Sou uma mulher negra, nascida na periferia de Santo André, São Paulo, se alguém me perguntasse como cheguei ao Doutoramento fora do país teria clareza em dizer que RESISTI e ainda o faço, fui contrariando todas as estatísticas que são legitimamente comprovadas no Brasil e ao mesmo tempo, impondo a mim possibilidades de sonhar e de acreditar na própria capacidade de não ser o NADA que foi inculcado socialmente e desde a infância. Segui o caminho da negação da negação de todas as violências transpassadas aos moradores da periferia paulistana que vivenciam diariamente uma guerra interposta pela existência, sobrevivência, o trabalho ou o crime como possibilidade de ascensão rápida e a morte como dado eminente.

Morando em Portugal me deparo diariamente com frases do tipo “tu em alguns países da África serias considerada branca”, “ah tu não és tão negra assim”, “tu és cabrita, – SIM, porque cá no mundo ‘desenvolvido’, como dizem, ainda fazem uso dos termos que atribuem caracterização de animais de forma pejorativa da expressão, como o conhecido ‘mulata’, já em desuso no Brasil, relacionada às mulheres resultados de relações inter-raciais, como é o meu caso. Relações estas que partiam da tese branqueamento social histórico brasileiro que bem conhecemos desde Oliveira Viana e Gobineau ou produto do estupro das mulheres negras escravas, quando da ocupação e saqueio português as nossas terras. Como afirmou Darcy Ribeiro somos “ninguendade” uma mistura de negras africanas, que eram dadas como presentes seus senhores, indígenas também escravas e europeus (…) todos filhos de ninguém. E dessa ‘ninguendade’ nasceu um novo povo único sem precedentes no mundo” permanentemente a procura de uma identidade que nos foi e é retirada o tempo todo.

Desde a nossa expropriação somos nada, qualquer coisa mundo, nos tratam como se pudessem referir-se a nós de qualquer modo, portanto, podemos ser comparadas às brasileiras desejáveis, a objetificada, até o extremo da comparação com logotipos de marca de chocolate (Conguito) (1) crianças congolesas, afinal eles “são tão fofinhos” porque será que eu não gosto de ser  chamada de “conguito”?  

Este texto daria uma segunda tese afinal, após três anos, tentando deliberadamente estudar fartei-me de ouvir os comentários que soam como tentativa de me embranquecer ou me excluir, como se já não ocupasse mais o lugar social atribuído as negras, afinal ter um doutorado ou ter ‘estudo’ me assujeita do que sou. Por conseguinte, “para nós tu és branca” foi a última que ouvi nesta semana, finalmente em silêncio sou aceita, se não quiser enegrecer o debate sou aceita, eu existo cá, desde que seja omissa a luta na qual sou personagem e protagonista.

O fato é que meu silêncio grita, afinal, eu só quero estudar e escrevo este texto como um chamado à reflexão, discutir racismo é o mínimo que podemos fazer em uma sociedade agudizada pela desigualdade, onde a mulher negra configura a base desta pirâmide no Brasil ou em Portugal.

Portanto, NÃO! NÃO SOU BRANCA, NUNCA SEREI!! Tampouco fui ofertada com o que vocês chamam de “bronzeamento natural”. Sou sim uma mulher negra, minhas condições raciais e sociais classistas são concretas e estruturais e ao ocupar um espaço em que sou a única, ou que somos poucas, não me envergonho de o fazer.  Trago comigo um estatuto de quem conhece a condição das mulheres negras no mundo e sabe da responsabilidade e da luta para estar ali enquanto muitas outras ficaram, se calhar morreram no caminho, porque o RACISMO MATA literalmente e socialmente também e escrever para nós é um escape deste diálogo entre surdos encarados diariamente.

Colocar o debate em perspectiva é mais uma vez mostrar que não nos calaremos, por mais que tentem romancear o embranquecimento realizado no Brasil da miscigenação, ainda que afirmem que em Portugal não há racismo, sem qualquer senso que revele onde estão os negros neste país. Sair do senso comum é também abrir um canal de diálogo e expor os conflitos que possivelmente não querem ver, pleno ou tardio o racismo é uma questão estrutural e uma forma de dominação. Admitir não saber de determinados assuntos é um primeiro passo para começarmos a olhar e desvendar a realidade, é difícil chegar a sua essência, somos confundidos e os jogos dos pensamentos dominantes nos turvam sob o espectro de uma aceitação que nunca acontece plenamente e não aceitaremos acordos feitos implicitamente, quando os nossos continuam a morrer pelo mundo.

(1) Ver mais informações acerca da polêmica com a marca de chocolate <http://www.lne.es/aviles/2017/01/20/gales-racismo-conguitos/2044456.html>

Imagem destacada – Twitter, Africa is my home