetida. Isso é o que ocorre com Coco: seu cabelo liso é uma ponte para que ela seja aceita como mulher, conquanto o que ela busca é legitimidade numa sociedade em que mulheres negras são a base da pirâmide.

Aqui se estabelece o conflito que as coloca em caminhos opostos. Talvez Sam esteja mais próxima da minha experiência pessoal. Existe uma responsabilidade coletiva, mas principalmente interiorizada quanto ao que ela enxerga como correto enquanto papel na militância. Daí o seu relacionamento interracial ser pautado como uma causa coletiva mas também gerar tanto peso pessoal a ponto de confundí-la. Quando ela se questiona e conjectura que talvez a sua vida política não permita que ela se relacione afetivamente com ninguém, ela está sucumbindo à agenda racista.

Ora, que tipo de existência é essa na qual pessoas negras não conseguem construir afetos sob nenhuma ótica? Conceber que a única pessoa a quem ela disse amar é justamente um homem branco, nosso opositor natural, figura ímpar na manutenção de práticas racistas é, no mínimo, paradigmático. Para piorar, no meio dos conflitos raciais nos quais ela está politicamente envolvida, Gabe – o namorado branco – não tem sensibilidade para compreender como esse conflito adoece pessoas negras e mitiga as formas com que concebemos e expressamos afeto. Ele é a caricatura do bom branco. Do aliado ideal, cujos amigos estão abertos e debatem racismo com um mínimo de coerência, a  ponto de nos fazer sentir abertos e confortáveis. No entanto, a maneira como Gabe fantasia sobre como Reggie e Sam se envolvem, reproduzindo caricaturas patéticas da militância, ou seu incômodo sobre a forma como é tratado após chamar a polícia só evidencia que PESSOAS BRANCAS PRECISAM SER SEMPRE O CENTRO.

Pessoalmente, não acredito mais que pessoas brancas possam ser nossas aliadas. Alianças são construídas a partir de interesses compartilhados por interlocutores ‘iguais’. O máximo que podemos esperar de pessoas brancas é que elas sejam nossas apoiadoras locais e momentâneas.

É muito doloroso construir uma narrativa de enfrentamento antirracista que deixe de fora o afeto como estrutura fundante da saúde mental de pessoas negras. A cena na qual Sam começa a assimilar que deve desculpas a Gabe é um atestado à maneira como afeto é o nosso maior articulador político e também nosso maior gatilho.

O afeto, então, torna-se o ente principal da narrativa dessas mulheres, como o é para todas nós. Já a epifania de Coco surge da sua percepção de que não necessita de ninguém mais, além de si mesma, para alcançar os locais de sua ambição. É extremamente empoderadora a compreensão de que bastamos enquanto indivíduos. É nesse ínterim que, paralelamente, Sam se perde: na vivência de um afeto que cobra de suas convicções políticas.

Finalmente, quando discutimos as personagens femininas da série, Joelle surge como uma coadjuvante que paira sobre a narrativa. Também uma personagem de pele escura, ela perpassa os episódios à sombra da movimentação de Sam. Tanto o é, que ela não possui um episódio dedicado a explorar sua narrativa, apesar de estar no centro da tensão afetiva que se estabelece entre Sam e Reggie. É muito significativa a cena na qual Reggie condena Sam por seu relacionamento interracial e afirma que se relacionará com as mais escura das mulheres e terá os filhos mais retintos. Além de vazia, essa fala é extremamente violenta, conquanto Joelle sente afeto por ele, é uma mulher de pele escura, e mesmo nesse momento ela não é vista como uma potencial receptora de afeto por Reggie.

Aqui entra o instituto da “palmitagem”. Foram muitas as mulheres com as quais eu conversei e que identificam que o colorismo se estabelece como uma tensão entre Joelle e Sam, quando há uma disputa afetiva não-colocada em relação a Reggie. Joelle, ao aconselhar Gabe a não contar aos demais sobre seu envolvimento no incidente com a polícia no campus, o faz com receio que de isso aproxime Sam e Reggie, colocando-a, novamente,  à margem desse pseudo-relacionamento. De fato, é isso que ocorre. Sigo intrigada com a construção da personagem, esperando que ela se desenvolva numa segunda temporada. É violento observar que a narrativa de Joelle se resume a orbitar, no campo político e afetivo, entre Sam e Reggie.

E assim sigo refletindo sobre como a pluralidade de narrativas e corpos negros nessa série nos permite compreender que cor da pele, política e gênero são, sim, distratores poderosos à essa nova leva de negras e negros que têm tomado as universidades.