No último país do mundo a abolir formalmente a escravidão, Nós mulheres negras somos vistas como a carne mais barata do mercado, nossas vidas valem pouco, a violência sofrida fica impune e quando visibilizada é sempre para nos culpabilizar.

Mulheres negras são à base da pirâmide da sociedade: maioria das desempregadas, quando empregadas recebem os menores salários que homens brancos negros e mulheres brancas, a violência contra a mulher também as atingem com mais força, em dez anos da lei Maria da Penha, a violência contra as mulheres negras aumentou.

Matam a nossos meninos negros, os alijam de direitos e depois nos culpam por isso: Onde estava essa mãe que não viu?

No Brasil a pobreza te uma cara de mulher preta e os processos de recrudescimento de políticas sociais impactam decisivamente a nossa vida, sendo a maioria das desempregadas ou inseridas em empregos precários, como conseguir juntar os anos todos para a aposentadoria? A diminuição do tamanho dos programas socioassistenciais de transferência de renda aprofunda a performance de um Estado que se esforça para entregar à periferia um pouco de navio negreiro.

Nunca tivemos a real implementação da Lei 10.339/03, ouvimos até hoje professoras e professores que se recusam a ensinar a história africana e afro-brasileira por acreditarem que se trata de conteúdo demoníaco, as cotas raciais são necessárias no ensino superior, ainda são duramente combatidas, boicotadas, a proposta de cotas para publicidade nunca foi levada a sério, e a tendência é que enfrentemos a violência estatal, institucional e da branquitude com muito mais peso, vivemos um tempo de medidas reacionárias, objetivamente vemos a produção de um discurse prática social que concretamente reagem às conquistas – ainda que não muitas- dos últimos anos.

E o que isso demanda para nós mulheres negras?

Isso nos convoca a uma militância ativa, em sua radicalidade que confronte o Estado genocida, racista, machista, lesbobitransfóbico e capitalista. Convoca-nos ao compromisso inegociável com a lita antirracista, antimachista, anticapitalista antilesbobitransfóbica.

A mudança de status e de condições concretas de mulheres negras no acesso a seus direitos não vai ser alcançadas sem reformas profundas. Precisamos assumir o controle da narrativa e buscar uma narrativa que de fato incomode a branquitude e balance esse jogo.

Desconfio de um discurso negro que não incomoda a branquitude, desconfio quando vejo racistas confortáveis com a leitura de textos, com o acompanhar de vídeos que pretendem discutir a questão racial do Brasil, porque isso significa que boa parte da história não está sendo contada e tem a ver com quem está assumindo a narrativa. Discutir apropriação cultural no campo da estética exige o compromisso de identificar se existe apropriação cultural por parte desse mundo capitalista que se apodera dos saberes tradicionais da Amazônia por exemplo. Discutir participação das mulheres no mundo do trabalho nos exige identificar se essas empresas não estão reiterando estereótipos racistas quando mantém mulheres na condição de “consultoras externas” sem carteira assinada, sem vinculo empregatício no exercício do trabalho precário.

As participações em tv, radio, revistas deveriam ser precedidas de uma profunda análise sobre o papel do veículo na manutenção do racismo, na reiteração de estereótipos racistas, não estariam tentando limpar sua imagem pontualmente esvaziando o discurso do povo preto?

Daqui para frente o exercício com a coerência vai ser o principal elemento garantidor da nossa capacidade de reação. Não nos esqueçamos do esvaziamento das pautas negras não se dá apenas por enfrentamento, também se dá por cooptação do discurso, das pautas, da luta coo um todo.

Enfrentar a sociedade racista é incomodar a branquitude. Se o discurso feito não incomoda, se não gera desconforto com a situação de privilégio, ele não tem o poder de engajar e produzir mudanças, é preciso que nos busquemos no âmago de nossa militância e identifiquemos o que de fato buscamos? Na era de supressão de direitos institucionalizada por um discurso de ódio, precisamos de vozes dissonante, que busquem a equidade racial, a busca por holofotes nos transforma em tokens da branquitude e mais grave do que isso esvazia o sentido de nossa militância e deixa cada vez mais distante a concretização do ideal de um mundo melhor para a população negra, para as mulheres negras, todas elas.