Negando-se a abraçar a psicologia da vitimização pelo medo de que a vida negra nos Estados Unidos fosse para sempre ser vista como patológica, pensadoras/es e/ou ativistas críticas/os negras/os do século dezenove e início do século vinte escolheram abraçar uma psicologia da vitória. Elas/es enfatizaram as diversas formas com que pessoas negras conseguiram sobreviver com graça, elegância e beleza, a despeito da brutalidade extrema de viverem numa nação de supremacia branca. Apaixonadamente devotadas/os ao objetivo político de ascensão racial, elas/es destacaram as conquistas de indivíduos excepcionais. Elas/es citaram suas vidas e trabalhos como evidência de que não só éramos iguais às pessoas brancas mas talvez superiores, pois tantas/os de nós foram capazes de começar do zero e inventar poderosas subjetividades criativas. Elas/es não falavam sobre as baixas psicológicas. Tal pensamento deve ter inspirado W. E. B. Du Bois a escrever:

Se está para ser provado, pela primeira vez na história moderna, que na América as pessoas negras não só são capazes de desenvolver grandes figuras como Frederick Douglass mas também ser uma nação provida de maravilhosas possibilidades culturais, então seu destino não é uma imitação servil da cultura anglo-saxônica mas uma robusta originalidade que deve invariavelmente seguir ideais negros. Isso significa dizer que ideais negros serão mantidos e assegurados pela coletividade através do desenvolvimento da genialidade negra, da literatura e da arte negras, e do espírito negro.

Quando pesquisadoras/es do início do século vinte tentaram desenvolver um discurso sobre a vida negra o qual visasse construir paradigmas sugerindo que toda experiência negra poderia ser compreendida por uma leitura patológica, essa linha de pensamento foi atacada por pessoas negras.

A ênfase na ascensão racial, através de esforços cruciais de interferir e questionar a supremacia branca, criou, ainda assim, uma cultura da vergonha na qual qualquer aspecto da vida negra que pudesse ser visto como evidência de desordem mental, ou patologia, tinha que ser escondido ou tratado como completamente aberrante. É essa cultura da vergonha silenciada que tornou praticamente impossível para afro-americanas/os reconhecer as formas pelas quais é fundamentalmente traumatizante psicologicamente viver numa sociedade de supremacia branca e ser os alvos constantes de violência e ataques racistas. O reconhecimento de que nós negras/os fomos coletivamente feridas/os pelo trauma racial demanda romper nossa conexão com uma tradição de ascensão racial inquestionada, na qual o trauma foi minimizado no esforço de provar que nós não fomos coletivamente desumanizadas/os pela opressão e exploração racista. Essa necessidade desesperada de “provar” para pessoas brancas que o racismo não foi capaz de realmente causar danos psicológicos contínuos em nossas vidas foi e é uma manifestação do trauma, uma resposta ampliadamente reativa. Foi esse tipo de resposta à supremacia branca como uma arma de colonização cultural doméstica que Frantz Fanon, um psiquiatra negro da Martinica, descreveu em “Os condenados da terra” como uma situação de despersonalização na qual “as pessoas colonizadas pensam que foram reduzidas a um corpo de indivíduos que só acha coesão quando na presença da nação colonizadora”. Para romper com uma mentalidade colonial, as pessoas negras temos que reconhecer a necessidade de uma ascensão racial através da produção cultural e do desenvolvimento da genialidade negra e ainda nos engajar numa política de resistência que seja capaz de lidar com o trauma psicológico que vivemos, tanto no passado quanto no presente, conforme vivemos para criar subjetividade e identidade numa sociedade de supremacia branca.

