A escravização de corpos negros aqui começou em meados de 1500.
1531 aportaram aqui nessa terra Brasilis os primeiros navios negreiros. Deste antes, o sangue já escorria nas Américas. Mas uma coisa que ninguém tinha como prever na história da humanidade é que no mundo moderno um regime tão intrinsecamente estuprador e desumano duraria três séculos. Falaram que terminou em 1888, mas quem pesquisa mesmo que pouco sabe que um papel não finda velhas práticas em um dia. Ou ano. Ele deixa marcas. Fundadas na pele a ferro quente.

E foram três séculos.

O governo nazista assassinou milhões e durou 13 anos.

Três séculos.

O sistema escravista da Grécia antiga, o mais antigo que fazemos referência pra falar de escravismo moderno, permitia ao escravo o direito da individualidade. Tinha tempo limitado e prévia ao escravizado destruição de sua autonomia individual conforme terminasse o período de trabalho compulsório.

Três séculos.

Os sistemas de escravidão não-europeus são tão análogos a escravidão europeia em termos de funcionamento quanto cavalos marinhos são análogos a cavalos.

Três séculos.

E eis que, 129 anos depois do tal dia que assinaram uma certa carta que dizem que trouxe liberdade ao país, cá estamos. E mesmo que saibamos que 350 é muito mais que o dobro de tempo, ainda fingimos que é muito pouco, que é muito longe, que não é aqui, que não é sobre nós.

Eu vou falar de novo porque acho que ainda não ficou muito óbvio,

Três séculos.

Talvez o problema é que nesse meio tempo tudo tenha ficado muito ‘claro’.

E as pessoas, esclarecidas, começaram a se sentir muito certas de coisas que não fazem muito bem a dimensão do que estão falando. Pois bem, vou fazer como a tia Má sugere, e tirar o sapatinho um pouco pra colocar o pé no chão firme. Eu vou falar de coisas que a gente não tá escurecendo o suficiente, vendo todas as camadas de cores e dores que tem.

É triste ver como três séculos não foram tão eficazes na memória quanto 129 anos. Bem, indignações na mesa, vamos lá.

A pessoa mais velha do mundo registrada atualmente é um indonésio de 145 anos. O “fim” da escravidão no Brasil é mais novo que uma pessoa que ainda vive.

Cerca de 4 milhões de africanos foram trazidos (ao Brasil, não é América toda não viu?) ao longo do período escravista. Isso contando os registrados. Isso sem contar os escravizados nascidos aqui. Isso sem dimensionar fielmente os dois continentes estuprados. América e África ainda sangram.

O café que tomamos todo dia foi implantado com mão de obra escrava.

Com uma conversa de 30 minutos com os parentes mais velhos da minha família consigo chegar ao nome do último da linhagem a ser escravizado. Ano de nascimento: 1873. O indonésio que falei ali atrás nasceu em 1870.

É fresco assim, real o suficiente pra não ser só novela de época da globo. É tão acessível quanto uma conversa de trinta minutos com qualquer pessoa preta mais velha com boa memória. Tá logo ali atrás.

Continuemos.

A televisão chegou aos lares americanos em 1947.

Os primeiros antibióticos, 1928.

Cê acha que vacina é antiga, é mais nova que gente preta sendo acorrentada.

A invenção do plástico foi no final de 1888.

Olhando por outro lado:

Fotografias começaram a ser tiradas em 1860. Tirar ‘selfies’ é mais antigo que corpos pretos legalmente livres no Brasil. Isso é o quanto foi recente. Isso é quanto foi aqui.

Yzalu fala (e me arrepia) o que a gente quer fingir que não vê:
“Nossos traços faciais são como letras de um documento, que mantém vivo o maior crime de todos os tempos”.

Tá aqui, ao alcance da vista. Tão real quanto os tons de pele. É carne, é sangue, é coisa viva que pulsa e retumba igual tambor na gente.

É um tempo em que se destituiam pessoas de sua condição de gente, é um tempo em que se faziam de corpos, mente e alma, objetos. Não eram jornadas de 12 horas de trabalho, não eram 35 anos de trabalho remunerado (ainda que mal) até a aposentadoria. Foram existências inteiras, do nascimento à morte. Foram vidas. E foram-se vidas. Milhares delas. Três séculos.
As palavras têm peso, elas têm memória. Elas têm a sua própria bagagem. Falar “escravidão” aqui na terra do samba é diferente de usar a palavra na Croácia. Existiram vários tipos de escravidão, existem vários tipos ainda, existem regimes análogos que ocorrem nesse mesmo território que a gente pisa descalço. E é horrível, e dói, e também sangra. E não se justificar por nada. É tão injusto quanto pode ser uma injustiça. Mas não é a mesma coisa. E quando se fala de escravidão, sem contextualizar, não é a primeira coisa que nos é acessada. Eu quero que se apresente a pessoa que com honestidade pensa primeiro em outro tipo de escravidão que não nessa quando ouve a palavra.

O que o país vive agora é uma vergonha sem tamanho, um exploração ímpar no nosso histórico de democracia pós ditadura, é vero e eu concordo, eu endosso, eu acredito. Mas quando falam que é “igual na escravidão” a coisa muda de figura porque é cruel, é desmedido, e ofensivo em níveis que me custa explicar. Porque foram três séculos de gente morrendo a chibatadas. Porque foram três séculos de gente vivendo a chibatadas. Três séculos de gente sendo roubada de um continente pra morrer servindo em outro. Porque foram três séculos de estupro coletivo. Nos meus parentes, nos seus parentes. Tão perto quanto a memória de gente que ainda vive. E a gente ainda escuta uns casos e chora. E a gente lê os registros históricos e se assombra. E ainda assim a gente não consegue nem chegar perto da dimensão que foi.

Eu entendo as justificativas, as explicações extensas, os “o que eu quis dizer na verdade era outra coisa”… Entendo de coração e entendo com todo o meu intelecto. Eu sou capaz de compreender discursos (nós somos). Também sei que a maior parcela a ser atingida pelas novas reformas é a população preta e parda, a população negra (aquela, descendente de escravizados, que está nas condições atuais justamente por uma extensão de abusos que sofreu durante mais de três séculos). Mas sabemos também o peso das frases mal ditas, das colocações impensadas, das falas de mal gosto.

Acalentem seus corações, pessoas que fizeram a comparação, não é o fim do mundo. O genocídio do povo preto é muito mais grave, a agenda é outra. Mas façamos o mínimo já que não podemos fazer tudo. Nos coloquemos limites para ao menos não acentuar essa sangria desatada que é a questão racial no Brasil. Não nos finjamos de bobos, não façamos do cinismo a ordem do dia. Escute. Se escute, me escute, conversemos. Eu não quero ter que fazer isso de novo, mas faço se necessário. Eu quero seguir em frente. Mas nesse barco afundando, eu vou seguir dizendo: na prioridade de salvação, pretas e pretos primeiro!

Então indignações à parte, eu sei que o período é de trevas e os retrocessos não são poucos, que a tendência é piorar e mesmo sem Temer teremos que viver a dor a angústia e o desespero de contemplarmos diante dos nossos olhos o país ir descendo mais fundo, mas tomemos cuidado, se não com os corpos negros presentes, ao menos com a memória de nossos ancestrais.