Atenção para o top de quatro absurdos de parar o mundo pra gente descer (ou subir, no caso):

TRABALHO ESCRAVO

Não recebemos com espanto o retrocesso sobre um tema tão importante quanto trabalho escravo. Trata-se de uma estratégia que se distancia das boas práticas internacionais para relativizar o conceito a favor das empresas que escravizam pessoas, que cada vez mais estarão numa lista pública e ao alcance de um clique. Agora quase nada é escravização e quase nada poderá ser feito contra escravizadores.

Talvez alguns de vocês (brancos) não se lembrem, mas a escravização tem várias características para além da “banalidade” da privação de liberdade: salários injustos, jornadas exaustivas, exposição a perigo constante, dentre outras coisas compõem o que a gente pode chamar de regime de escravidão. E pasmem, não é menos escravidão porque a pessoa está livre, ou porque ela não leva chicotada. Condições insalubres, como as das muitas fábricas Brasil afora, ou mesmo a exploração da mão de obra por parte do Agronegócio são sim práticas escravizadoras, que submetem indivíduos empobrecidos e marginalizados a condições sub-humanas de trabalho.

Tudo foi feito através de uma portaria que torna a ação da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), hoje subordinada ao Ministério dos Direitos Humanos, uma piada. Jornada exaustiva e condições de trabalho degradantes não são mais trabalho escravo, que passa a ser aquilo que se iguala à escravização tal como conhecemos na época colonial. Para muitos ainda não é 14 de maio de 1888 e nunca chegará a ser. E fica a nossa pergunta: até onde deixaremos ir para nos rebelar?

Ronaldo Nogueira, atual ministro do trabalho, assina o retrocesso atendendo a exigências da bancada ruralista. Notem que o político é administrador e também pastor da Igreja Assembleia de Deus. Filiado ao PTB (ironicamente Partido Trabalhista Brasileiro) pelo qual é deputado federal licenciado. Um perfil que se encaixa perfeitamente no Governo dos Injustos, não há novidade alguma. Sendo assim beneficiado por essa lei que resulta na exploração da força de trabalho da população pobre e periférica.

RAÇÃO HUMANA EM SÃO PAULO

Outra notícia, que já começa a ser negada, é a sugestão por parte da prefeitura de São Paulo, de oferecer ração para a população sofrendo de insegurança alimentar em São Paulo. E nós sabemos muito bem de quem estamos falando, gente preta, gente pobre, gente periférica. Como sabemos, a pobreza e a fome têm cor e endereço certo nesse país.

A notícia teve grande repercussão e o programa Alimento Para Todos, uma iniciativa da Secretaria de Direitos Humanos, foi prontamente questionado. Por seu caráter racista, elitista, desumano até o talo. Aliás, não tem talo algum, esse é o ponto. O que estão chamando de alimento nada mais é do que restos de comida que poderão virar ração para… Combater a fome. Todo mundo perde, menos quem vai fabricar o que eles chamam criminosamente de “alimento”.

Agora, muito em função da disputa de narrativa, o alimento passou a ser chamado de farináceo. Tem sido defendido como um suplemento, apesar de algumas notícias anteriores darem conta de que uma quantidade miserável do produto alimentaria uma criança por dia. E pasmem, ainda estão argumentando que tudo será feito dentro dos trâmites legais.

CAPOEIRA GOSPEL

Essa semana veio à tona mais uma das curiosas facetas da apropriação cultural, a Capoeira Gospel. Para quem ficou com dúvidas sobre o que seria esse monstrinho, estamos falando dos movimentos corporais, dos instrumentos e da musicalidade, desapropriados de suas narrativas ancestrais. Sai orixá, entra um deus branco, europeizado e de olhos azuis.

Ou seja, fica mais do que evidente nesse caso como a desapropriação cultural serve de instrumento ao racismo religioso. Não estamos aqui disputando narrativas de maneira desinteressada, porque o que está em jogo é a nossa própria sobrevivência como corpos negros que produzem cultura, o sagrado e, ao mesmo tempo, dança e luta como a capoeira, que não pode ser chamada dessa forma e ser descaracterizada em quaisquer de seus elementos.

Esse não é, contudo, o exemplo mais curioso da desapropriação cultural que tornam tristemente acéfalos até mesmo corpos negros. Vide os cultos com tambores e giras, daqueles em que estão muitos de nossos irmãos, em que a música é verdadeiramente boa, mas a palavra dita é evangélica. Desses vídeos que circulam entre nós é que nos fazem dizer, eita que macumba boa!

Porém quando esses mesmos elementos estão sob a ancestralidade negra, tornam-se coisa do diabo. Podem ser destruídos como temos visto no país afora, violência que muitas vezes se concretiza com a morte de nossos sacerdotes e líderes espirituais enquanto nas repartições e órgãos públicos figuram imagens de santos católicos. Se engana quem não enxerga que a desapropriação cultural também serve à lógica do governo dos injustos.

#PRAYINGFORSOMALIA

Temos observado esta semana que esse país sofreu um dos piores ataques terroristas da história, com mais de 300 vítimas, e que os noticiários não estão dando o devido destaque a esse acontecimento, afinal ele atinge uma população de um continente historicamente desprezado e corpos historicamente considerados inferiores, corpos negros. Não observamos a grande comoção da mídia como a que ocorre em países europeus, por exemplo. Nem observamos líderes políticos oferecendo ajuda à população desse país. Tão nocivo quanto o silenciamento, é o apagamento da história das vítimas e a banalização do sofrimento de suas famílias.

Isso não é novidade, visto que para muitos a África mítica é também um continente homogêneo, sem história e com vidas que realmente não importam. A parte disso, pessas nas redes sociais tem se mobilizado na hashtag #PrayingForSomalia, também instalando nos seus perfis do site azul as máscaras que indicam uma mobilização pelo país.

A novidade (ou não) é saber que ninguém sabe sobre a Somália. O país que fica localizado na região do Chifre da África e que faz fronteira com a Etiópia, Djibuti, Imémen e Quênia, foi também o território do Império Axum e do Reino Punt e por muito tempo um importante centro do comércio de especiarias, incenso e mirra. A Somália, juntamente com a Etiópia formam os dois países no continente que nunca foram formalmente colonizados (a Etiópia com a resistência armada, mais que a Somália) e justamente por isso, pesam sobre a sua história a exploração econômica e as altas taxas de pobreza, frutos de uma colonização perversa e escrota.

Como a maioria dos países africanos, a Somália também tem na sua história os infindos conflitos internos provocados pelas ideologias capitalista e socialista e por isso o país vive, desde a década de 60 – quando franceses, italianos e britânicos provocaram a  divisão do território e  Somália se proclamou independente (quando nasceram o Djibuti e a República da Somália) – um ambiente de guerra, com a população em constante ameaça.

Para entender o que acontece hoje na Somália, é preciso revisar a história inclusive com um olhar apurado sobre colonizações e novas colonizações. É preciso primeiramente ter no entendimento que as guerras tribais iniciadas láaaaa nos primórdios do processo escravizatório rendem (dinheiro e capital simbólico) até hoje. Nem precisamos nos perguntar porque ninguém é #SomosTodosSomalia, afinal a ninguém – ninguém leia-se a branquitude eurocêntrica – interessa um país em conflito que você mesmo instaurou com o objetivo do lucro. O interesse está em justamente a permanência da guerra e o silêncio sobre sobre ela (isso sim importa!).

Não nos enganemos: Só seremos todos algum lugar quando esse lugar de fato fizer parte de nós. E não pasmem: para o mundo, a Somália é só mais um país onde nem a paz nem as vidas importam.