Ao mesmo tempo em que jovens negras/os contemporâneas/os se recusam a identificar-se com o movimento pela ascensão racial, elas/es buscam substituir uma narrativa da vitória que rejeita adversidades pela narrativa do prazer e deboísmo, tipo “nós estamos muito ocupadas/os nos divertindo com a invenção de nossa negritude lacradora para sentir dor, e nós certamente nunca sentimos auto-ódio”. Publicamente, a jornalista negra Lisa Jones celebra essa perspectiva em sua coleção de ensaios Bulletproof diva: tales on race, sex and hair, na qual, com o artigo zombeteiramente intitulado “Faça auto-amor”, ela faz troça de mim e de outras/os teóricas/es críticas/os negras/os que queremos chamar atenção ao auto-ódio resultante do racismo internalizado. Jones declara abertamente que “há evidências significativas para comprovar nossa subalternização e há também as que comprovam nossa vitória […] você escolhe qual carapuça te serve”. Incapaz de romper com as mesmas escolhas binárias que eu tenho criticado, ela, como muitas/os outras/os, não é capaz de perceber que nós reinvindicamos nossa vitória e nossa dor sem ter vergonha. Novas gerações negras anseiam para enfatizar o prazer como forma de mascarar, suprimir qualquer reconhecimento da dor. Nitidamente, nós precisamos fazer uma distinção crítica entre prazer negro e agência negra. Em tempos nos quais não tínhamos nenhuma agência, nenhum controle real nem mesmo dos aspectos mais básicos de nossas vidas (i.e., controle de nossas funções corporais), ainda assim nós vivemos prazeres.
Não surpreende que as pessoas que mais querem enfatizar o prazer são teóricas/os negras/os jovens, educacionalmente privilegiadas/os, que podem cruzar fronteiras a seu bel prazer, entrar e sair da negritude quando é interessante e quando paga bem, e que são as/os mais ávidas/os por negar a existência do auto-ódio negro e mesmo da profundamente debilitante e potencialmente fatal dor psicológica. Elas/es direcionam seu discurso de prazer negro a um público branco consumista mais que sedento por ignorar qualquer expressão de dor negra. Muitas dessas pessoas negras privilegiadas que estão entre as mais incomodadas com o uso de um termo como “auto-ódio” foram aquelas crianças criadas em contextos em que ansiavam por desaparecer e se tornar brancas. Se isso não é um gesto destrutivo, potencialmente odioso, o que é? Óbvio que quando a negritude entrou na moda seus problemas acabaram, ou assim pareceu. Mas elas/es frequentemente não estavam afirmando a negritude como um gesto de auto-amor e sim como uma forma de dizer a branca/os invejosas/os “agora que o jogo virou você deseja ser negra/o, mas eu sou negra/o”. Note que a fixação, aqui, ainda é em como as pessoas brancas nos veem, e não em como nós vemos a nós mesmas/os – em outras palavras, identidade negra como arte performática. Eu não tenho apego ao termo “auto-ódio”, mas quando pessoas negras usam-no para expressar sua dor, eu não tenho necessidade de silenciá-las parando a conversa para falar de semântica. Por fim, as palavras que usamos não significam nada se você não está criando um contexto cultural em que a dor negra pode ser falada e diretamente tratada, sem que seja usada como melodrama saboroso para quem deseja apenas “devorar o outro”. Esse canibalismo voyeur é feito também por pessoas negras consumidoras que se aprazem por representações glamurizadas de auto-destrutividade negra genocida.

