Há dois anos, 13 de setembro de 2015, após uma luta pela vida, partia para o Orun, Azoilda Loretto da Trindade.

Este texto faz parte de uma mandala de homenagens compostas de sete voltas nos lugares onde Azoilda semeou sementes de baobá: Academia, Escolas Públicas, Territórios Privados e Movimentos Sociais. Esta mandala transbordada do AMOR, em forma de legado a ser revisitado nas “Giras de Zó, Zô, Zózima”, giras estas que começaram em 8(oito) de setembro deste 2017 e se estenderão até o mês de março de 2018. São atividades coletivas, organizadas por amigas e amigos que reverberam esses afetos em seus lugares de atuação e suas relações interpessoais. Não só. Ela deixou sementes em corações e mentes por onde passou em forma de: artigos em livros, palestras, formações pedagógicas com seus valores civilizatórios afro-brasileiros e seu sonho de uma pedagogia brasilis. Quer saber mais? Azoilda Loretto da Trindade – Afetos inscritos, Educação, Cuidado e Relações Raciais – O legado de Zó.

Segunda reunião da construção das Giras de Zó. Da esquerda para a direita: Sandra Henrique, Angela Ramos, Amanda Sanches, Marta Muniz Bento, Julia Moraes, Carolina Rocha, Janete Ribeiro. Setembro de 2017, Freguesia-Ilha do Governador. Aqui Zó passou o Natal de 2014.

Publicá-lo, integrado em um texto-legado, após dois anos de sua escrita, faz parte do circuito de homenagens a essa que durante 30 anos produziu conhecimento sobre Relações Raciais e Educação, afetando intelectuais que tem no Afeto, a “arma” da liberdade.

Serão sete meses de semeadura para que se cumpra a lenda do Baobá e os fios soltos deixados por Loretto sejam tecidos em forma de colcha de acolhimentos para que novas giras em prol de nossas humanidades pretas sejam visibilizadas.

Em 27 de setembro de 2015, a atriz e escritora Iléa Ferraz, de posse de sua voz singular e o texto abaixo, nos levava ao encantado e a encantaria. Giremos!

Boa tarde a todas e todos vocês, malungas e malungos que aceitaram nosso convite para este encontro de AMOR (Azoilda, Memória, Oralidade e Respeito).

Esse encontro acontece porque Zó vive em nossas mentes e corações. E seus sonhos – ilustrados pelos retalhos deixados ao longo de seus mais de trinta anos de lutas em prol de uma EDUCAÇÃO Libertária – nos uniram na tarefa de tecermos colchas de retalhos que acalentem a nós e a outras e outros que nos ouçam, que nos vejam costurar esses mesmos sonhos-retalhos.

Os tambores rufaram, as crianças gingaram e nós mulheres negras – que acompanhamos e atravessamos de mãos dadas com Azoilda a construção/transformação de sua própria colcha de retalhos, tornada manto sagrado na sua passagem para o Orum – seguimos acalentando, com nossas vozes irmanadas, a roda vida que nos transformou e nos manteve nesta ciranda de amor para tecermos este momento.

E como diria Azoilda Loretto da Trindade, “é um ato revolucionário” estarmos aqui hoje, quinze dias após a sua passagem, enaltecendo a vida, e não a morte; pontuando a alegria, e não o pranto; dividindo esperanças e ensinamentos, e não desesperos; confabulando ações, e não dispersões; honrando nossos passos, passados-presentes-futuros, e não retrocessos; evocando uma constelação de ancestrais, e não apenas uma de suas crianças, a que acaba de nos deixar; e tudo em nome do amor em suas mais variadas formas, pois cremos que o amor pleno e desinteressado é a liga de todas as outras coisas que fazemos acontecer em nossas vidas, e nas vidas que nos cercam. AMAR É REVOLUCIONÁRIO! – gritemos.

E como a vida é generosa para quem é de trocas – e se você está aqui hoje é porque você também se pensa uma ponte – nós ainda teremos muitas outras chances de encontros e parcerias nessa caminhada. É de bom tom, então, que floresçamos o caminho.

