No mês de novembro, onde as agendas e pautas são todas tomadas pela temática negra, as Blogueiras Negras trazem à tona a produação das mulheres negras nos diferentes espaços. Fernanda Júlia é uma dessas mulheres. Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia PPGAC – UFBA e Dramaturga, ela conversou com a gente sobre suas impressões e estudos sobre o Teatro Negro.

Blogueiras Negras – Quem é Fernanda Júlia, especialmente no mês de novembro?

Fernanda Júlia é Onisajé (meu nome no axé e atualmente meu nome artístico), sou uma encenadora negra do interior do estado da Bahia, moradora da periferia de Alagoinhas, lésbica, feminista interseccional e yakekerê do Ilê Axé Oyá L´adê Inan. Não apenas em novembro, mas sim todo o tempo sou uma artista engajada, militante das questões negras e do feminismo interseccional negro. O teatro é um espaço midiático importantíssimo para o meu processo de comunicação e de diálogo com o mundo. É na cena teatral que busco valorizar, legitimar e afirmatizar minha identidade cultural de afrodescendente negra consciente de sua herança cultural africana.

Blogueiras Negras – O que você não pode deixar de falar quando o assunto é Teatro Negro?

Não posso deixar de falar da ancestralidade negra, do Candomblé. Não podemos deixar de falar de origem e herança, esses conhecimentos são fundamentais para uma consciência negra ativa, e o Teatro como espaço de encontro, de se ver e ser visto, como espaço de Re-visão de si mesmo carece de estar atento a essas questões, portanto o Teatro Negro não pode de forma alguma não nutrir-se desses elementos.

Blogueiras Negras – Conta pra gente um pouco de como você estuda e incorpora os elementos e fundamentos das religiões de matriz africana nos seus trabalhos?

Sou uma mulher negra religiosa, fui iniciada aos 17 anos para o Orixá Omolú, descobri minha veia para arte em contato profundo com o axé. E é deste modo, do modo como tudo funciona no axé que estudo. Com um olhar integralizado. O Candomblé formou minha percepção artística. Desde criança vejo as profusões de cores, ouço e canto as cantigas, danço as danças, como as comidas, sinto os cheiros do Candomblé, abraço e sou abraçada pelos Orixás e Encantados (Os Caboclos). No teatro não é diferente, alio a minha experiência de iniciada no Candomblé ao conhecimento prático da ritualidade do teatro, coloco esses dois universos em diálogo, compreendendo um verbo que cria uma unidade entre eles, “Encontrar”. Além desses fatores filosóficos e falando de forma prática, desenvolvo uma pesquisa cênica intitulada Ativação do Movimento Ancestral – AMA, é uma pesquisa cênico poética desenvolvida por mim no NATA desde 2009, que consiste no desenvolvimento e aplicação de exercícios corpo/vocais pautados na junção de elementos da ritualidade teatral a elementos do cerimonial público do Candomblé. O objetivo é colocar os artistas em profundo contato com sua herança ancestral africana e afro brasileira de modo a desenvolver e intensificar o processo criativo desses artistas por meio de estímulos sensoriais e sinestésicos, levando-os a buscar outras plataformas de criação e expressão cênica. Descolonizando a mente e corpo, afrocentrando e afrografando a criação cênica.

A visão de mundo do Candomblé norteia minhas escolhas artísticas, desde a temática para a montagem, como também da elaboração de exercícios de preparação para os atores que consistem em mergulhar no universo cênico do Candomblé, como as danças, a língua, o gestual, as vestimentas, texturas, cores, sonoridades, canto, ritmos, cheiros e sabores e saberes do Candomblé. Esses elementos são base fundamental para a criação dos exercícios e também para a criação do texto, cenário, figurino, iluminação, coreografia, música etc. Um conceito fundamental é que nosso fazer teatral é AFROGRAFADO, ou seja, seguindo o conceito criado por Leda Maria Martins, Afrografar é grafar africanamente, é reaver nossa herança negra africana, é ressemantizar, reterritorializar, rematizar a nossa arte.

Blogueiras Negras – Você também esteve na academia. Como esse lugar acolheu suas angústias e desejos? Você conseguiu fazer lá o que desejava? E o que aconteceu depois?

Continuo na academia hehehehe!! Estou fazendo Doutorado no Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia PPGAC – UFBA. Meu contato com academia foi e continua sendo dinâmico e conflituoso. A academia é um espaço de geração de conhecimento, não é o único espaço, mas é um espaço legitimado pelo sistema como fundacional da criação das verdades do conhecimento, portanto temos que habitá-lo, pois é de lá que saíram e ainda saem diversas publicações que orientam a criação e a legitimação de verdades e inverdades sobre o pensamento humano e, por conseguinte, sobre nós negras e negros. Por isso lá continuo, ocupando. Além do doutorado, estou professora substituta e tem sido importante a fala e a contribuição sobre Teatro Negro num espaço branco e eurocêntrico e norte-americanocêntrico. Briguei e ainda brigo muito, os estigmas sobre nós persistem. Mas temos também vitórias, a universidade vem se empretecendo, estou numa turma de doutorandos com um montante antes impensável de pesquisadores negros, com pesquisas sobre negritude ao todo seis numa turma de 22, pensem que até 2010 éramos nenhum.

