Não é raro que pessoas negras sejam acusadas de prezar pela questão da diferença, ou de trazerem à tona a categoria raça. Os argumentos mais pobres nos responsabilizam pelo próprio racismo que sofremos, pois na verdade todas as vezes que defendemos a implementação de cotas nas universidades, só estamos demonstrando o quando somos incapazes, ou quando, falamos que pessoas brancas não devem usar turbantes, estamos na verdade, criticando o conceito lindo e burguês de igualdade, pois a final de contas o racismo está em nós, pretos e pretas, não é mesmo? Essas são algumas das situações que cotidianamente nos deparamos, quando reivindicamos a nossa identidade, e quando estabelecemos fronteiras entre o que somos e o que são os outros.

Quando somos acusados de fazer uso da categoria raça – conceito tão perverso que foi formulado no século XIX, com o intuito de justificar o processo de imperialismo sofrido pelo continente africano- não é levado em relevância o processo de ressignificação desse conceito pelos movimentos negros, mas essa problemática, a meu ver, não é o ponto crucial, pois se nos apropriamos, ou se ressignicamos o conceito de raça, o que importa é que esse conceito está na arena, está presente na vida real, o conceito de igualdade não se aplica, pois como sabemos- ou deveríamos saber- o nosso país foi construído dentro da relação da diferença, dentro da  relação senhor e escravo. Portanto, não é difícil perceber as reminiscências dessa relação desigual,  principalmente, da forma com que a raça- essa entendida pelo fenótipo- está presente como padrão (fator) que determina nossas oportunidades, que determina o papel social que estamos destinados a desempenhar.

Quando falo das oportunidades e do papel social que estamos destinados a cumprir, creio que alguns dados são suficientes para expor essa afirmação, dados esses como o índice de violência no país em que, segundo o Atlas da violência, publicado em 2017, a cada 100 jovens mortos no Brasil 71 são negros.  Outro dado revela a persistência da relação entre o recorte racial e a violência no Brasil. Enquanto, a mortalidade de não-negras (brancas, amarelas e indígenas) caiu 7,4% entre 2005 e 2015, entre as mulheres negras o índice subiu 22%.

Sem falar dos baixos salários em que estamos designados a receber, pois segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A renda média real recebida pelas pessoas ocupadas no país foi estimada em R$ 2.043,00 no quarto trimestre de 2016. O rendimento dos brancos era de R$ 2.660,00 (acima da média nacional), enquanto o dos pardos ficou em apenas R$ 1.480,00 e o dos trabalhadores que se declaram pretos esteve em R$ 1.461,00.

Esses são alguns dos exemplos em que a população negra é afetada e está em constante desvantagem se comparada com a população branca de nosso país. Assim volto a pergunta que fiz no começo desse texto: Somos nós que retomamos a categoria raça? Ou ela que está posta em nossas relações sociais? Somos nós que preterimos a diferença, a igualdade? Ou a diferença está existente em tudo? Essas perguntas, caro amigo branco, me soam como óbvias, pois diferente de você a realidade que vivo me possibilita perceber o que tem por detrás do discurso da igualdade, o que infelizmente não é tão bonito, mas é real, e se não olharmos a realidade as possibilidades de mudanças continuaram nulas.

Bibliografia:
Ver em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/atlas-da-violencia-2017-negros-e-jovens-sao-as-maiores-vitimas
Ver: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2017/02/23/internas_economia,576257/negros-

Imagem destacada – Dear White People