O que faz eu ser escritora?

Eu me revelar?

Sou apenas uma escritora de gaveta e estou confortável
nesta situação. Não quero assumir nada. Eu sei e reconheço
a importância política que tem uma mulher, principalmente
uma mulher preta com seu escrito. Mas eu me contento com a
minha singela revolução interna, com as minhas crises
existenciais.

Rachaduras, manchas e colagens mal feitas estão na minha
alma e no meu corpo. Fragmentos que compõe o que sou, um
grande quebra cabeça com peças que nunca se encaixam,
embaralhadas no meio do meu caos.

Observo o mundo e percebo que o reflexo dele está dentro de
mim. Quero extravasar, preciso gritar, mas não consigo.
Então vômito no papel as minhas verdades, acompanhada de
lágrimas e sangue.

A minha liberdade se faz através de um papel e uma caneta.
Meu doce elixir, minha cura para os dias de tempestade.
Agora minha intimidade revelada aos quatros cantos, para
todxs verem, aí não. Nunca está bom, não é a hora ainda,
nunca é. Parece que vou fracassar. A minha escrita é
baseada nisso, em falhas. É o meu lugar onde não preciso de
legitimidade e aprovação, e sim apenas na minha
autenticidade.

Sempre estive na sala de espera da vida, e assim acostumei
com a minha voz a tornar-se um grande ensaio.
O medo, o silenciamento, a invisibilidade, a insegurança, e
a violência foram grandes parceiros para esta jornada. O
meu raio X da destruição.

Agora simplesmente quero saber, quando à gente está pronto
para afrontar o mundo? Para jogar no ventilador a lama que
a vida joga em nós. Diz-me quando?

Imagem destacada – Pinterest