Contrariamente à insistência de Jones em que nós temos que empreender energia questionando “a noção de que há multidões lá fora odiando-se”, é urgente a necessidade de criar um contexto em que nossa dor possa ser resgatada de uma etnografia voyer descritiva, a qual transforma essa dor num espetáculo seja por zombar dela, trivializá-la, ou sentimentalizá-la. Isso é mais importante que qualquer insistência implicante de quem diz que, por “não acreditar que as pessoas negras odeiem a si mesmas”, tais sentimentos não podem existir. É impressionante que essa gana pela negação da dor venha tão frequentemente de pessoas que têm o maior acesso a estruturas de cura; qualquer ferida que possa ter havido em suas vidas poderia ter sido tratada. Infelizmente, se aquelas/es de nós que somos culturalmente privilegiadas/o e temos a vantagem de conhecer muitas pessoas negras que não estão soterradas pelo auto-ódio usamos esse privilégio para apagar e diminuir as tantas pessoas negras, muitas vezes de classe trabalhadora e pobres, que falam sobre o auto-ódio resultante do racismo internalizado, estamos simplesmente realizando uma forma mais sofisticada de imperialismo cultural. Em outras palavras, estamos agindo como se fôssemos uma elite negra privilegiada: você pode pegar o que quiser da cultura negra, toda a parte bacaninha que você precisa pra ficar top pode ser apropriada como um recurso qualquer, e o resto você deixa. É esse neocolonialismo cultural fundamentado em classismo que permite censura e silenciamento de qualquer esforço, por parte de pessoas negras, de nomear nossa dor, qualquer que seja sua fonte, e curar nossas feridas.
A falha coletiva em lidar adequadamente com as feridas psicológicas causadas pela agressão racista é o que alimenta a psicologia da vitimização na qual a falta de perspectiva aprendida, a raiva incontrolável e/ou os sentimentos arrebatadores de impotência e desespero abundam nas psiquês de pessoas negras, mas ainda não foram tratados de formas que empoderem e promovam estados holísticos de bem-estar. Até que as/os afroamericanas/os, e até que todo mundo nos Estados Unidos consigam reconhecer o trauma psíquico causado nas pessoas negras pela agressão e ataques racistas, não haverá reconhecimento cultural coletivo da realidade de que essas mazelas não podem ser resolvidas apenas através de programas de reparação econômica, nem de tentativas de criar igualdade social entre as raças. Assim como todos os transtornos mentais, a psiquê afroamericana ferida precisa ser cuidada dentro do quadro de programas de saúde mental que conectam tratamento psicológico a uma conscientização política progressista quanto à forma com que sistemas de dominação institucionalizados agridem, causam dano, e mutilam. Tais programas não vão surgir enquanto as/os afroamericanas/os dependerem das estruturas educacionais e de cuidado com saúde mental existentes para lidar com tais questões.

