Teocracia: (do grego Teo: Deus + cracia: poder) é o sistema de governo em que as ações políticas, jurídicas e policiais são submetidas às normas de algumas religiões. O poder teocrático pode ser exercido direta ou indiretamente pelos clérigos (ou sacerdotes) de uma religião: a sub-divisão de cargos políticos pode ser designada pelos próprios líderes religiosos ou podem ser cidadãos laicos submetidos ao controle dos clérigos, onde chefes de governo, estado e poder judiciário estão submetidos aos conselhos dos sacerdotes. Sua forma corrupta é também denominada clerocracia.

Essa é apenas uma definição extraída da wikipedia, mas podia ser o retrato fiel da política brasileira dos últimos 20 anos. Seja no legislativo, executivo ou no judiciário, proliferam como baratas homens brancos de todos os tipos de denominações que falam, criam leis e gerem a vida do povo,  em nome de jesus. Uma reedição barata mas providencial e oportuna do conceito de “direito divino” que coloca as disputas políticas entre os diversos segmentos da população no âmbito do sobrenatural, não político.

O sistema político brasileiro permite que hajam partidos cristãos de todos os nomes e siglas, criados com um dinheiro que ninguém ousa saber de onde vem. Aqui, é necessário grifar bem grifado que no ano passado a Lei Geral das Religiões, de autoria do Deputado George Hilton e de relatoria do atual prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça. Um dos versos da lei fala a respeito da isenção de impostos sobre as igrejas (sobretudo evangélicas) e entidades religiosas – leia-se instituições de recuperação e afins – assim como ao seu patrimônio, renda e serviços, desde que relacionados às finalidades essenciais.

E se a gente for cavar projeto por projeto de lei, estrutura por estrutura, não fica difícil entender que está tudo bem emaranhado como num plano perfeito e só desse jeito a gente pode entender do que fazem parte as cenas de violência e racismo religioso circuladas essa semana na internet. A teocracia é um projeto em curso no Brasil, não se assustem nem achem exagero, minhas caras! E esse é um projeto genocida, violento, dizimador das populações adeptas das religiões de matriz africana.

Notem que não há nada parecido em curso nem sendo direcionado a outras religiões monoteístas; não tem existido “intolerância religiosa” contra católicos, muçulmanos ou adventistas – e nossa reivindicação não é para que haja. Pelo contrário, queremos entender motivo, razão e circunstância pelas quais somente nossos terreiros são atacados.

Por isso chamamos RACISMO RELIGIOSO!

É muito importante que se entenda que estamos falando de um crime, que vai além de ser intolerante com as religiões de matriz africana. Trata-se de uma manifestação de ódio que tem por objetivo nada menos que o extermínio de toda uma raiz de pensamento que tem como principal característica a negritude, colaborando ativamente para que o genocídio da população negra e sua cultura seja um projeto ainda mais bem sucedido.

Não se trata apenas de um jogo de palavras sem nenhuma implicação prática, como nos mostram as tristes e revoltantes notícias que vêm de todo país. As violências vão desde o assédio moral a sacerdotes e praticantes, até a destruição de símbolos religiosos como guias e assentamentos até o assassinato de líderes espirituais.

No âmbito institucional, o panorama não é menos funesto. A atuação de Marcelo Crivella, prefeito da cidade do Rio de Janeiro pelo PRB, bispo licenciado da Igreja Universal para quem “os negros gostam de cachaça, prostituição e macumba”, é apenas um dos exemplos de que o estado laico se encontra em flagrante ataque. Por todo país o cenário é o mesmo, com a mesma gravidade do ataque que ganhou repercussão nacional, quando sacerdotes foram obrigados a destruir símbolos religiosos.

RACISMO RELIGIOSO É CRIME

“’É só um diálogo que eu tô tendo com vocês, na próxima vez eu mato! Safadeza, pilantragem! Primeiramente é Jesus! Quando vocês forem bater cabeça aí na casinha do cachorro, vocês primeiro pedem licença a Jesus! Vocês não sabem que o “mano” não quer macumba aqui? Tá peitando por quê? Por que a gente tirou a boca dali? Arrebenta tudo! Eu sou da honra e glória de Jesus! Pensa por que eu não tô na favela essa p*** vai continuar? Já avisei! Se eu pegar de novo ou tentar construir esse c*** de novo, eu vou matar!’”

As palavras do criminoso ditas para as vítimas demonstra alguns pontos importantes.

O primeiro deles é que se trata de discurso de ódio e como tal, não tem outro objetivo que não o extermínio dos corpos que representam, tecem ou protegem as narrativas, através de todos os meios que se fizerem necessários. Inclusive o maior deles, o assassinato. Uma narrativa naturalizada que conduz as ações não apenas de indivíduos mas também de um estado especializado em fazer leis raciais sem mencionar o quesito raça em suas ações.

Precisamos lembrar que em São Paulo, a disputa foi levada aos tribunais acerca da proibição do sacrifício animal, que poderia ter sido criminalizado, colocando em questão um dos fundamentos mais importantes das religiões de matriz africana em cheque. Em todas as cidades onde está em vigor qualquer instrumento que proteja “a ordem pública” a proibição do culto pode se tornar uma dura realidade.

Governo dos justos

O racismo religioso é parte de dois processos que vão além da intolerância religiosa e de um ataque impensado contra o estado laico.

Trata-se de ter a permissão para destruir nossas ferramentas de resistência e está, por exemplo, intimamente ligado à desapropriação cultural. As religiões de matriz africana tem sido desapropriadas de seus fundamentos em práticas evangélicas como unção com óleos santos, uso de roupas brancas e gira nas vigílias. Porém, tudo aquilo que não pode ser higienizado é alvo de extermínio, justificado pelo racismo religioso.

Do ponto de vista do ataque ao estado laico, a ideia não é sua simples destruição, mas o retorno à ideia de que a liderança é divina. Esse é um projeto em pleno andamento, através da criação, fortalecimento e articulação da bancada evangélica que é resultado direto daquilo que se chama Governo dos Justos. Um plano muito simples mas nada simplório: sistematicamente ocupar cargos executivos até chegar à presidência.

A narrativa é justificada através de figuras bíblicas como o patriarca Abraão e Rei Davi, figuras que não por acaso personificam ideias patriarcais. Um sistema de valores que também se articula às escolas de princesas, dedicadas à reiterar que o lugar das mulheres é decorativo e completamente submisso. Obviamente, a discussão de gênero e afins são atacadas.

Não surpreende que alguns estejam inclusive considerando o retorno à monarquia, um sistema de governo que alinha perfeitamente escravização, patriarcado e teocracia. Logo, a luta contra o racismo e em especial o racismo religioso precisa ser estratégica nesse momento em que se avoluma a ideia de um líder escolhido por deus, que não pode ser questionado por instrumentos democráticos e que seria a única solução para a crise política que vivemos.

A luta tem mostrado que não é. Os próximos passos são muito pretos. Um projeto que não seja a materialização de projetos pessoais de uma, apenas uma, pessoa. Mas de toda uma comunidade que tem produzido ao longo dos anos muitas opções, muitos nomes e possibilidades. A tarefa que se coloca é superar as divergências pessoais, sem abrir mão daquilo que nos define, e pensar como fizeram nossos mais antigos porque os únicos capazes de prover soluções em meio a tamanha crise são os povos originais.

Imagem – orig07, devianart.