É inquestionável a importância do ato de brincar durante a infância. São inúmeras as brincadeiras que acompanham as crianças na sua formação e farão parte do seu cotidiano até a vida adulta. E por isso, cada vez mais, surgem ‘espaços de brincar’ espalhados pela cidade.

São espaços lúdicos, acessíveis às crianças de 0 a 6 anos e que tem o objetivo de estimular as brincadeiras infantis, de forma interativa e descontraída.

Sabemos que através destes espaços as crianças constroem relações, exercitam a imaginação, a interação social, o desenvolvimento motor, a criatividade, as possibilidades de movimentos corporais e o desenvolvimento lúdico.

E cada vez mais, percebemos a importância de se ter espaços com representatividade na primeira infância para todas as crianças. Os “espaços de brincar” precisam ser pensados para receber crianças diferentes e principalmente, acolher estas diferenças.

Recentemente, fizemos uma visita ao espaço de brincar no centro, que foi inaugurado há poucas semanas, e tivemos uma surpresa extremamente agradável ao perceber neste espaço muitos Bonecos e Bonecas Negros de pano. Tecidos africanos ao lado dos tules. Bonecos com slings para as crianças fazerem as amarrações junto ao corpo. Bonecos de crochê. E muita música e cantigas tradicionais.

Em África, as relações entre o corpo, o movimento, a música e o lúdico são sempre interligadas e poder exercer isso, aqui em diáspora, no centro de São Paulo, de graça, com nossas crianças é também uma forma de construção e reconhecimento da nossa identidade.

O encantamento maior foi pelos bonecos de pano, com bonecas muçulmanas, indígenas, deficientes visuais… e com bonecos negros, de até 1 metro, vestidos com roupas de tecidos africanos e onde cada lado do rosto tem uma expressão diferente.

Precisamos de mais espaços acessíveis e representativos às nossas crianças negras durante a primeira infância, porque destas vivências iremos construir adultos mais fortalecidos, pela representatividade e valorização da autoestima.

A brincadeira, para além do lazer é uma necessidade infantil. É uma forma de interação, de exercício da capacidade de criação, da exploração de movimentos e está ligada ao desenvolvimento cognitivo, afetivo, motor, social. Estimular a possibilidade de brincar nas crianças é favorecer, inclusive, os seus aprendizados e sua formação.

É no momento de brincadeira que a criança faz a ponte entre o real e o imaginário, que externa os medos, as inseguranças, os sentimentos. E é por isso, que é importante a presença também dos responsáveis durante estes momentos. Nos espaços de Brincar, os adultos são bem-vindos e além de participar, irão interagir e brincar também com as crianças, formando e fortalecendo vínculos.

Vivemos em uma sociedade estruturalmente racista. E sabemos que o racismo tem um impacto devastador nas crianças. Crianças Negras estão expostas diariamente a situações de racismo e, por isso, muitas vezes elas irão negar e/ou rejeitar sua identidade e sua ancestralidade. Precisamos estar atentos aos impactos do racismo na infância. Cabe a nós, adultos, identificar as situações, orientar e propor estímulos que irão fortalecer e garantir respeito e igualdade desde a infância.

As brincadeiras e a interação com outras crianças, fora do ambiente familiar e fora do ambiente institucionalizado (como é a escola, por exemplo) pode ser um espaço muito rico tanto para observar a forma como a criança brinca, como a forma com que se relaciona com outras crianças e adultos presentes no mesmo espaço.

É um exercício muito grande para os adultos, durante uma simples brincadeira, estar atento aos espaços, às brincadeiras, os tipos de brinquedos, as outras crianças e tudo isso ao mesmo tempo. Mas é um exercício fundamental para que crianças negras possam brincar e fortalecer sua identidade, sem exposição a nenhuma reprodução de racismo.

É mais que entreter a criança, a brincadeira é um momento de ligação entre mundos, pessoas, histórias e ter ambientes que irão favorecer estas ligações são possibilidades ímpares e valiosíssimas.

Crianças Negras precisam ter acesso a espaços que as contemplem, nos brinquedos, nas brincadeiras, nos livros, nos tecidos. Está contido ali, neste espaço, um local que será presente e saudável para esta criança. E nossas crianças, precisam cada dia mais de espaços seguros, para crescerem saudáveis.

Imagem de destaque – Adriano é filho da autora e foi fotografado por Júlia Andrade.