Nas instituições formatadas pelo viés da supremacia branca capitalista patriarcal, há pouca esperança de que terão apoio as pessoas interessadas em desenvolver teorias e práticas psicológicas que lidem com os dilemas enfrentados por afroamericanas/os. Quando essa realidade se conecta a uma cultura da vergonha dentro de diversas comunidades negras que silenciam as tentativas de pessoas negras nomearmos nossas feridas, um clima de repressão e proibição prevalece. Em anos mais recentes, essa cultura da vergonha, e o policiamento psicológico que ela promove, tem sido muito questionada pela literatura de mulheres negras. A ruptura desse silêncio coletivo tem sua expressão mais forte no trabalho de escritoras negras, especialmente de ficção. “A cor púrpura”, de Alice Walker, e o primeiro romance de Toni Morrison, “O olho mais azul” (publicado depois do livro de Walker), bem como seu mais conhecido “Amada”, tratam a questão do trauma psíquico. Significantemente, muitas obras de escritoras negras contemporâneas passaram a tratar do trauma psicológico no despertar do movimento feminista contemporâneo ratificando a divulgação de assuntos privados e segredos nos espaços públicos. Ativistas feministas alertavam sobre como a separação entre público e privado era necessária à manutenção da dominação patriarcal institucionalizada que perpetua a exploração e opressão das mulheres, especialmente quando acontece no espaço doméstico. O foco feminista em direitos reprodutivos, violência doméstica, estupro e abuso sexual infantil, particularmente incesto, bem como em padrões de dominação em relações sexuais e íntimas, interveio no silêncio cultural que anteriormente taxava tais temas como tabu. Escritoras negras contemporâneas puderam entrar nesse contexto e criar uma literatura que tratava assuntos que, até certa medida, ainda eram tabu em textos considerados especificamente sobre raça.
Ao contrário da literatura feita por mulheres brancas de então, que não abordava questões de raça, a obra de escritoras negras necessariamente evocava a interconexão entre raça, gênero e classe. Obras clássicas da ficção americana feita por autoras negras foram descobertas. De repente, pessoas que não as haviam lido anteriormente reconheciam que através da história de nossa literatura, mulheres negras lidaram com o trauma. Efetivamente, foi no romance The Street, escrito nos anos 1940 por Ann Prety, que sua protagonista Lutie articulou o fato de que muitas pessoas negras sentiam uma raiva profundamente intensa do racismo, a qual constantemente ameaçava implodir, nos destruindo de dentro para fora. Falando sobre o trauma coletivo que pessoas negras vivenciam, Lutie declara: “todo dia nós estamos sufocando com essa raiva”. Na ficção de autoras negras contemporâneas, o foco no trauma psicológico ser tão atento a questões de gênero a ponto de a interrelação entre raça e gênero poder ter sido menos observada, causou uma resposta pública negativa a essas obras, não criando discussão e debate contínuos. Atualmente, em escritos não-ficcionais de mulheres negras engajadas com o pensamento feminista (em especial a obra de escritoras como Audre Lorde, Toni Bambara, Barbara Smith, Michele Wallace, eu, e tantas outras), há uma demanda constante por interrogarmos nossas histórias pessoais, o que permitiria a ruptura dos silêncios, a revelação de nossas feridas e estratégias de cura. Infelizmente, esse chamado a romper silências não é bem-vindo por muitas pessoas negras, nem pela cultura hegemônica. Tampouco serviu como catalizador da produção de um corpo substancial de obras críticas que examinassem a construção de subjetividade e identidade em pessoas negras com relação às políticas da supremacia branca na vida cotidiana. Enquanto nossas falas e textos têm sido ouvidas e afirmadas por audiências negras e não-negras quando falamos sobre gênero, seja direta ou indiretamente sobre o trauma da dominação masculina, quando o tema é raça ainda há uma tendência a negar os discursos e textos de mulheres negras. Simultaneamente, teóricos negros mostraram e continuam mostrando uma grande relutância em articular e confrontar questões de sofrimento psicológico.

Coletivamente, a resposta dos homens negros tanto às teorizações e práticas feministas quanto ao foco no trauma individual foi negativa. Enquanto muitas mulheres negras nos comprometemos em movimentos de cura e buscamos muitas formas de terapia e autoajuda, no geral, os homens negros não tinham disponibilidade para abraçar uma análise do impacto da supremacia branca em nossas vidas, incluindo o reconhecimento tanto do trauma psíquico quanto a necessidade de tratamento psicológico. O grupo de homens negros que melhor respondeu a esse foco foi dos gays negros. Como sujeitos, eles estavam mais abertos a lançar olhares críticos à infância e às relações familiares, reconhecendo hábitos destrutivos oriundos dali que poderiam ser relacionados à internalização de atitudes e valores branco-supremacistas. Homens negros que são referenciais lideranças e/ou teóricos críticos, fossem ativistas ou pesquisadores, não levantaram a questão da saúde mental mesmo que tais questões tivessem sido levantadas por suas/seus pares nos anos 1960. Mesmo que suas obras fossem eurocêntricas, patriarcais, e fundamentadas na retórica do neocolonialismo, os psiquiatras negros Grier e Cobbs, com sua popular obra Black rage publicada no auge do movimento black power, ofereceram uma análise do impacto que a exploração e opressão racista tem na psiquê negra, fundados em interesses psicanalíticos. Sem dúvida o medo patriarcal de homens negros quanto a romper os silêncios e tornar público o sofrimento psíquico de pessoas negras nos deixar vulneráveis a ataques impediu tal obra de deslanchar. Hoje deveria haver um inacreditável referencial psicanalítico e psicológico, escrito de uma perspectiva progressista, sobre saúde mental negra a partir da conexão entre a vitimização concreta e transtornos mentais, mas infelizmente ainda não há.