A nossa homenageada de hoje [27 de setembro de 2015] também nos deixou contribuição em flores, para este caminho, para o nosso caminhar. Como a própria diria, “isso num é novidade nenhuma, os nossos pertences mais importantes são aqueles ancestrais, aqueles que a gente nem sabe que carrega, coisas que nos sustentam a sobrevivência” em qualquer parte da Diáspora. E o inventário para esses “bens” deixados pela Zó foi desenvolvido, ditado, elaborado, compartilhado e asseverado na nossa convivência, conflitos, trocas, socorro e consolo mútuos nos últimos tempos seus entre nós, nas nossas relações. Por isso, pedimos desculpas às pessoas que já conheçam esse repertório. Entretanto, lembramos a todas e todos que mantras, para que sejam eficazes, devem ser repetidos, à exaustão.

Convite do Gurufin de 2015, designer gráfico: André Ribeiro

Então, revolucionárias, neste gurufim tardio nós é que receberemos flores de Azoilda. Temos algumas já em buquês ordenadas aqui, prontas para serem compartilhadas. Enquanto distribuímos as que possuímos, transgrida: vá procurando nas suas coisas por qualquer pedaço de vida interessante que nossa amiga tenha deixado no seu caminho e divida-o conosco, a qualquer instante, de qualquer jeito. Injete-nos com sua especificidade, com seu SER, com sua presença, com seu amor.

Enquanto vocês se reviram, vamos distribuindo Azoilda. Abram braços e corações. Acolham. Nosso desejo é também que as palavras dela – hoje principalmente – ocupem o máximo possível da cratera que uma perda desse tamanho planta no nosso caminho.

Ah! E não se esqueçam: transgridam. Estamos esperando por vocês.

Enquanto isso, aqui as flores de nossa querida Azoilda, a Loretto, a Trindade, a Zó:

  • Que setembro seja um mês de saúde e paz.
  • Cada minuto, uma dádiva divina.
  • Estou bem. Entregue à Vida e ao Bem Maior.
  • Vocês são meus anjos e me ajudam como podem. Amo vocês.
  • Agradeço à Vida e a Deus a existência de vocês na minha Vida.
  • Não sei se vocês sabem o quanto o apoio e carinho de vocês [foram] fundamentais para que cada dia de minha Vida [fosse] vivido com dignidade, inteireza, acolhimento, aceitação…
  • Eu não quero mentir para mim mesma.
  • [Precisei] exercitar a aceitação, talvez humildade. Mas creiam amo vocês e sou eternamente grata.
  • É preciso despir-se do que não se é. Criar uma nova maneira de viver, uma Pedagogia do Ser. Começar pelo reconhecimento do que sentimos de verdade e ter coragem para transformar as emoções sombrias.
  • A gente precisa abrir o portal neuro-linguístico para coisas boas e maravilhosas para nós. Mudar a frequência. Sair da dor, mágoa, rancor, ressentimento… Sem sermos alienadas. Para construirmos outro destino/futuro. Algo FELIZ!
  • Precisamos celebrar as conquistas e ver as instruções dos nossos fracassos. Eu descobri joias preciosas no nosso lado escuro.
  • Nos fazer disponíveis ao surpreendente, faz também com que a vida se apaixone por nós.
  • Eu desejo que todas as cordas do meu coração estejam afinadas para que possam soar a melodia do amor. Quero me relacionar com a vida sem subterfúgios, manipulações ou jogos de poder.
  • Vibrem pela Vida, [por suas] Vidas. Não sabemos muito mas sabemos que a Vida tem um poder curativo e nossos pensamentos fortalecem este poder. Ou não. ENTÃO, [VIBREM] PELA VIDA. Gratidão e Amor.
  • [Tratem] de escrever, pois sua potência também está aí, e ao escrever [vão] partilhando, areando, arrumando, fortalecendo. [Escrevam], amigas! E não [esqueçam] de respirar com intento.
  • Gratidão. Gratidão. Gratidão.

E então, ouviram? Colheram? Reviveram? Acrescentaram? Sentiram? Somaram?

Respeitemos, pois, o momento, o nosso momento. Seguremos as tormentas finalizando com um pequeno trecho de um poema:

Agora é branda e linda a memória de seus sorrisos.

Talvez ainda algum arrependimento do que eu deixei de perguntar,

do que eu não disse.

Bela arte do tempo:

o que reverbera hoje não pode mais ser chamado de luto.

Virou só ensinamento.

— Elisa Lucinda

 

*O original “Caruru de cheganças”, incorporado ao presente texto foi escrito por Janete Santos Ribeiro e Katia Costa Santos e distribuído aos cerca de 200 convidados que homenagearam Azoilda em 27 de setembro de 2015 na casa da Designer Gráfica Maria Júlia Ferreira, no Rio de Janeiro.