Ainda não consegui fazer o que me proponho, mas continuo buscando uma construção de pensamento acadêmico diverso, descolonizado. Gosto de estar lá, não é fácil, mas é desafiador. Estou estudando para disputar uma cadeira como efetiva da escola de Teatro, o sistema só se modifica de dentro, sem professores negros, como o Teatro negro será estudado? Estou neste processo.

Blogueiras Negras – A sua história se confunde com a história do NATA e vice versa. Conta pra gente como é poder experienciar atuar num espaço tão belo e ao mesmo tempo tão desafiador.

Instigante!!!!! O NATA tem sido a minha vida, sou a única componente desde a fundação em 1998. Acompanhei cada mudança, cada desafio. Minha carreira como encenadora fortaleceu-se como sendo uma encenadora de grupo, a encenadora do NATA. Somos de Alagoinhas, sabemos nossa origem, temos pertencimento e tudo isso nos norteou em cada escolha. O NATA é um grupo que surpreendeu a capital por vir do interior do estado com um maneira potente de atuar. Nunca relegamos ou renegamos nosso chão, somo artistas negros do interior e atuamos com o interior amostra. Outra coisa fantástica é o trabalho continuado que a possibilidade de trabalho em grupo oportuniza, crescemos e amadurecemos juntos a cada montagem, a cada projeto. Somos onze artistas, hoje com companheiros de outras cidades, mas que entendem a necessidade de fortalecimento do nosso discurso negro em Alagoinhas.

Blogueiras Negras – São muitos os seus trabalhos: Sire Oba – a festa do Rei, Ogum – Deus e Homem (Prêmio Braskem), e projetos como o NATAS em Solo. Todos eles fundamentados na afirmação da identidade negra. Como pode um Teatro Negro não ser hegemônico? Como você entende essa invisibilidade e esse apagamento racista?

Sim são muitos trabalhos nestes quase vinte anos, Siré Obá – A festa do Rei (esse indicado ao Premio Braskem 2009 em três categorias, direção revelação, melhor espetáculo adulto, categoria especial para Jarbas Bittencourt pela direção musical da montagem, sendo este premiado), Ogun – Deus e Homem, Exu – A Boca do Universo (Também indicado ao Prêmio Braskem de Teatro 2014, em quatro categorias, melhor espetáculo adulto, direção, categoria especial para Thiago Romero pela direção de arte do espetáculo cenário, figurino e maquiagem, e melhor espetáculo do interior. E agora o projeto Natas em solos. Uma caminhada potente, desafiadora e muito vitoriosa.

Num país ainda colonizado, com uma elite cafona, racista e medíocre e uma classe média subalterna aos desejos e a pauta do capitalismo é impossível um Teatro Negro hegemônico embora sejamos a maioria da população. A invisibilidade e o apagamento racista são as armas deste sistema para impedir a ascenção em todos os âmbitos daqueles que a violência do imperialismo e do colonialismo escravizou. As estruturas são compostas para impedir a afirmação, legitimação e construção afirmativa de um imaginário simbólico para o povo negro e indígena. A ideia imbecil de universalidade branca permeia as relações e a manutenção dos privilégios e privilegiados brancos agarram-se a qualquer expediente para manterem-se no poder. Eis aí o motivo da palavra diversidade causar guerras.

Blogueiras Negras – Você é uma dramaturga premiada, reconhecida e estudiosa da sua área. O que você diria para as jovens negras que estão nas diversas cadeias do teatro e galgando espaço – atrizes, produtoras, dramaturgas?

Diria que conheçam-se, investiguem sua origem, reconheçam sua identidade de mulheres negras, depois, que consumam o Teatro Negro e a Arte Negra em toda a sua diversidade, Conheçam o Candomblé e principalmente a mitologia das Yamis e das Yabás, conversem com Yalorixás, visitem a página de Mãe Stella de Oxossi no youtube, leiam seus livros, assistam Viola Davis, leiam Chimamanda Adichie, Conceição Evaristo, Cidinha da Silva, Leda Maria Martins, Maria Carolina de Jesus, assitam a teledramaturgia de Shonda Rymes, ouçam Angelique Kidjo, Elza Soares, Carol ConKa, leiam Djamila Ribeiro, Carla Acotirene, as Blogueiras Negras, Portal Soteropreta, Geledés. Enfim percebam a grande rede feminina negra que estamos criando, produzindo, mantendo. Apoiem e consumam arte de mulheres negras e compartilhem!!!!! Ocupem espaços de poder!!!!! Estudem, iniciem-se no axé e reconheçam seus Orixás, Inquices, Voduns e Encantados. Enfim façamos valer o poder ancestral do axé!!!!!!