A capoeira no passado era ocupada por mulheres na ginga (Ginga era um grande e rico reino localizado onde hoje é o Estado de Angola na Africa, sendo a rainha chamada Ginga). A mulher somente gingava (lutava, treinava) publicamente se ela descendesse de um clã de políticos ou reinados. Pois é o papel social da princesa, rainha ou nobreza defender o seu reino, território e os seus servos e se necessário morrer por eles/elas. Mesmo redimida a condição de mulher escrava a indícios que determinadas mulheres tiveram a responsabilidade de liderança em alguns levantes de pessoas escravizadas. E no caso das mulheres comuns, elas dependiam mais dos seus arranjos familiares e comunitários, segregando as ao espaço privado (parcialmente por que muitas mulheres escravizadas tinham os seus ganhos no mercado informal) pelos riscos e preconceitos que caracterizavam o Brasil colonial.

A capoeira enquanto movimentação da ginga, que significa uma base móvel de um lutador/lutadora, de uma dança, ou de um jogo capoeirista. Pois a capoeira compete nesses três níveis. E a partir da ginga que imita o andar, permite ao capoeira explorar a roda no sentido global, em que a movimentação de dois capoeiras segue em sentido horário ou anti horário do relógio, testemunhada por pessoas em volta que animam em palmas e a bateria de musica. No batizado que é a troca de cordas (ritual de evolução do capoeirista) lembra um pouco a arena de gladiadores, mas ao invés do leão tem um mestre de fora ou uma mestra às vezes por que sempre estamos em minoria.

E simbolicamente o principal instrumento que compõe a capoeira é o berimbau. Considerado o mais antigo instrumento musical do mundo, inventado pelos árabes. O berimbau como instrumento de corda, lembra muitas referencias masculinas. O caxixi e a vareta, a cabaça e o bambu, lembrando o falo e o saco escrotal. Lembra também o formato das torres de Dubai na Arabia Saudita.

Somando essas informações da história e dos símbolos, o fato é que as mulheres constituem visivelmente a minoria nas academias de capoeira, nas rodas de capoeira, e menos ainda na condição de mestras e na bateria do berimbal. Salvo exceções como os municípios que aderem ao ensino da capoeira nas escolas. As estudantes constituem maioria, quebrando a hegemonia de gênero. E assim vivenciam possibilidades de seus corpos que historicamente são reduzidas aos meninos. Como a importância de “brincar” de enfrentar, de escapar de articular e combinar movimentações. A capoeira enquanto arte marcial completa contribui para a estabilidade mental. Considera se que os homens são menos vulneráveis a doenças mentais por abstrair dores e angustias na teatralidade da violência, enquanto as mulheres ensinadas a serem submissas guardam magoas com o excesso de tempo suficiente para desenvolver efeitos colaterais como a depressão.

Nesse sentido teorias bioquímicas sugerem que os hormônios a testosterona, influenciam no interesse e disposição por brigas e lutas. E logo a progesterona é o hormônio feminino que interage na maior passividade diante de conflitos. Teorias filosóficas amostram que consumir hormônios masculinos sem receita medica é proibido, para que a sociedade esteja sobre controle, entenda se menos competitiva entre os gêneros. Comparativamente o hormônio feminino é vendido livremente nas farmácias. Nesse balanço colocando o peso cultural na nossa história matriculamos as meninas no balé, no pilates para ter mais delicadeza e postura. Qualquer referencia importada, que os afro – críticos se referem como reduto de colonização.

E o que falta na nossa formação de gênero? Em nós mulheres cobras criadas. Quando crianças as meninas não aprendem a brincar de guerrinha há ir um pouco mais longe, pois os brinquedos e as aventuras são ditas coisa de menino. Consequentemente é reduzida a percepção de localização geográfica, incluindo o senso de leitura de mapas e direção (observação essa regra não vale para todos e todas). Enquanto os romances da Disney não nos ajudam muito. Por que quando romanceamos a história perdemos o entendimento de estratégias e objetivos próprios, para o “bem” que o outro nos faz. Tornando nos assim presas fáceis de lobos bem vivos.

O exercício básico da capoeira é olhar na direção do adversário, para tentar prever o senso de locomoção do combatente. Tal como uma onça de reflexos rápidos, que contra ataca em condição de flexibilidade de movimentos, em giros e empurrões ate descobrir o lado vulnerável do oponente. E no duelo escapar ligeiro como o seu primo um gato que tem sete vidas bem resolvidas em muitas esquivas/evasivas das lutas e quedas. Esse é também é um importante item para a autodefesa é um ato dificil para as mulheres que não estão acostumadas a fazer o contato de controle visual. Miticamente quando desviamos os olhos em condição de medo e receio, esperamos a compaixão de alguém. Isso é inadimissivel na roda de capoeira pedagógica. Na roda de rua ou em campeonatos a pessoa fica fadada a ter uma lesão por “descuido” dela mesma.

Felizmente o cérebro em qualquer altura da vida e gênero é um musculo plástico capaz de se interconectar e crescer. Isso é desenvolver habilidades as quais até então não tivemos acesso. E quem obtiver persistência no treino, o próprio cérebro poderá fazer ligação neurológicas tão engenhosas mais do que um computador atualizado na tecnologia de informações. Para chegar a tanto, passamos muitas etapas e exercícios que se fossemos crianças poderíamos chamar de brincadeira. Em que o líder da turma, hoje chamamos de mestre. Em que na recente aula que assisti aprendi a derrubar cadeiras com cabeçadas de touro e conhecer as estratégias de uma rasteira (com diversos estilos). O que acaba sendo passar por etapas da vida que eu pulei, por acreditar que alguns desafios não pertenciam ao universo feminino. Tudo isso a capoeira tem me proporcionado. Mesmo sendo as mulheres em condição de minoria em qualquer roda. A capoeira enquanto apresenta desafios prementes ao cérebro (sincronia de movimentos), jogo baixo (exploração de chão), jogo alto (movimentos aéreos e acrobacias), exploração da criatividade na amplitude de movimentos que intercalam a direita e a esquerda. Mas o acompanhamento da movimentação da banda (toque do São Bento grande/rapido, toque do São Bento pequeno/devagar). Tudo isso passa a ser retroalimentado pela abstração da história ou das respostas de cada movimento. E há quem entenda a capoeira como o respeito da memória de cada pessoa que apanhou no regime da escravidão ou ter o seu trabalho desvalorizado como reduto da escravidão. Mas também soube revidar, fugir, cometer o seu troco. Pois a riqueza da nação brasileira e dos países colonizadores foi regada a muito sangue dos outros que formam também o nosso sangue. Todo esse sentido existencial do esporte e da cultura da capoeira é responsável por gerar o axé da roda. . O significante da palavra axé é a energia vital. Um abraço é um cumprimento de axé, um conjunto de palmas para representar o axé serve para que não esmoreçamos diante das coisas. Ao contrario serve para que haja um fortalecimento na união da roda de capoeira.

E nós mulheres enquanto levamos muitos traumas visíveis e invisíveis (desgaste físico e psicológico). A capoeira pode ser uma válvula de escape, uma aprendizagem de como se olha o oponente, no sentido de manter o controle da situação e nos fortalecer e assim conseguimos advogar em causa própria. O golpe a esquiva para a fuga, autocontrole, poderia ser uma aula de militancia feminista, mas é um conjunto de habilidades de tecnologia afro – brasileira chamada de capoeira.

Imagem de destaque – Candeias Equador