Não importa quantas milhões de pessoas americanas, de todas as raças, se apaixonem pelos romances de Alice Walker e Toni Morrison e se identifiquem com o dano psicológico causado na vida das personagens; ainda hoje existe uma recusa cultural coletiva em assumir qualquer responsabilidade pelas feridas psicológicas em pessoas negras. O sucesso de um romance como Amada está no fato de nomear o trauma da escravização e pós-abolicionista. A escravização se tornou reconhecida como uma experiência de holocausto. Mesmo que livros como Amada, e outras obras de romancistas negros como The Chaneysville incident, de David Bradley, chamem atenção ao trauma da escravização e suas consequências, as/os leitoras/es não estão propensas/os a relacionar tal reconhecimento às circunstâncias contemporâneas concretas. De fato, para algumas/uns leitoras/es o foco na escravização desvia a atenção de situações atuais de trauma racializado, ou permite que elas/es banalizem o sofrimento contemporâneo. Simultaneamente, muita da não-ficção contemporânea escrita por pesquisadoras/es negras/os, especialmente homens, minimiza o significado do trauma para enfatizar a vitória sobre as adversidades. Quando Elaine Brown publicou A taste of power, uma narrativa autobiográfica de seu ativismo no movimento black power, ela descreveu um mundo em que visões políticas progressistas de resistência à supremacia branca e pela promoção da autodeterminação negra eram muito pouco conectadas à preocupação com o desenvolvimento psicológico maduro. Sua história, como a de muitas outras, pinta um retrato de agendas políticas radicais minadas por pessoas que às vezes estavam aprisionadas/os por transtornos psicológicos intensos que distorciam suas visões e julgamentos. O revolucionário cuidado com a saúde mental não estava na pauta da militância.

Atualmente, profissionais tradicionais da saúde mental que atendem pessoas negras muitas vezes rejeitam qualquer análise que leve em consideração uma compreensão política de nossa dor pessoal. Isso pode ser verdade tanto para profissionais de saúde mental negras/os quanto para quaisquer outras/os. O aumento de obras de autoajuda direcionadas às pessoas negras não significa que essa literatura conecta injustiça política a dor psicológica. Por exemplo, mesmo que haja muitos livros de autoajuda para pessoas negras abordando a questão da baixa autoestima, no extremo expressada como auto-ódio, mesmo que essas obras muitas vezes relacionem baixa autoestima e racismo internalizado, raramente elas mencionam processos curativos que incluam politização radical e ativismo social. Quando escrevi Sister of the Yam: black women and self-recovery, o intento era enfatizar as conexões entre trauma psicológico, transtornos mentais, e a loucura de formar subjetividade e identidade no patriarcado branco-supremacista capitalista. Eu queria ressaltar a importância do trabalho individual por recuperação, mas também conectar esse trabalho à ação progressista por transformações políticas.
O ressurgimento do racismo internalizado de raízes profundas, muitas vezes manifestado na vida negra contemporânea pelas políticas de tom de pele, é um indicativo de nossa falha coletiva em curar feridas psicológicas. Em Sisters of the Yam eu lanço questões sobre hábitos negativos de ser que podem ter emergido como formas de resistência política e/ou em dias de apartheid racial extremo, e questiono se tais estratégias de sobrevivência são úteis em nossa situação contemporânea ou se promovem transtornos mentais. Por exemplo, a dissimulação – a prática de lançar mão de qualquer aparência necessária para manipular uma situação – é uma forma de camuflagem que as pessoas negras usamos historicamente para sobreviver em ambientes de supremacia branca. Como prática social, ela criou ambiguidade, o uso de máscaras, esconder os verdadeiros sentimentos e desejos. Isso, se foi útil em relações cotidianas com exploradores e opressores brancos que detinham todo o poder numa situação de apartheid social extremo em que nossas vidas estavam constantemente ameaçadas, como paradigma para relações sociais minou os laços de amor e intimidade ao encorajar a supervalorização da ambiguidade, da mentira, do mascaramento etc. Até que teóricas/os críticas/os progressistas, especialmente com foco no cuidado à saúde mental, diferenciem entre os hábitos de sobrevivência usados para enfrentar o racismo que não têm mais utilidade e os que ainda permanecem construtivos, não pode haver desenvolvimento coletivo de estratégias de resistência que delineiem formas concretas de criar mentes saudáveis. Se não lidamos com nossas feridas psicológicas, se as encobrimos, nós preparamos o terreno para aprendermos a falta de perspectiva e uma impotência insistentes. Essa falta de agência alimenta comportamentos viciados compulsivos e promove os vícios. Raramente debates sobre vício em drogas/alcoolismo ou compulsão alimentar conectam esses problemas a um desejo de escapar da dor psicológica que é a consequência direta da violência racista e/ou nossa incapacidade de romper efetivamente com tal violência. No entanto, se essa realidade não é considerada, então as causas que levam ao vício genocida podem continuar ignoradas.

