**Se você não assistiu ao filme recomendo não leia esse texto porque contém spoilers

 

Ao som de Redbone de Childish Gambino o filme Get Out (Corra! Em português) do diretor Jordan Peele desenlaça a sua segunda cena, contrastando diretamente com a primeira, enigmática e perturbadora que apresenta um sequestro de um homem negro que andava sozinho por um bairro nobre do subúrbio americano. A segunda cena traz um tom leve, de deboche talvez, porque Redbone apresenta na letra a frase “Stay woke” fique acordado, ou acorde para o que está acontecendo, frase que é usada muito dentro do movimento negro americano para definir aqueles que estão cientes da sua opressão e lutam contra ela: é necessário estar em alerta a todo instante. É dado nesse primeiro momento uma relação Inter-Racial entre Chris e Rose um casal americano que se prepara para uma viagem, justamente para o subúrbio, onde Chris irá conhecer a família branca e bem sucedida da namorada. Antecipadamente Chris, com receio, faz uma pergunta “eles sabem que eu sou negro?” pressentindo que talvez esse seja um impedimento para a relação. Rose acaba com os receios de Chris facilmente, ele esquece a problemática e a viagem se inicia. Assim se desenrola um filme carregado de simbolismos sobre as tensões raciais americanas, relações que por um lado podem muito bem ter a ver com o modo que o racismo brasileiro funciona principalmente a partir da política da miscigenação, fórmula velha de apagamento da negritude.


Existe um simbolismo que aparece na trama desde o inicio que representa na minha leitura a animalização do negro, ele surge justamente através da figura do cervo que Chris e Rose atropelam na estrada antes de chegar na casa da família Armitage. O cervo morre na estrada e Chris parece ser o único a se importar com isso, ao chegar na casa dos Armitage o pai diz que odeia cervos, que eles são desnecessários, logo após observamos que há uma cabeça de cervo como prêmio pendurada na parede. O animal que é atropelado no caminho para a família branca é a representação do negro como caça, um animal que pode ser usado e descartado e também exposto como troféu (no fim do filme  Chris mata o pai da família com a cabeça do animal que estava na parede o que pode ser percebido como uma vitória da caça sobre o caçador). Mais importante que tudo isso, o plano de fundo dessa imagem do cervo está sobre a analogia que decai na dualidade que carrega a apropriação cultural: o branco quer ser negro, mas só por um lado. Para conseguir ser o negro a branquitude constrói no seu imaginário racista uma imagem do negro que é animalesca e caricata. O branco coisifica essa existência, literalmente, assim o negro acaba sendo só um corpo, uma força, uma fantasia que tem uso/desuso e descarte. 

O “Sunken Place” o buraco negro que Chris cai quando é hipnotizado pela mãe de Rose pode representar uma crença velha que existia durante a época da escravidão: “o negro não tem alma”, crença usada pela Igreja Católica para justificar os crimes contra a população negra por mais de duzentos anos de escravidão. O buraco vai, literalmente, afundar o negro para um lugar de inexistência, onde ele é coadjuvante da sua própria vida, apagado até que se torne apenas um corpo. Mesmo assim quando Chris cai nesse buraco existe (resiste) um fragmento dele que não morre, por isso os personagens negros já lobotomizados acordam com o flash da câmera, mesmo com a lobotomia não é possível apagar a alma por completo, existe um resquício de vida que não pode ser apagado pelo branco, nem pelo racismo. Também podemos fazer a relação que todos nós negros estamos no “sunken place”, como já falou o diretor Jordan Peel: “O “Sunken Place” significa que nós vivemos tão marginalizados que não importa o quanto gritamos o sistema racista ainda nos silencia.”



Já sobre a relação Inter-Racial central no filme, muitas leituras podem ser feitas principalmente quando pensamos na questão que discutimos bastante dentro do movimento Feminista Negro: “não é sobre amor, mas sobre falta de amor.” Inclusive existe um texto de Larissa Santiago que descreve essa problemática muito bem (http://blogueirasnegras.org/2013/05/10/relacoes-inter-raciais-isso-nao-e-sobre-amor-2/ ). As relações Inter-Raciais carregam muitos resquícios de uma cultura racista que ensina o homem negro a pensar que a mulher branca é “melhor” porque a afetividade entre negros não é tão encorajada e reforçada como ideal tanto quanto a de pessoas brancas. No nível psicológico da questão podemos perceber a negação do personagem principal em se conectar com a história da mãe e da culpa que ele sentia (na história ele não percebeu que a mãe havia desaparecido e por isso acredita que “deixou” ela morrer na estrada), isso se relaciona diretamente com quem ele escolhe pra ter um relacionamento. Já que se relacionar com a mulher branca foi a negação real desse contato com a mãe que ele abafou e escondeu por tanto tempo. Um dia desses li uma frase pelo Instagram que dizia: “os homens negros não amam as mulheres negras porque nunca viram um homem negro amar a sua mãe” é um papo sobre solidão e abandono, já que a figura do pai também não existe nesse filme. Acredito na leitura psicanalítica de que as primeiras relações da infância moldam como vão ser as relações futuras afetivas e a ordem com que vamos escolher xs parceirxs e Chris não fugiu dessa lógica, ele abandonou essa mãe duplamente por escolher uma mulher que era exatamente o oposto dessa figura materna. (tudo isso em uma ordem simbólica)

Uma cena que representa em parte essa questão é quando Chris conta a história de como perdeu a mãe, primeiro para a mãe de Rose e depois para a própria Rose, ele coloca pra fora tudo que aconteceu deslocando a dor do lugar escondido que guardava há muito tempo.  Primeiro, hipnotizado, porque é forçado a abrir esse lugar frágil e entregar sua história ele cai no buraco, mas  depois, na cena com Rose ele escolhe contar a história e acorda simbolicamente, acorda pra perceber realmente que aquele lugar é uma emboscada. Ele escolheu se conectar com a história e perceber que ela fazia parte dele querendo ou não.




A analogia principal de Get Out já é dita no título: Vá embora, saia, corra! Não confie na branquitude, não confie nas formas minuciosas que ela usa para prender e destruir tudo que é negro, tudo que é identitário e cultural da negritude. O melhor amigo de Chris, (Rod), é apresentado no filme como o negro desperto, aquele que coloca a dúvida em pauta constantemente quando se trata da branquitude salvadora. Ele contesta em todas as cenas que aparece no filme essa confiança que Chris coloca sobre a branquitude: “depois da escravidão e de tudo que eles fizeram você vai acreditar no branco bonzinho?” ele é o alerta em diversos sentidos. Nem todos os brancos são inimigos, mas existe um sistema que alimenta a opressão racista ao qual eles se beneficiam, TODOS sem nenhuma exceção. E para existir esse benefício existe em consequência aqueles que recebem o outro lado da moeda, os negros. Vai dizer que isso não é assustador?

Get Out é um filme que provoca arrepios porque (advinha só) o racismo dá medo. Ele aniquila e destrói vivencias pretas a todo instante e o diretor Jordan Peele brilhantemente nos mostra essa face da questão. Tão nitidamente que percebemos partes da nossa própria cegueira, do Chris que vive dentro de todos nós. Fica para nós negros apenas a pergunta mais perturbadora de todas: qual parte da branquitude ainda te aprisiona e te leva para o “Sunken Place”?