De forma similar, crianças negras não seriam emocionalmente mutiladas por problemas psicológicos que surgem em decorrência de baixa autoestima, causada pela internalização da mentalidade racista, se as/os afroamericanas/os tivéssemos institucionalizado políticas de saúde mental positiva que lidassem com esses temas para que não fossem passados de geração em geração. Traumas não-resolvidos se reatualizam continuamente a não ser que sejam abordados. As feridas psicológicas impedem que nos envolvamos nos movimentos por libertação e autodeterminação que aumentariam a qualidade de nossas vidas, bem como nossas interações com pessoas não-negras. Só quando rompermos com essa cultura da vergonha que demandou que nós afroamericanos nos calássemos e não falássemos de nossa dor é que poderemos nos engajar com estratégias holísticas de cura que vão quebrar esse ciclo.
Sem renunciar ao significativo legado da vitória sobre adversidades que tem sido um aspecto tão dinâmico da experiência negra nos Estados Unidos, nós temos que sempre abrir espaço ao reconhecimento da dor psicológica não-resolvida, recorrente. Apesar das incríveis mudanças na estrutura do racismo nesse país, ainda vivemos numa sociedade capitalista patriarcal de supremacia branca que tem que atacar e violentar as psiquês das pessoas negras (e de outras pessoas de cor) para se perpetuar e se manter. E nós ainda sofremos. Quando nós afroamericanas/os começarmos a coletivamente nomear e confrontar esse sofrimento em formas que são construtivamente curativas, nós vamos estar mais aptas/os a compartilhar nossa realidade com aquelas/es aliadas/os na luta que não são negras/os mas estão igualmente comprometidas/os a transformar essa sociedade, a acabar com a dominação racista. As relações entre pessoas negras e brancas, asiáticas, indígenas e outras não passarão pela mudança positiva que é necessária para estabelecer solidariedade e coalisão significativa a não ser que construamos coletivamente conscientização e engajamento com estratégias de empoderamento que nos permitam a todas/os nós quebrar com uma mentalidade colonial que promove transtornos mentais. Ninguém de nós pode criar movimentos revolucionários de sucesso na transformação social se começamos pelo ponto de vista do sofrimento. Ao tornar o cuidado com a saúde mental um aspecto mais central de nossos esforços de resistir à supremacia branca e transformar a sociedade de forma a promover a autodeterminação negra, nós afroamericanos vamos trocar a cultura da vergonha por uma cultura contínua da resistência. Lidando com nosso sofrimento individual e coletivo, nós vamos achar formas de nos curar e nos tratar que sejam contínuas, que possam durar de uma geração a outra.

[1] Healing our wounds: liberatory mental health care. In: hooks, bell. Killing rage: ending racism. Nova Iorque: An Owl Book, 1995. p. 133-145.

Imagem de destaque – bell hooks, Kalamu.